sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

Sobre a cidade em nós (ou a necessidade de ruína)

Se uma cidade não se lê com olhos nem com o corpo inteiro, mas com tudo e em todas as direções, como ensinou Leminski, me espalho e me dissolvo pelas ruas, me escondo e me recolho nas ruínas físicas e invisíveis de Fortaleza.


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Foi há nem tanto tempo que descobri um refúgio. Refúgio que, segundo os dicionários, é onde nos escondemos de perigos. Um lugar perto de onde moro, que o tempo e o mar se incumbiram de transformar em ruína. Já se podem ver os ossos da construção, escapando por entre pedaços partidos da estrutura.

É onde me guardo dos perigos internos, vivos em mim nesta cidade. Dali, temos uma vista privilegiada do pôr do sol, do horizonte e da orla, tomada por edifícios enormes, que esmagam uns aos outros – desesperados em busca de ar. Dali, é possível sentir com mais força a presença do vento e sorrir com isso, por isso.

Moro numa cidade que mora também em mim.
Ela se chama Fortaleza.
Pouca gente a conhece, apesar de ser um dos destinos do Nordeste mais procurados pelos turistas e ter mais de três milhões e meio de habitantes.

Para conhecer uma cidade é preciso lê-la. Isso já dizia Paulo Leminski, que gostava das letras escritas no papel e n’outros cantos. Letras visíveis e invisíveis aos olhos. Para ler e, lendo, conhecer é preciso cuidado, atenção, calma e dedicação. Nem todos estão dispostos.

No texto-ninja “Ler uma cidade: o alfabeto das ruínas”, publicado em seu livro “Ensaios e anseios crípticos”, Leminski descobre que uma vida é muito curta para saber de cor mais de uma cidade. Assume saber de cor apenas uma, sua Curitiba.

Eu, que me pego lendo e relendo textos, sei de cor pouca coisa. Não sou boa de decorar tudo. Minha memória é esperta, só guarda aquilo que lhe convém. Por isso, já sei, preciso ler mais de uma vez as mesmas ruas, calçadas, praças, os mesmos bairros, postes, chãos. Em Fortaleza, a releitura diária é um tanto indispensável a todos. A cidade muda de cenário com frequência.

Também tem noites, Leminski, em que sonho passar por lugares que não existem mais. Talvez, por isso, um de meus lugares-repiro seja uma ruína, “um maior abandonado no meio dos edifícios” – onde a memória ainda não foi assassinada. Mantém-se de pé com dificuldade e resistência, ruindo aos poucos.

Só na cidade pode-se morrer a qualquer momento, dizia Leminski, e parece que falava só de Fortaleza, ainda que – muito provavelmente – falasse mais de Curitiba. Morre-se a qualquer momento, em qualquer esquina, todos os dias com o homicídio precoce de ruínas que nunca virão.
Cidade-construção.

“Ainda hoje, quando vejo um belo caixote de vidro e cimento na Avenida Paulista, ainda me consola pensar: – Calma, calma, rapaz. Imagine que bela ruína isto vai dar um dia.”

O amor de Leminski pelas ruínas o levou, segundo ele, a odiar a arquitetura. A ideia da construção de algo útil em contraposição à resistência de algo, agora, inútil. Ruína. Inútil como os poemas de Manoel de Barros, como os livros de Rubem Alves. Inútil como as asas de uma borboleta e as ondas do mar, que insistem em quebrar na areia. Ruína. Inútil por estar aos pedaços e por falar do passado mais que do futuro.

A memória na ruína como algo irrelevante, indesejado pela arquitetura, pela falsa noção de progresso, por aqueles que descartam a beleza das inutilidades necessárias à alma.
Ruína.

Todas as ruínas são o resto de um sonho realizado, dizia Leminski para nós e para si mesmo. Um consolo. A ruína é, em realidade, a certeza de algo que existiu e caiu. Tudo cai. Uma rua é também ruína de milhões de passos e pegadas, de encontros fortuitos e pontuais desencontros, dizia o poeta. Andamos todos os dias por ruínas de nós mesmos. Ruímos.

Enquanto Leminski tirou para dançar todas as ruínas de Curitiba, eu sigo convidando as de Fortaleza para pista de dança ao som do mar, do vento, das buzinas e britadeiras desta cidade de tantos finais, de tantas despedidas, demolições, esquecimentos.

De tarde, quando o sol começa a deitar e as pessoas correm para suas casas, ninguém vê, mas estamos dançando debaixo do céu multicolorido.

“Não admito viver numa cidade artificial. Todas as cidade que nasceram na maquete do arquiteto e do engenheiro são fascistas. Uma cidade tem que nascer sozinha, em espontâneo brotar. Não se pode dizer, eu quero uma árvore ali, me tire essa praça daqui.”

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena.
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