sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

Pequenas biografias inusitadas

De todas as maiores lembranças, o mar é quem fica, quebrando dentro de mim com força. Fico pensando que memória é coisa séria, é ilha de edição, de ilusão, ilha nada deserta de refugiados – onde me abrigo tantas vezes.


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Esses dias, inesperadamente, caiu diante de mim o curta-metragem “Aquele Cara”, de Dellani Lima. “O filme é sobre Jonnata Doll” foi a única coisa que ouvi antes de dar o play sem grandes expectativas, sem ler nada sobre, totalmente em branco – como procuro estar ao ver filmes.

Já era tarde, quase hora de dormir. O notebook na cama e as luzes do quarto apagadas. 0:00, a primeira cena já me diz: te prepara que aqui é saudade. O filme, de fato, é sobre o cantor e compositor cearense Jonnata Doll, sobre o que ele pensa, sente, sobre sua vida, sua relação com a música, com as drogas, com o amor, com as buscas. Mas – também e, talvez, mais que tudo – é um filme sobre Fortaleza.

Praia de Iracema. Fim de tarde.

A câmera vai caminhando, acompanhando Jonnata, enquanto me vejo ali. Um filme de repente sobre mim. Reconheço-me a cada passo, em cada ponto daquela orla, daquela ponte, daquelas pedras, daquele mar, daquele céu. Sinto a água morna tocar meu corpo. Noto que o filme conversa com minhas lembranças.

Uns dirão que todos os filmes são assim, falam um pouco de nós.
Eu direi que não. Raros filmes me comunicam com tanta propriedade e sutileza – afinal, só eu me vejo ali. Não estou nas falas de Jonnata nem em seu olhar, seu sorriso ou sua lembrança. Participo do plano de fundo, do vento que chega até seus cabelos sem pedir licença. Sou esse vento.

O caminho percorrido no filme foi inúmeras vezes feito por meu corpo e eu me emociono. De alguma forma, ainda estou ali, passeando pela Praia de Iracema sozinha, pra sempre. É um filme sobre o fim, sobre uma despedida minha. Não estamos mais juntos. Tudo bem. Escolhemos não estar. Mas memória é coisa séria.

Pouco tempo depois de assistir ao belíssimo filme de Dellani, um amigo me envia “Adeus, Mandima”, um curta de Rob-Jan Lacombe. “Veja”, diz meu amigo, assim, no imperativo, como se não me desse opção. Obediente, assisto.

Volto aos meus dois anos de idade. Primeira vez em que deixei uma cidade e parti para outra, nova, desconhecida. Não me lembro – poucos conseguem voltar tão longe assim. Tenho muitas fotos, porém, dessa e das mudanças seguintes – quase sempre entre duas mesmas cidades, as minhas cidades. Incontáveis fotos. Grande parte de minha lembrança se constitui a partir delas.
Lembrar é, também, rever, reler, redescobrir-se, afinal.

O curta de Lacombe começa com uma fotografia e a frase “Hoje é o dia da partida”. Aujourd'hui, c’est le départ. Uma foto panorâmica protagonizada por ele, sua família, um avião e um grupo enorme de africanos, que, logo, descobrimos ser metade da vila onde morava, que sempre iam assistir às decolagens. Vila esta onde Lacombe passou os primeiros anos de sua vida, descobrindo-a, descobrindo-se.

Nos dez minutos seguintes, Lacombe nos conta, com auxílio de outras fotos, sobre o dia em que partiu de volta da África, este lugar onde nasceu, para a Europa, onde nasceram seus pais. Continentes vizinhos. Mas um está em cima, por cima - acima?

Ainda era um menino, uma criança. Não sabia da gravidade das mudanças, de tudo o que se movimenta, se transforma, deixa de ser e passa a ser, ao mesmo tempo, quando saímos de um lugar e vamos a outro, sem data para voltar.
Quem seria se nunca tivesse saído dali?
Quem é, agora que saiu?

Já perto do fim do filme, Lacombe pergunta a si mesmo: “De onde vai dizer que é, mais tarde? Onde fica seu lar?”. Mandima ou Paris? Rio ou Fortaleza? Existe um só lar para nós? É preciso saber-se de algum lugar, afinal? Excluir, assim, tão violentamente, um pedaço de você em detrimento de outro?

O que de nós fica enraizado num lugar enquanto nosso corpo se movimenta por outras ruas, aprendendo novas palavras em sotaques diferentes?

Se Dellani me deu saudade, me mostrou que nunca estamos numa só cidade quando aprendemos a ser vários – estou espalhada –, Lacombe me confirmou isso. Dois filmes sobre mim. Pequenas biografias inusitadas de uma espectadora desconhecida.

*

Meu conselho é imperativo, como o de meu amigo: veja.

Adeus, mandima, de Rob-Jan Lacombe

Aquele Cara, de Dellani Lima, está temporariamente indisponível na internet. Mas este é seu canal no youtube, onde tem outros curtas bonitos.


Isabela Bosi

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