sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

Do ser mulher, ciclos

Ciclo: sequência de fenômenos que se renovam periodicamente, movimento, mudança, oportunidade de renovar-se, ser mulher.


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Meu corpo é feminino.
Seios, vagina, algumas curvas, outros detalhes discretos e evidentes ao mesmo tempo – sempre depende de quem observa –, mas não é disso que estou falando. Tudo isso se tira e se põe com certa facilidade, caso se queira.

Vou um pouco mais fundo, naquilo que movimenta a voz de certas cantoras – as grandes –, de onde todos nós viemos, o que faz com que sangremos, vazemos, nasçamos e morramos a cada mês. Característica inata, pura, do ser mulher: ciclos.

A primeira vez em que menstruei foi uma celebração interna.
Já esperava por isso há meses. Fui a última das amigas e não podia mais aguentar de ansiedade. Queria “tornar-me mulher”. Virou mocinha, dizem. Não sabia de muita coisa, mas sabia, sem saber, que dali algo misterioso começaria a acontecer em meu ventre, a despertar em mim.

Tinha treze anos.
Poucos pêlos, poucos seios, poucas curvas, pouca desenvoltura e sangue. Já sangue, uma vez ao mês, me preparando silenciosamente para o futuro, para a vida. Sangue que anuncia a possibilidade de criação, a possibilidade de nos reinventarmos, a necessidade de auto-observação, a conexão feminina com a terra, com o movimento cíclico da natureza. Sangue que escorre um tanto de sabedoria.

Não se conversa muito sobre isso.
Falamos, entre mulheres, das dores, dos incômodos, do nojo, da tensão e das espinhas que antecedem, dos tipos de absorventes, do dia em que vazou da calcinha e sentimos muita vergonha, de quando atrasou e quase morremos do coração. É essa uma das grandes cumplicidades femininas: reclamar da menstruação.

Entramos na adolescência e ginecologistas treinados – não querem, com motivos, que engravidemos – nos prescrevem: pílula anticoncepcional. Não tenho relações sexuais ainda. Mas tem ovários micropolicísticos. Mas não tenho sintomas. Mas é melhor tomar, por seis meses, pra gente ver como fica. Toma. Tomo. Tomamos.

Tenho sentido uns enjoos, sinto meu corpo esquisito, diferente, parei de tomar, minha menstruação não desce mais. Não menstruo mais. O que eu faço?, pergunta a menina que comemorou, sem saber por que, quando sangrou pela primeira vez. É assim mesmo, a pílula interrompida desregula a menstruação, pode demorar pra voltar ao normal, só vai voltar se você continuar tomando e é bom continuar tomando pra prevenir os cistos de voltarem, pra prevenir a gravidez. Não tenho relações sexuais ainda. Ainda.

Sabemos dos altos índices de gravidez indesejadas, de gravidez na adolescência, de abortos clandestinos, de mortes por abortos clandestinos. A pílula é – e, a meu ver, é pra ser – uma medida preventiva, desesperada. Imediata. Como tantas outras medidas sociais. Imediatas. A ideia teria de ser essa, algo criado para resolver um problema com urgência. Logo, é preciso algo mais: diálogo.

Milhões de cartelas de anticoncepcionais são distribuídas em postos de saúde. As meninas não tomam ou esquecem dois dias. Engravidam. Abortam. Têm filhos sem querer tê-los por não conseguirem abortar. Não há diálogo.
Só há remédios, o remediar.

Outras meninas começam e só param de tomar muitos anos depois, quando/se quiserem engravidar, um dia. Algumas emendam as cartelas umas nas outras para não sentir cólica, para não atrapalhar a viagem à praia, para não menstruar, não menstruar nunca mais: que sonho!, dizem. Odeio menstruar, dizem. Nunca mais parei nem quero parar com a pílula, celebram. Sei que tem efeitos colaterais, que pode dar trombose e outras complicações, mas é um risco tão pequeno, se consolam.

Na bula, o triplo de contraindicações em relação às indicações: não tomar em caso de presença ou história de processos trombóticos/tromboembólicos arteriais ou venosos, como trombose venosa profunda, embolia pulmonar, infarto do miocárdio; ou de acidente vascular cerebral; ou história de enxaqueca com sintomas neurológicos focais; ou diabetes mellitus com alterações vasculares; ou sangramento vaginal não diagnosticado; e a lista segue, extensa.

Lembro de quando minha menstruação voltou, depois da primeira experiência desnecessária com a pílula. Lembro precisamente do dia, jamais esquecerei, 30 de julho. Foi como esvaziar-me, voltar a ser. Lembrei de meu corpo quando, depois de dias chuvosos, encontra no calor a possibilidade de tirar casacos e meias e calças, de expor-se, leve. Leve.

Menstruamos e não conversamos sobre isso.
A aula de biologia explica como é, dentro do corpo, que acontece. Explica muito pouco. Os meninos ficam com nojo. As meninas com vergonha. Os pais evitam falar, compram uns pacotes de absorvente, dão algumas dicas, talvez, e pronto.
Enquanto isso, o mercado das pílulas fatura muito, muito dinheiro, lucra com o medo da gravidez, com o desconhecimento de nossos corpos, de nossos ciclos. Esperamos da tecnologia e dos médicos novas soluções, que nos mostrem novos caminhos.

Menstruamos e não conversamos com nós mesmas.
Buscamos não sentir dor, não inchar, não ter oscilações de humor ou espinhas. Anulamos a comunicação com nossos corpos. Nos ausentamos. Nem mesmo buscamos saber mais sobre os muitos tipos de métodos contraceptivos e, inclusive, de diferentes pílulas anticoncepcionais. Meu ginecologista me passou e eu tomo. Será essa a combinação hormonal menos agressiva ao seu corpo? Não sei. Confio no meu médico.

Confio no médico, nos remédios, não confio no meu parceiro, ele não vai querer usar camisinha, não confio em meu corpo, não tenho menstruação regulada e não sei quando estou ovulando, se estou ovulando, você não tem ideia da minha cólica, das minhas espinhas, você só diz isso porque não passa pelo que eu passo quando não tomo a pílula. Tem também: a gente já come tanta coisa com hormônio que a pílula não deve fazer diferença nenhuma.

Nosso corpo é muito do que somos. A relação que estabelecemos com ele diz muito de nós e de nossa maneira de estar no mundo. Conversar com nosso útero é conversar com o mais feminino de nós, ali de onde a vida emerge, nossa potência criadora mais elevada, o que faz de nós seres cíclicos, como as fases da lua, as estações do ano, os movimentos da maré, toda a natureza, por fim.

O período que antecede a menstruação, período que aprendemos a odiar, evitar, condenar, é nossa oportunidade de recolhimento, de reflexão, de percepção total. Achar que, por ter tido cólicas absurdas aos 15 anos, você terá sempre cólicas absurdas para o resto da vida é perder completamente a fé na força de seu corpo.
Acreditar que sua menstruação nunca será regular e, por isso, você nunca saberá seu período fértil é desconectar-se, abster-se do próprio corpo.

Nossa conexão com nossos ciclos é um processo, processo difícil, lento, gradual, como todo processo interno. Exige coragem, força, sensibilidade, dedicação. É difícil ir contra a maioria, contra o sistema, contra a opinião forte das amigas, dos médicos. É um medo danado por todos os lados. Um medo que nos afasta de nós mais e mais a ponto de não sabermos mais distinguir um corrimento de ovulação de um corrimento por candidíase. Não sabemos que, se a cólica está braba, se a vontade de chorar está no topo, se o rosto está cheio de espinhas é porque tem algo errado, algo fora do lugar. Menstruar não implica necessariamente nesse sofrimento todo. Tudo isso é passível de mudança.

Existem inúmeros métodos alternativos à medicina ocidental moderna que podem nos ajudar nesse processo de reconexão, que é gradual e não implica necessariamente na retirada imediata da pílula, caso ainda se sinta insegura. Começa com um olhar profundamente sincero para dentro de si, da responsabilidade de nós com nosso corpo, da nossa conexão com nossos ciclos. Não emudeça seu corpo. Deixei-o livre para se manifestar e esteja atenta ao escutá-lo.

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Dicas de leitura

Medicina Ayuvérdica para a Mulher: Ginecologia Natural - Atreya

Ciclos Sagrados Femininos

O Despertar do Feminino

Sala de Ayurveda


Isabela Bosi

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