sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

isto é uma música

esta música é sobre texto, um concierto de aranjuez.


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este texto é uma música, toda no diminutivo, com poucos pontos finais e muitas vírgulas, e começa assim: jim hall na guitarra, uma guitarra espanhola meio contrabandeada, e, logo depois, chet baker no trompete e paul desmond no sax, his alto sax. estamos em paris, mas falamos de espanha e, por que não, de algo bem aqui, bem perto, quase todo dentro, mas também muito fora, tipo ar, é de oxigênio que isto é feito e por onde isto passa.

agora entra o baixo de ron carter, piano de roland hanna, steve gadd na bateria e aqui estão, portanto, os seis, costurando um concierto que foge das dores de uma guerra encarando-a de frente, um grito de que ainda há vida nesse presente sufocante que já é um futuro bem próximo, um futuro onde aranjuez se torna jazz e é escutado no brasil, em caixinhas de som precárias, fazendo chorar e rir de olhos fechados.

este texto é música porque não poderia ser outra coisa, palavra é sempre som, e faz lembrar daquilo de que é capaz um trompete e um sax e um piano e uma guitarra que silencia vez ou outra porque, sim, vez ou outra é preciso saber silenciar, deixar o outro gritar livremente, não interrompê-lo, e esta música é isto: deixar o outro ser, sendo também, algo próximo de uma liberdade que arde mesmo antes de saber-se livre, um ser feliz que dói, quase eterno.

os dedos de ron e as mãos de steve sustentam todo o resto, não param pra descansar, nem querem, constroem o trilho por onde tudo corre, e, enquanto isso, somos conduzidos por um caminho incerto, uma pequena trilha fechada, é sempre assim quando se começa um texto, quando se ouve uma música pela primeira vez, quando uma música já tocada tantas vezes é tocada uma vez mais, e não importa se jazz se joaquín rodrigo se eu ou se você, a melodia vai por si só, existe já antes de tudo e nos lembra de que não é preciso morrer, mesmo quando os olhos coçam e o estômago barulha e toda a pele descasca, mesmo quando nos vemos bichos e parecemos solidão, há música e ela se parece um pouco com isto: uma fome e uma fala insaciáveis.

há música em seis homens que estão em silêncio, que se olham de vez em quando, que de vez em quando sorriem, mas a maior parte do tempo estão sérios, escutando alguma coisa de que não sabemos, há muito que não sabemos e diante dos homens, há outros de nós, também em silêncio, exercitando a entrega, tentando respirar, tentando esquecer. é, então, que começam uma despedida qualquer, um ensaio de final, é sempre necessário um final, lembrando-nos do que passou, de que aqui passou algo, um fim que muitas vezes se parece com o início.

acaba esta música, quase vinte minutos, dezenove e algo, um tempo relativo como qualquer tempo, sei lá quantas palavras, poucas, bem menos de meia hora de texto, e a gente volta a dar play, ouvir outra vez, porque na primeira não ouvi direito e na segunda me perdi com detalhes, a terceira será melhor e não se esgota - um texto nunca é só um texto.


Isabela Bosi

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