sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

Obra humana [um pequeno texto]

Uma tentativa de se pensar a cidade - não como um espaço delimitado e mapeado, externo e independente, mas como uma extensão do que somos, de nossas criações, um organismo vivo, espaço de surpresas invisíveis.


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Aujourd’hui, tout le monde a peur.

A cidade nos engole, nos converte em pequenas cápsulas isoladas, nos enlouquece, nos adoece.
O que é a cidade?

Pensando para além do mapa, da topografia, da cartografia, dessas ruas, desse formato formado, o que é a cidade? O que somos na cidade, seguindo caminhos sugeridos, menos trânsito ali, mais rápido por aqui? Cuidado por onde anda.
Esse bairro é perigoso. Essa rua é perigosa. Essa pessoa é perigosa.

Hoje, todo mundo tem medo.

Dizem que toda a cidade é perigosa, que nos engole, que nos converte em pequenas cápsulas isoladas, nos enlouquece, nos adoece.
Mas – o que é a cidade?

José Asunción vê, passando pelos fios, uma mensagem de amor e nos fala disso, dessa cidade invisível de Calvino – aquilo que não se nota, que não está posto, não está dado. Não é o trem, nem o poste, nem a fiação, nem mesmo a paisagem na janela ou o próprio corpo sentado, indo a algum lugar. É o (im)possível telegrama, essa obra humana que nos escapa [um envio] e vai na direção contrária – cidade.

É como nos pregadores de Elida com palavras de outros, e em sua coleção de vidrinhos de esmalte, quantos vidros de esmaltes são descartados?, tanta coisa que vira lixo – (re)viramos lixos. A cidade que pulsa fora do mapa. Um encontro, que seja. Ou mesmo aquele desencontro de que jamais saberemos.
A cidade inteira habitando o limiar do mapa, a periferia daquilo que sabemos – pensamos saber.

[aonde uma só conversa é capaz de nos levar?]

Aujourd’hui, fui a uma exposição chamada ficções – título tomado de Borges. No texto, falava da “experiência de outros espaços e tempos para recriar mundos”. Somos nós que criamos o mundo em que vivemos. Está claro: somos nós que inventamos todo o perigo. Nós, (n)a cidade.

E ali, precisamente ali, naquela sala de cinema, pintada de preto, com cadeiras de couro reclináveis, pessoas sentadas, o ar condicionado, as luzes projetando na tela uma imagem em 3D com nossos óculos emprestados, foi ali que ele, despedindo-se da linguagem [e de deus], nos disse: aujourd’hui, tout le monde a peur.

Temos medo do que somos.
Esses nossos corpos, esses nossos desejos, esse mundo que criamos e que tanto nos amedronta, essas pequenas prisões espaciais, esses caminhos conduzidos por vozes de mulheres desconhecidas em aparelhos de GPS, e o taxista não sobe mais até ali, tem medo, a peur.

Mas no meio de tudo isso, de toda essa organização territorial de nossas cidades-corpos, pasó por el espacio un escondido telegrama de amor. A força de uma mensagem que se esquiva, que escapole de toda a argamassa tecnológica em que nos afundamos – nós, à serviço da máquina –, esse telegrama nos diz: a cidade é outra coisa.

Cidade é nosso corpo em movimento, é tudo aquilo que habita o subterrâneo da linguagem, das representações, da topologia, é cada gesto inesperado, cada encontro, cada acidente, é a mensagem de amor que corre por dentro dos fios que arquitetamos – tudo o que margeia o pensado, o planejado.

É, sobretudo, o que permanece indecifrável, aquilo de que não sabemos, que jamais controlamos, os envios que podem nunca chegar, mas que são infinitamente entregues – toda a cidade e(m) nós.


Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena.
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