sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

Tentativa

um pequeno texto como tentativa.


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Sabemos do fim – já desde o início, esse início de tudo a que chamamos vida.
Começamos aprendendo que aquilo que nasce, morre.
Do menor dos insetos ao maior dos animais.
As plantas, os dias, os anos, os medos e as alegrias, o verão, alguns afetos, viagens, livros, filmes, abraços, músicas – tudo acaba.
E, mesmo assim, mesmo cada momento servindo para nos relembrar disso, sofremos e não adianta: seguiremos sofrendo.

Não tem despedida que ensine a próxima como dizer adeus.
Cada fim é o primeiro, tem um peso singular e agudo como se jamais tivéssemos deixado outro ir.

Há alguns anos, conheci um gigantesco ser humano que, sorte minha, foi um de meus professores mais generosos e sensíveis. Foram poucos os professores generosos e sensíveis que tive, na verdade. Mas, olhando assim, de longe, esses poucos ganham um peso tão grande na minha vida, na minha memória, que crescem e se tornam gigantes, múltiplos, e fica parecendo que toda minha formação foi preenchida dessas figuras reluzentes.

Agostinho Gosson.
Jornalista, professor, radialista, poeta, amigo, pai, esposo, grande ser humano, de um sorriso espalhado, um olhar atencioso, um pensamento radical em direção àquilo que alguns de nós ainda [bem] insiste em chamar de justiça.

Talvez você, que está lendo, não o conheça.
Infelizmente, aquilo que vibra com força em estados distantes do sudeste acaba tendo menos destaque nacional e Agostinho não se tornou conhecido por todo o País, como bem merecia, ao lado de outros escritores e jornalistas que aprendemos a amar. Mas isso importa de menos. Agostinho mudou minha relação com a palavra e com muita coisa no mundo – e isso é o que fica.

Além de toda a convivência que tivemos dentro de sala, Agostinho se fez presente em minha formação com tanto força, durante os programas de rádio, as pesquisas para o livro, a banca de defesa, o lançamento do livro etc – todos esses meus momentos muito caros – de forma amorosa, amiga, com sua família bonita, forte que tive a profunda alegria de conhecer e conviver um pouco.

Poderia seguir falando de sua participação e enorme contribuição à minha vida, das coisas que falava em sala e impressionava toda a turma, de sua inteligência e perspicácia, seu humor rigoroso e generosidade larga, mas, como não importa à linguagem alcançar os sentimentos, qualquer palavra seria pouco demais.

Agostinho nos deixou hoje.
Chegou o fim de seu corpo nesta terra.
Mais um fim com o qual não sabemos lidar.
Não tem jeito.

Não pude me despedir de ti, querido amigo e mestre.
Não pude te dizer tudo isso que, de alguma forma, acho que você já sabia.
Mas não há remorso, pois digo agora e ainda vale. Escrevo para o que de ti ainda vibra com força aqui neste planeta um pouco nosso. Escrevo para esse gigante pedaço de ti que segue vivo dentro de muitos de nós.

Cada palavra sua, cada ensinamento e conversa que tivemos, permanece em mim como pequenos tijolos essenciais na sustentação do que sou hoje.

Como não sei dizer adeus,
digo então: muito obrigada.


Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena.
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