sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

where is the land of light?

um texto com, para, sobre, em, por Fortaleza – cidade e som.


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Começa com o baixo. Não qualquer baixo, mas um baixo que segura e abre caminho para um som que não precisa de muitos silêncios, que costura uma narrativa de memórias e sensações pulsantes de e em uma cidade que já carrega no nome o peso de uma solidão: Fortaleza – cidade-disco do novo show de Cidadão Instigado.

Cheguei cedo, antes da chuva, como se quisesse evitar os perigos de um caminho possivelmente engarrafado, demorado, qualquer risco de perder. Sentei-me no local marcado, fileira F, de frente para o palco. Luz vermelha, Régis, Fernando, Rian, Dustan, Clayton, baixo, guitarra, violão, teclado, bateria, todos lá, me olhando sem ver. Primeiro acorde:

Saio do apartamento um tanto meu e estou já bem próxima da Beira-Mar, do Clube Náutico, da praia. Minha pele já conhece esse vento e é bem fácil chegar até o calçadão, não penso. Vou caminhando em direção à PI. A feirinha está quase começando, os turistas passam sem entender muito bem, o garotinho quer um sorvete, a mãe se irrita, o moço vende imagens de santos, ainda há ingressos para o show de humor hoje à noite, um olá pro edifício São Pedro, meu corpo já meio suado, meio grudento de maresia.

Sigo. Vou junto com o cair do sol, um céu que vai ficando rosa, lilás, laranja, ainda azul. Vou andando, querendo chegar àquela ponte que me lembra um pouco eu mesma, meu corpo, minha memória – ferrugem, água e sal.

É o solo dessa guitarra, um agudo quase grito, quase choro, mas um tanto alegre de saudade. E ainda o baixo, marcando tudo, cada lembrança, cada sensação, costurando com a bateria esse som que é muito mais do que música, preenche tudo, todos os espaços dessa sala de concertos escura, de paredes negras, poltronas acolchoadas e ar condicionado. Estão todos um tanto sérios. É sério o que dizem com seus instrumentos. Eu sorrio sem controlar. Um sorriso de cumplicidade – de alguma forma, entendo.

Entendo um pouco porque há alguns anos ia com frequência à Gentilândia, tomar açaí da tia e sentar nos banquinhos verdes da praça pra namorar, pra olhar as pessoas em volta. Fim de tarde de um calor diferente do daqui. Também já caminhei à noite por aquele centro, as praças do ferreira, do leão, do josé de alencar e seu teatro. Sempre encontrando amigos na rua, a qualquer hora. Sempre alguém conhecido, um sorriso, um olá ou uma escolha por baixar a cabeça e fingir que não viu. Já vi casas deixarem de ser, ruas deixarem de ser, uma cidade inteira deixando de ser e todo mundo sempre indo embora pra depois voltar.

Passaram-se alguns anos e Fortaleza não esconde a saudade e o caminho percorrido por Cidadão, agora mais adultos. Não se trata só de talento ou habilidade musical, nem mesmo de sensibilidade e criatividade artísticas, mas de uma saudade do banho de mar quentinho de uma cidade marginal que passou, não está mais lá, e ainda assim permanece. Em cima do palco, as músicas crescem: o que só estava gravado ganha outro corpo, tem força ali, tem estômago, fome, uma fome cearense, bem diferente das daqui, buchada ainda de manhã e queijo coalho e feijão verde.

Estava sentada, eu e cidadão, eu e fortaleza, eu e dez por cento dos escombros, eu e o mapa do tesouro, viajando uma viagem só minha, indo de uma quase tristeza à uma alegria sem chão, numa dança guiada por um tchurururu que só existe na voz de Catatau. É mais do que o show de “um dos melhores discos de 2015” com prêmios de canais de televisão à cabo, é mais do que uns dos melhores músicos da “cena atual” reunidos, é mais do que o terceiro disco de uma banda formada por cearenses – e tudo isso é meio que nada.

Fortaleza é uma celebração coletiva, um abraço apertado e um adeus, uma distância danada, um passado cheio, um fechar de olhos, um rock meio blues meio brega meio repente meio, um sol quente na cabeça, é saudade sem nostalgia, é um presente muito vivo, amor, e só acaba de pé, dançando do lado das cadeiras, num uhuuu infinito, num fim que é o futuro e nós já estamos lá.


Isabela Bosi

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