sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

Interessa o que não está

Dentre um tanto de coisas que me emocionam, aquilo que não se mostra, que habita o universo do não-dito e, por isso, diz respeito apenas a mim, me encanta mais no cinema – e o diretor James Gray sabe bem do que não fala.


marion.jpg
Marion Cotillard como Ewa Cybulski


Paulo Leminski pediu que reparássemos bem no que ele não dizia. Era poeta. Por ser poeta, mexia com palavras, com o dizer. Ainda assim – ou apesar disso –, o curitibano sabia que o sentido de tudo, de todos os versos, de todo o sentimento feito letra, mora no silêncio.

Acredito que todo ser humano atento e sensível, que dedica um tempo de si ao vazio, sabe bem da potência daquilo que não está, do não exposto. As pausas de uma música, os olhares silenciosos dos atores em quadro, as cenas inexistentes de um filme são janelas, aberturas para que possamos respirar, enxergar o outro lado, imaginar. Tudo o que Leminski não disse habita única e exclusivamente no imaginário – dele, meu, nosso.

É nesse lugar suspenso, como a conversa muda no olhar de dois amantes, que o diretor americano James Gray se comunica com o espectador, abrindo espaço para um encontro possível no universo da imaginação. Nós podemos recriar seu próprio filme, a partir de todo o não-dito.

Foi assim que saí do cinema, após assistir ao novo longa de Gray, “Era Uma Vez Em Nova York”, carregada das histórias não contadas. Em especial, dos personagens principais, Ewa Cybulski e Bruno, interpretados por Marion Cotillard e Joaquin Phoenix.

A história do filme, que se passa na Nova York de 1921, é envolvente, emocionante, triste, bonita, contraditoriamente surpreendente e clichê, e um tanto mais. Até aí, porém, nada de excepcional. Um filme de amores tortos, sobrevivência e dor não é novidade. Mas o que James Gray nos traz – como um presente – é aquilo que ele não diz.

O passado dos personagens, o que se passa no íntimo de cada um, transborda silenciosamente na atuação exemplar do elenco, nos curtos diálogos existentes. Cabe a nós criar os caminhos que os levaram até ali, ao momento presente do filme. Poucas pistas nos são dadas, o mínimo para que a trama possa se desenvolver. O restante, fica por nossa conta.

O filme me deixou com um sentimento diferente, uma saudade estranha. Como se, de alguma forma, aqueles personagens agora fizessem parte de mim – ou sempre o fizeram e eu só não sabia. Fui outra vez ao cinema, no dia seguinte, meio que num impulso. Assisti outra vez ao filme.

Ao sair dessa segunda sessão, me dei conta do que estava acontecendo. Eu precisava rever Ewa e Bruno. Não numa espécie de encantamento inocente, mas porque ainda não tinha conseguido compreendê-los. De alguma forma, eu desejava (me) encontrar (em) suas histórias nos vazios que Gray nos impõe.

Não sei bem o que encontrei, afinal.
Nem mesmo se encontrei algo.
Mas, na verdade, isso não importa. O que vale e o que fica – de toda experiência íntima com um filme – não é o achado, mas esse ímpeto da busca, esse convite (e o aceitar) a participar de outras histórias. Isso só um diretor capaz de grandes ausências pode proporcionar.


Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Isabela Bosi