sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

Flutuar suspende as dores

O mundo, esse nosso lugar esquisito. Repressões, preconceitos, institucionalização de tudo. Siba, atento, propõe um baile solto, tentativa de enfrentar o inimigo enorme.


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São mais de vinte anos dedicados ao exercício apaixonado do fazer música. Caminhando por guitarras e rabecas, seguindo por tarol, agbê, tubas, Siba é, antes, artista da Mata Norte, de Nazaré. Foi o lugar que elegeu como centro do mundo. Ali, tornou-se mestre de maracatu rural. Ali, formou a Fuloresta, viajando o mundo com sua música – para sempre voltar.

Em 2014, Siba entra mais uma vez num estúdio. Agora, para gravar seu segundo álbum solo, De Baile Solto, lançado em maio de 2015. Disco que nasce de um amor profundo pela música de rua de Nazaré. Disco que nasce, portanto, da revolta diante da repressão a grupos de maracatu rural, impedidos de ensaiarem e se apresentarem após as 22h por ordens do Estado.

Para maracatuzeiro, as sambadas devem acabar com o sol nascendo. É, como diz Siba, uma tentativa de suspender o tempo, cansar o corpo, chegar ao limite do corpo – esse corpo que já nasce no limite. Enquanto shows de maracatu contratados por instituições públicas e privadas não têm hora para acabar, as manifestações de rua são interrompidas pela polícia militar.

É a partir desse cenário contraditório, quase irônico, que Siba cria seu novo álbum. Ao contrário de Avante [seu primeiro disco solo, protagonizado por guitarras], De Baile Solto volta-se com força às origens, ao maracatu de baque solto, a Nazaré da Mata, à música de rua, que não pode ter hora pra acabar, infinita, o único espaço de total liberdade do cortador de cana, de um povo que, desde sempre, é explorado e reprimido.

São dez faixas. Começa com Marcha Macia, em que Siba fala na língua-do-cinismo – essa em que tantos de nós somos fluentes – para reforçar: não recuaremos. Usa da ironia para criticar a grave situação em que a cultura do povo, nossa cultura, se encontra atualmente: maracatu como produto turístico e estratégia política.

Acorda amigo, o boato era verdade
A nova ordem tomou conta da cidade
É bom pensar em dar no pé quem não se agrade
Sendo você eu me acomodaria...
Não custa nada se ajustar às condições
Estes senhores devem ter suas razões
Além do mais eles comandam multidões
Quem para o passo de uma maioria?

O disco segue com outras canções explicitamente políticas, como Gavião, Quem e ninguém, O inimigo dorme, e outras mais próximas de uma leveza poética, uma poesia-brinquedo de mestre maracatuzeiro, como Mel de Tamarindo, A Jarra e a Aranha e Três Carmelitas.

Difícil eleger a melhor – como se fosse preciso.
A verdade é que, nesse álbum, Siba mostra ser possível misturar a beleza da poesia com certa acidez crítica, de indignação total. Afinal, é isso que os mestres de maracatu fazem desde o início do século passado: flutuar para suspender as dores.

A lei que proibía as sambadas e outras manifestações populares de rua foi revista, após denúncia ao Ministério Público de Pernambuco [assinada por Siba e outros mestres]. Siba reforça, porém, que o preconceito e o lugar desprestigiado do maracatu rural permanecem inalterados. Em cada show, cada entrevista, cada oportunidade de falar e cantar, ele segue mostrando que a luta continua. Só para quando o corpo também parar.

Toda vez que esmorecer a vontade de cantar
Vai sempre um doido gritar: tamo afim!
Tamo afim de festa enquanto dorme o inimigo enorme
Neles, em nós e mim.

*

Todos os discos de Siba podem ser baixados gratuitamente AQUI.


Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena.
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