sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

À escuta

Um título, uma dedicatória e um endereçamento ao livro de Jean-Luc – na tentativa de tocá-lo. Um texto-reenvio às conversas infinitas com Érico.


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Esta cidade está completamente doente – pensou.

Estamos todos armados. Não podemos mais sair de casa desprotegidos.
A qualquer momento, um tiro certeiro pode atingir nosso peito, bem no meio, e nos derrubar no chão – este chão abandonado desta calçada imunda e habitada por fantasmas de nós mesmos.

Esses dias, li que só falamos de nós, toda tentativa de tocar o outro seria uma busca insistente por encontrar a nós mesmos. Só.
Algo como: acabou a escuta.
O ouvido, como nos lembra Nancy, não tem pálpebras. É talvez o que temos de mais próximo de uma abertura total, uma disposição profunda ao reenvio infinito de si. Um si que não é um você nem um eu, mas algo que flutua no entre – possível.

Aí me lembrei dela, que chegou há pouco tempo aqui, nesta cidade que insistimos em chamar de maravilhosa. Lembrei do sorriso diante de toda a exuberância de uma natureza que resiste, diante desse novo que se estende por ruas cheias de purpurina e mijo. Nunca havia saído de sua cidade. Não sabia. Poucos sabem. Mas a cidade-violência está doente, em putrefação.

O menino só queria comer uma sopa, pedia, estava com fome, cansado, não sei como conseguimos viver tão cansados assim. Ninguém o olhava, ninguém o escutava. Mais um barulho no meio desse caos todo. Só uma sopa, moço. Ficou lá até agora, sentado, encolhido, debaixo de suas roupas imundas e completamente invisível.

Do lado da minha casa, uma menina mora num papelão e não tem calçados.

Passei pelo ponto de mototáxi ontem e achei que era uma briga. Não era.
Entrei no ônibus e provoquei uma briga. Não sabia.
Naquele show, naquela praça, naquele restaurante, no sinal fechado, no caixa do supermercado, no quiosque da praia, na coordenação do curso há sempre uma briga. E não adianta insistir, você não entende, você está errado, você não sabe, você não presta, some da minha frente.

Como se desarmar aqui?
Ou: Como voltar à escuta?

Do lado de fora deste apartamento quente, o padeiro tenta vender seus pães, a senhora do edifício da frente coloca seu corpo na varanda para pegar um sol, o menino desce a ladeira para ir à escola, um homem bêbado fala sozinho, descalço e bambo. Ninguém sabe. Não há espaço para uma escuta da buzina da bicicleta, das janelas se abrindo, da fala trôpega e carente de tanto. O tempo se esgotou.

Se escutar é estar aberto a sentidos possíveis, aberto ao outro, ou seja, à contingência, à troca, à conversa, ao acidente, ao susto, ao som do mundo que ressoa fora e dentro de nós, e nós já não escutamos, como sair desse estado de vigilância? Como implicar meu corpo nesse tempo-espaço que já não nos permite a distração?

Como curar(-nos) (n)a cidade?


Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena.
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