sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

Para animar a festa, Jorge Maravilha

Quanto mais te vejo, amor, mais eu quero ver você. Celebremos mais um março, mês em você desceu pr'esse mundo! Muitos brindes, Jorge!


jorge ben, 1970, jornal do brasil.jpg


A cegonha me deixou em Madureira.
Que presente para minha mãe!
Cheguei sorrindo, cantando, em vez de chegar chorando.
Acharam estranho.

Muito antes de mim, ele nasceu.
Ainda bem antes de mim, ele se descobriu música – a música lhe descobriu.
Nasci numa atmosfera já impregnada de ti, num Rio de Janeiro de terezas, bebetes, domingas, lorraines, katarinas. Nasci no meio da torcida do flamengo, poucos minutos após aquela falta na entrada da área, lembra?
É gol, é gol!, já ouvia de dentro da barriga.

Passei a infância contigo, sem perceber.
Crescemos juntos. Ele mais à frente, sempre à frente, um tanto além, n’outra esfera musical e, de certa forma – nem tão sutil –, me constituindo aos poucos, participando do que sou.

Fez parte de minha adolescência desengonçada. Foi comigo pra fora, pra longe dessas terras cariocas. E ali, disfarçado de um monte de coisas, passou a habitar um espaço pequeno, escondido, desesperadamente feliz de meu corpo. Um lugar bem meu, onde é possível voar.

Voa bem alto, Jorge, e traz uma estrela pra mim.
Jorge amigo anjo
Voa, Jorge, Jorge voa

Fui te descobrir imenso no meio de minha juventude faminta.
Te devorei até cair numa indigestão maravilhosamente infinita.
Hoje, contigo aqui dentro, sendo dolorosa e deliciosamente digerido aos pouquinhos, me deparo outra vez contigo no palco.

Jorge com sua guitarra, seus óculos escuros, sua simpatia (salve!).
É como mergulhar numa espécie de transe.
Tudo e todos ao redor se reduzem a tão pouco, quase nada.
Meu próprio corpo e todo esse peso insistente desaparecem.
Vejo-me dissolvida no oceano de sua música – nunca tem fim.

Pois, com sua sabedoria e coragem, mostrou que com uma rosa
e o cantar de um passarinho nunca, nesse mundo, se está sozinho

O show começa com a oração mais bonita ao santo de mesmo nome e segue por uma hora ininterrupta em que Jorge só para pra enxugar o suor do rosto – mas, antes, passa sua toalhinha branca na guitarra, quase num carinho. Sabe-se menor do que o instrumento – mesmo não o sendo.
Jorge é maestro. Conduz a banda com olhares, mãos, voz. Só a cozinha!, pede. Brinca com as próprias composições, essas que permanecem, sobrevivem, resistem, participando de nossas vidas de forma tão íntima.

De repente, no meio daquele transe, colocam, na frente do microfone, um papel.
Falta cinco minutos para o fim do show, está escrito.
Jorge chuta a folha, num gesto eufórico de quem já se abandonou à música.
Todos riem.
Ele não ri.

Deixa o menino brincar
Pois ninguém sabe o dia de amanhã
Pode ser um dia lindo, um dia triste pode ser
Pode ser que ele seja alguém quando crescer

Acaba.
Sai do palco.
Os instrumentos ficam – sabemos que haverá um bis.
Volta a banda do Zé Pretinho.
Volta Jorge.

Eis que o show cresce, ali, no bis, quando já não se esperava mais nada, um bis de uma hora e meia em que Jorge se perde no meio da sua própria festa. Canta “Domingas” à pedido de uma fã de mesmo nome. Canta “Solitário Surfista” quando, já prestes a finalmente deixar o palco, o público pede em coro. Canta parabéns para o Pedro, um rapaz desconhecido da plateia. Dança sozinho. Dança com a guitarra. Dança com várias meninas que sobem ao palco. O show, por fim, se transforma numa farra infinita. Algum dia acaba?

De cima do palco, Jorge derruba as fronteiras entre artista e público com força, doçura e uma pitada de safadeza que lhe são inerentes. Entrega-se tão plenamente à força da música que não há como impedi-lo. Músicos, técnicos de palco, fãs, seguranças, todos terminam juntos, ali, no meio da festa de Jorge.

E eu, absorvida, de cima, de longe, longe, tão perto, extasiada, participando daquela celebração, observando, percebendo em mim, dentro de meu peito, a enorme quantidade de sentido e sensações que o senhor Jorge Duílio Lima Meneses, o menino Jorge, foi capaz de provocar e acumular em mim ao longo de todos os anos – transbordo.

Poucos me habitam dessa forma, Jorge.
Fiquei ali, sorrindo contigo e pra ti, feliz por toda a vida, eternamente colorida.

Há seis mil anos que o homem vive feliz fazendo guerra e asneiras
Há seis mil anos Deus perde tempo fazendo flores e estrelas
Eu sou um homem sincero porque nasci, cresci e vivo livre
Eu sou um homem sincero, quero morrer, nascer e viver livre


Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena.
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