sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

Encarnado em mim

Música como memória, amor, religião e dor. Encarnado, de Juçara Marçal, é um disco que reverbera por dentro e seu show, dos mais impactantes da atualidade.


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Juçara Marçal

Da primeira vez que vivi Encarnado ao vivo, lembro-me pouco – quase nada.
Sei da emoção que experimentei, dessas que penetram a gente quando há conexão – encontro –, mas é como se me tivessem apagado a memória e deixado só o sentir. Esqueci de um tanto, como a ordem das canções e mesmo de algumas das músicas tocadas (Zé Keti estava naquele show?).
Não faço ideia de quanto tempo durou tudo aquilo.

Espécie de transe: apagão.

A memória, nossa ilha de edições sentimentais – como sabiamente sabia Wally –, fica com aquilo que pode sustentar. O que a extrapola é cortado gentilmente de seu alcance. Fiquei, portanto, com a dor e a beleza provocadas em mim naquela noite e esqueci-me do resto.

Talvez por isso eu tenha permanecido no desejo de reencontrar Encarnado no palco. Voltei para casa querendo mais, de novo. Uma busca por recuperar os pedaços que me escaparam, quem sabe?

O disco, vencedor da categoria Música Compartilhada do Prêmio Multishow 2014, é – sem dúvidas – das melhores surpresas da música brasileira deste e dos últimos anos, de uma beleza devastadora. A guitarra de Kiko Dinucci, que já possui voz própria, parece se utilizar das mãos do músico para existir – já existindo. O estômago do disco está nas cordas de Kiko, que assina duas faixas do álbum: o samba-crônica “João Carranca” e “Ciranda do Aborto”, que não consigo classificar porque mora num lugar superior às palavras.

Demorou um pouco, alguns meses, para que eu pudesse finalmente recolher as lascas que me escapuliram da primeira vez. Agora, diante do palco, pus-me a prestar maior atenção a cada detalhe – como as mãos de Juçara que, dançando, nos convidam à flutuar ou os cabelos de Thomas Rhorer parecidos com a própria rabeca, iluminados. Absorvi Rodrigo Campos, silencioso no jeito, com guitarra e cavaquinho que preenchem todos os espaços, contrapondo a força da voz de Juçara com uma nobre leveza.

Os quatro formam uma espécie de entidade. Faz sentido que seja assim, juntos. Há no quarteto uma densidade vibracional, fruto da sensibilidade e maturidade musical de cada um, que permite ao público afundar-se sem medo. Uma entrega coletiva.

Esforcei-me por catar tudo o que me cabia à vista e também do lado de dentro. A força da música ali encarnada é tão grande que nos invade. Manter-se presente o tempo todo é impossível. Viajamos ao nosso interior de tudo, onde acontecem as maiores revoluções.

Durante o show, senti-me um tanto febril, quente. Meu corpo estava esquisito, falta de ar, de água. Um mal-estar em potencial que se converteu em êxtase. Percebi-me fazendo parte, mais uma vez, de um ritual conduzido por Juçara – a própria música encarnada – e sua banda ideal – outra não caberia.

Assistir ao show repetidamente é como mergulhar fundo numa fogueira, queimar-se, virar cinzas para renascer. Encarnar novamente. Agora, com todos os pedacinhos nas mãos, a lembrança viva e completa, sigo o caminho sendo outra.

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Mais sobre Juçara e Encarnado AQUI.


Isabela Bosi

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