sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

essas músicas quase não dizem nada mas são tudo

um texto sobre pedro, dias, carneiro, vovôs, bebês.


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Levanto do banco – estou há tanto tempo sentada.
Tiro os sapatos, chego perto da areia e meus pés afundam, caminhando devagar em direção à água, levando o restante de meu corpo cansado de tudo, de tanto.
Uma pausa, um silêncio, suspensão: é aqui onde me encontro com a música de Pedro Dias Carneiro. Aqui, nesse pequeno e infinito espaço de fuga que é também, sempre e muito meus lampejos de lucidez – como um amor que parece grudar mais no corpo a cada vez que imaginamos perdê-lo.

Encontrei Pedro distraída, sem saber.
Por curiosidade minha e generosidade dele, topei com tirinhas de uma memória rasgada, recortada. Me encontrei – parte de um eu um tanto desconhecido, escondido, encoberto. Foi como achar um baú de tesouros [memórias]; como voltar à infância, só que de mãos dadas.
É assim: música.

O violão, os arranjos, a voz que quer e é, as palavras que rasgam e reconstroem – e escrever é uma vingança contra a perda, como dizia Waly. O disco de Pedro é sobre perder, sobre aquilo que não dura, que tem fim, o tempo que passa, sobre o fim, o tudo que termina e, daí, recomeça, começos, e se não der tempo eu vou correndo, mantendo eu vou por enquanto, enquanto há tempo.

A voz e os dedos no violão são movimentos de um mesmo corpo, corpo de um menino, um homem, bebê-vovô, feito de memórias, pedaços, música – porque cantar não tem utilidade alguma e, por isso mesmo, cantamos. Um movimento contra o tempo, esse tempo cronológico, medido, pesado. Uma tentativa, portanto, de criar outro tempo, de suspensão – sopro.

Já dentro do mar, completamente afundada, quase desfeita, encharcada, um abraço, escuto repetidas vezes as músicas de Pedro. É gelado, o mar dessa cidade meio tropical – meio um monte de coisa. O corpo estremece de frio e certo prazer. Fiquei por dias submersa naquela água salgada, sem respirar – eu, que sou sempre salva por ele, o mar, mais uma vez ali, entregue ao líquido som.

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Vovô Bebê, primeiro disco solo, primeiro despejo de tudo no éter, o salto no abismo [palavra], diluir-se, foi produzido e gravado por Chico Neves e Pedro. São dez composições, todas de Pedro – exceto Saudade do Cordão, parceria dele com Guinga.

-- ouça e baixe o disco aqui: http://www.vovobebe.com


Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena.
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