sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

Vida engarrafada

E, já perto do fim-início do dia, ele me disse: a tua cidade é um grande engarrafamento, é horrível viver daquele jeito; aqui eu ando descalço, acordo e vou surfar antes do expediente; faço tudo a pé. Depois disso, de alguma forma, nunca mais voltei.


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É erro pensar que na cidade grande é mais fácil ser feliz. Não é.
Somos convencidos - seduzidos - de que, aqui, se pode tudo. Os melhores shows, teatros, museus, as melhores festas, universidades, oportunidades de emprego. Nunca se fica entediado. Minha cidade é importante, aqui tudo acontece, tem pessoas de todos os lugares, tem engarrafamento, tudo é caro, o cafézinho custa dez reais, acredita que pra chegar ao trabalho eu tenho que sair de casa duas horas antes, senão não chego?

Fala-se das mazelas como troféus.
Sofrer é qualidade de vida.
Moro numa das maiores cidades do país. Como sou privilegiada!
Não posso reclamar. Tenho um bom emprego. Moro no centro de tudo. Meu apartamento é bem caro e meio apertado, eu sei, mas é mais perto do trabalho e tem um cinema ótimo ao lado. Não lembro a última vez em que fui ao cinema.

"Se você não consome a cidade, a cidade te consome", me dizia. Por isso e para isso é preciso trabalhar muito, ganhar o máximo de dinheiro possível. A que horas o sol se pôs hoje? Nem vi. Já é lua cheia? Ah, a praia deve estar uma delícia agora, bem vazia. Mas só posso ir aos domingos. Tem que chegar cedo, senão é impossível conseguir vaga. Ai, desisti. É o único dia em que posso dormir mais um pouco. Não pude dormir. Precisei ir ao supermercado. É o único dia que tenho pra fazer compras. Os dias têm sido lindos, céu azul. Vejo da pequena janela da minha sala com ar condicionado. No próximo domingo, vou à praia.
Estou tão cansada.

Cidade-consumo,
onde a maioria das doenças da alma se proliferam.
Depressivos, hipertensos, obesos.
Ansiedade, síndrome do pânico, insônia.
Sou tão feia. Se ao menos tivesse dinheiro para uma plástica no nariz ou para aquele vestido que valoriza meus seios. Vou comprar essa revista, tem dicas de dietas e uma entrevista com a Bruna Marquezine. Queria ter o corpo da Bruna Marquezine. Não sei muito bem o que quero. Sigo.

Não conheço meus vizinhos. Mal nos vemos.
Acho que aqui, ao lado, mora uma criança. Às vezes, escuto um choro.
Meu apartamento é muito pequeno. Só tenho uma janela. Mal abro, porque dá para uma das avenidas mais movimentadas de Copacabana e o barulho é insuportável. Duas vezes por semana, o caminhão de lixo passa e o cheiro sobe. Quando faz muito calor, a sensação térmica aqui é ainda pior. Não há ventilação.
Ainda bem que trabalho fora o dia inteiro. Não preciso ficar aqui dentro.

São mais de dez apartamentos por andar.
Dez caixas de sapato que não se comunicam.
À noite, dou duas voltas em cada fechadura. São três.
Assim, estou protegida.
Ouço um barulho e fico com medo. Estão tentando arrombar minha porta?
Não, não pensa nisso. Dorme logo! Já está tarde.
Durmo pouco e mal. Sempre.
Estou tão cansada.

Queria largar tudo e morar numa cidade menor. De preferência, uma cidade litorânea.
- esqueceu-se de que, atrás do seu prédio, está o mar -
Não posso. Seria burrice deixar essa cidade grande, onde tenho tudo, para morar num lugar pequeno.
Eu ficaria entediada.

Espera, então, ansiosamente pelas próximas férias.
Todo seu dinheiro economizado é para essa viagem.
Toda sua vida é economizada para essa viagem.
Finalmente vou sair um pouco dessa cidade!


*Texto livremente inspirado no artigo "Entre o medo na Construção e o medo nas cidades - Reflexões sobre um afeto universal", de Maíra Bosi, ainda indisponível na internet. O artigo faz um paralelo entre o medo no texto A Construção, de Franz Kafka, e os nossos medos na cidade.*


Isabela Bosi

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