sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

Manéco

O menino estava cansado disso aqui. Sentia-se diferente. Para respirar em paz, inventou seu próprio idioleto, criou um novo mundo.


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Nascer é difícil. Uma decisão forte, deixar o útero, abrir os olhos pela primeira vez e aprender a enxergar. O ar que primeiro entra nos pulmões alivia e arde. O coração começa a bater e já não temos mais controle. Entramos em funcionamento.

Manoel nasceu diferente. Nasceu meio tronco, meio pena. Atrasado. Parecido com as pedrinhas de um rio em eterno movimento – nasce e morre em círculo. Antes de aprender a andar, rastejou e caracolou pelo piso da sala de estar. Era bicho e era menino. Não cabia, por isso, nem lá nem cá.

Entrava nas roupas que lhe compravam. Começou a segurar talheres e a falar português porque assim lhe ensinaram. Mas seu corpo era também pássaro e voava pela cozinha, passeava por outros cômodos da casa. Aprendeu que as folhas das árvores servem para nos ensinar a cair sem alardes e ninguém foi capaz de lhe segurar pelo braço-asa.

Não conseguia se encaixar nos pacotes que lhe davam.
Percebeu, logo cedo, que o olho vê, a lembrança revê, mas é a imaginação que transvê. Seus olhos-águia e coração-planta lhe mostraram novas palavras para transver o mundo. Era poesia.

Há várias maneiras de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira – ele repetia enquanto permanecia dentro de si, sem sair nem para pescar. Procurou-se ali dentro a vida inteira. Não se achou – pelo que foi salvo.

Inventou sua própria língua para descobrir a poesia. Uma língua de bocós e idiotas, capaz de criar universos tão absurdos quanto palpáveis. Não sabia que seria amado por isso. Não se tornou pensando em ser amado. Apenas precisava respirar, segurar água na peneira.

Considerava poderoso não aquele que descobre ouro, mas aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas). Por isso, sabia bem do amor. Sabia-o através das coisas do mundo, vistas por seus olhos impossíveis.

Fez-se vagabundo profissional para ficar inteiramente à disposição da poesia, essa virtude do inútil. Para ele, a palavra poética tinha de chegar ao grau de brinquedo. Construiu casas na árvore e brincou sozinho com os sonhos que lhe rodopiavam no peito.

Nunca quis dar informações a outros.
Dedicou-se à tarefa de dar encantamentos.
Como poeta, compareceu aos próprios desencontros a vida inteira, chegou ao último grau de si mesmo. Transviu o mundo. Transviu o mundo e deu-nos de presente.

Se tudo que não inventou é falso, fico com a verdade de seus versinhos-imensidão. Parte de mim permanece e cresce em seus cadernos feitos à mão – estes que não pude segurar, mas sei serem cheios de inutilidades, transparências, voos.

Manoel morreu como nasceu: menino-flor – só que recheado de poesia e amor de tantos de nós, bichos e pedras. Morreu sem morrer, pois bem sabia que, diferente do ser biológico, o poeta não é sujeito à variação do tempo – ele persiste.


O tempo só anda de ida

A gente nasce, cresce, envelhece e morre.

Pra não morrer

É só amarrar o tempo no Poste.

Eis a ciência da Poesia:

Amarrar o tempo no Poste!

Manoel de Barros

*

PS. Eu e Manoel escrevemos este texto juntos, sem que ele saiba. Está cheio de suas frases-borboletas misturadas às minhas tentativas de lhe dizer qualquer coisa daqui debaixo.


Isabela Bosi

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