sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

esperança

pensar é de uma solidão profunda - pensou


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não fazia perguntas. adivinhava que não há respostas.

CL

cachoeira - esse lugar que nos escorrega pelos dedos das mãos e os olhos nada vêem, pois ali há mais. no meio de uma floresta, árvores retorcidas com raízes que se fazem ponte, interligando pontos de terra pisada diariamente por humanos que desejam se enfiar embaixo da queda d'água, um desejo por água, essa coisa gelada, pesada, que vem do alto pra cair sobre as costas duras, a cabeça pesada de tanto pensar à toa, uma água fria que limpa esse corpo que está mais rígido do que a pedra onde coloco meus pés nesta manhã quase tarde. sobre meus cabelos, voa uma borboleta azul e enorme, de uma leveza que sustenta o universo inteiro. ela é grande e não tem pressa - ainda que rápida de um lado ao outro. é mais vontade de levar-se do que qualquer desejo de adiantar caminhos. observo-a, embriagada por sua existência. é feliz demais essa borboleta existir ali e isso me desconcerta. olhando-a, sorrio e falo qualquer coisa sozinha. meus olhos a seguem e logo a deixam. exercito o desapego em meio a todo esse verde protagonizado pelo som de uma cachoeira que está logo aqui, ao meu lado. mergulho meus pés nessa água e o dia está tão quente que o gelado me dá prazer, me arrepia. deito sobre as pedras numa tentativa qualquer de unir-me, de fazer parte desse acontecimento espetacular que nenhum jornal noticiou e, mesmo que o fizesse, ninguém leria. não há palavras ali, nem mesmo imagens. é meu corpo e a mata e só. meus pés continuam traçando pequenos caminhos, vagarosos caminhos, há medo de cair, chego ao topo de uma pequena pedra que sai de dentro da água e fico algum tempo ali, entregue ao sol e ao som. se aproxima de mim um pequeno inseto verde, um gafanhoto - é o que parece. não sou eu que vejo.

- olha, é um bicho ou uma folha?
- é uma esperança! linda! e tão pertinho aqui de mim.
- não, é minha, fui eu que vi primeiro. {risinhos}

será sempre assim, amor e competição, amor e medo, amor e … duvidou de ser sua aquela esperança. devia, talvez, ser do outro mesmo. acredita em quase tudo que lhe dizem. o bichinho, no entanto, veio andando até ela. perneta que era, velho, cansado de ser verde e de ser bicho e de carregar o peso dessa esperança em si, caminhava lento e decidido em direção a seus pés. andou em círculos sobre a pedra, testando a determinação daquele inseto de chegar até seu corpo. ele insistia e ela, com medo, continuava a se mover - talvez, seu medo fosse de que a esperança a tocasse, dizendo "sou sua e não dele". deixou a esperança olhando-a e afastou-se, ainda confusa de medo e de vontade de ser tocada de verde. um vôo. pouso na canela direita dele. um grito feliz. feliz, a esperança melancia - verde por fora, rosa por dentro - salvou-se de um afogamento e subiu n'outra pedra, seguindo sua breve vida.

ela ficou ali, ainda de pé, um pouco decepcionada. teve medo da esperança. merecia esperança? abriu mão não por amor, mas por medo. toda aquela força ao meu redor, fazia sol e era tanta água e sombra. um privilégio. sou privilegiada e ainda assim sofro tanto. ficou um pouco triste. despediu-se de melancia, despediu-se da mata, voltou ao asfalto, o corpo mudado, o coração ainda tão confuso, toda essa insegurança monumental, mas a alma mais próxima da pele - esse órgão exposto, tão vulnerável e forte.


Isabela Bosi

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