sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

Os seres humanos morrem fácil ou música pra mim é coisa séria

Sobre guitarra, suor, fogo, amor, desejo, verdade, som, barulho, entrega, escrita, ser, ser muito humano, dar tudo de si, escapar de todas as formas do tédio de enquadrar-se, desenquadrar-se, reinventar-se, buscar: Jimi Hendrix.


Hendrix2.jpg
Have you ever been experienced? Well, I have.

Alguns tipos de verdade entraram em extinção.
O dinheiro é um grande culpado. As redes sociais também.
Afundamos cega e profundamente no mundo das aparências, do superficial como estilo de vida, como sonho de vida, como dedicação exclusiva – aquilo que se poder ter, que se pode [fingir] ser. As fotos, as frases de efeito, as opiniões nada embasadas, mas presentes e enfáticas – é preciso tomar partido nas polêmicas, ainda que brevemente esquecidas. Todo mundo tem algo a dizer – mesmo quando não.

As coisas têm andado um pouco esquisitas ultimamente.
Não sei se sempre foi assim – talvez.
Mas me parece que certas verdades têm perdido força e percebo isso na poesia, no teatro, nas conversas, nos olhares, nos gestos, na música, sobretudo na música. Falta suor, e microfonia, e lágrima, e calor, e vontade de nudez.

É quando encontro um livro na estante da livraria, chamado “Jimi Hendrix por ele mesmo”. Um livro que talvez Jimi não gostasse que existisse, onde muito do que ele escrevia foi compilado e publicado. Não sabemos da edição. Fica a dúvida se Alan Douglas e Peter Neal fizeram um trabalho bonito em homenagem a Jimi ou se foi pura sacanagem para ganhar um dinheiro. Vai saber.

Comprei o livro.
Antes de tudo, por um amor-curiosidade – o que estava escrito ali?
Hendrix era, segundo Neal, um escritor compulsivo; escrevia em cadernos, blocos de nota de hotéis, embalagens de cigarro, guardanapos. Como se, para sobreviver, a música não fosse suficiente. É preciso escrever.

Já faz um tempo que Hendrix me salva.
Os solos, wah-wahs, a voz tímida e firme ao mesmo tempo [quem não tem muita imaginação talvez precise ser bonito e ter uma voz perfeita], os dedos ágeis, os olhos fechados [abertos para outro lado], e a bateria de Michell, o baixo de Redding, os três experimentando juntos no palco, era e ainda é muito verdade – verdade muita.

Ele dizia: minha única preocupação é conseguir me expressar. E, se preciso fosse, classificaria sua música de “free feeling”, um rock-blues-funky-freaky, um tudo meio nada: liberdade. Afinal, ali, no palco era preciso – possível – ser livre. Jimi e seus animais de estimação, duas guitarras com espírito de bicho.

Para onde está indo a moda?
Não sei, e não dou a mínima, se você quer saber. Pode ser que as pessoas se vistam com lençóis de várias cores, como nos tempos antigos. E não me faça perguntas idiotas sobre se uso cueca ou não. Acho que vocês deviam ter arranjado outra pessoa para fazer esta entrevista.

Jimi morreria de tédio se não desse tudo de si.
Para ele, tocar era sempre um prazer e não lhe importava que vaiassem – desde que as vaias sejam afinadas!, frisava. Para quem amava a microfonia, uma vaia bem ensaiada podia render bons acordes, compor um novo som. Tudo é música.

Para Jimi, ela, a música – uma das formas de expressão mais pessoais – deve estar sempre conectada às emoções humanas. Duvido que você encontre algo mais humano do que o sexo. Em vez de perguntar “quer fazer amor comigo esta noite?”, o que se ouve é um estrondo repentino e Jimi no chão, por cima da guitarra, com fogo, com suor, prazer.

Tocamos muito, muito alto. Fazemos isso para criar um certo efeito, para que tudo seja o mais físico possível, para atingir as pessoas em cheio. Tem que machucar. Mas não é um barulho que fere – é um outro tipo de barulho que entra pelo peito. Só não quero que ninguém fique passivo.

Não acreditava em ensaios. Jimi, Mitch e Noel, os três, queriam que cada show fosse uma surpresa para eles e para o público. Errar fazia parte. Improvisar, mais ainda. Dane-se o bonito, o certo, o aparente, a superfície, a máscara. Parece que quanto mais suor, melhor. É como se estivéssemos todos derretendo e nos misturando! Improvisar é isso, é tocar com todo mundo, é meio que fazer amor uns com os outros musicalmente.

Depois de anos na Europa, fora do seu país útero, Jimi volta aos Estados Unidos para se apresentar no Festival de Monterey, primeiro show com Experience em solos americanos. Jimi, em êxtase, põe fogo na sua guitarra e decide destruí-la como sacrifício. A gente sacrifica as coisas que ama. Eu amo minha guitarra.
Sacrificava uma parte da própria alma toda vez que tocava.

Como resolução de ano novo, seu desejo era manter o eixo girando para o amor seguir a música como a noite sucede o dia.

Esse desejo de verdade, de expressar-se até o limite, esse amor-sacrifício, amor-agudo, amor-fogo – o único que Jimi seria capaz de reconhecer na vida – consumiu-o, deixou-o cansado ao ponto de desejar parar, mas como poderia? Só o que me relaxa é pensar em música. Nada mais me motiva. Dentro da minha cabeça, a música nunca para de tocar. Às vezes, meu cérebro chega a latejar e as paredes começam a girar. Sinto que estou ficando louco. Daí vou para as boates encher a cara. Cara, fico um verdadeiro paralítico. Mas é o que salva...

Jimi, naquilo que deixou escrito e, sobretudo, naquilo que deixou gravado como música, nos convida a encarar a dor da vida como num salto de paraquedas: quase como um desmaio, quase como chorar e vontade de rir ao mesmo tempo.

Viveu muito até morrer, aos vinte e sete anos, esgotado e cheio de vida ainda. Mas sabia que os seres humanos morrem fácil, que a vida é breve, e, por isso, o que o interessava era simplesmente ser, ser até o limite disso, única forma de fazer música de verdade, de dentro, por dentro, pra fora, alto, estourando, convidando-nos todos ao amor.

Quando morrer, continuem tocando meus discos.
A história da vida é mais breve que um piscar de olhos. A história do amor é olá e adeus, até mais ver.

*

O título original do livro é "Starting at Zero (His Own Story)", lançado nos EUA em 2013 e publicado no Brasil em 2014. Antes de lê-lo, caso te interesse, aconselho ouvir toda a discografia de Jimi, no volume máximo e de olhos fechados.

O título deste texto é de Jimi.


Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/musica// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Isabela Bosi