sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

questão de tempo

um breve texto sobre questão de tempo - o filme, mas não só.


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existe [mais] um filme que fala sobre viagem no tempo, sobre voltar atrás e mudar certas coisas, atitudes, frases, gestos. esse filme fala, antes, sobre o amor. isso que a gente insiste em chamar de amor mas que no fundo não tem nome e nunca é igual pra ninguém -- como nos prendedores de roupa de elida tessler, um amor repetidamente irrepetível.

o personagem principal, rapaz que tem a capacidade de viajar no tempo, tem uma única e obsessiva busca na sua vida: encontrar uma namorada, um amor, uma companhia. no entanto, todas as vezes que volta no tempo para tentar conquistar ou recuperar algum amor, acaba não lhe adiantando de nada. percebe que, quando se trata de amor, não temos controle. não é algo que depende exclusivamente de nós. na verdade, depende muito pouco de nós. o que parece óbvio, mas acaba não sendo.

o filme, então, vai mudando de rumo, deixa de ser sobre sua procura insistente e inocente por um amor e passa a falar dos fins, esses finais-começos da vida, essa coisa que é morte mas é também nascimento. não importa quantas vezes voltemos ao passado, tudo sempre tem um fim e esse clichê, que compõe o filme com outros clichês, fica martelando fundo no peito quando os créditos começam a subir na tela.

tudo isto é uma grande despedida e um grande encontro e nada mais.

ao jovem personagem, só é possível voltar atrás na linha do tempo. ir para frente, espiar o futuro, não. como se, voltando, pudéssemos recuperar a vida que não vivemos, recuperar o começo antes do fim, fazer as coisas de modo diferente, mudar o presente e mudar, portanto, quem somos diante dos outros, diante do mundo. uma angústia compartilhada por muitos, essa de será que fiz a escolha certa? -- uma angústia tola, como quase todas. não existe escolha errada. o que temos são apenas escolhas e, em muitos casos, nem isso. achamos que controlamos tudo, mas há movimentos que acontecem independentemente de nossos corpos e nos quais não interferimos muito.

e aí, quando o filme termina, e as viagens no tempo também, e o que nos sobra é apenas a realidade [essa palavra que também não dá conta de muita coisa], percebemos que é bom viajar, sair, flutuar, voltar, mas o que pulsa e o que vibra e o que nos permite alguma coisa é sempre o estar aqui. esse estar na duração da vida que nunca é só presente, nem só passado, mas um presente cheio de passado e um passado cheio de presente chegando a um futuro que logo passa também.

no filme, a viagem no tempo perde toda a importância, toda a graça, diante da potência desses fins e dessas escolhas que, tantas vezes, nada mudam. a questão, afinal, é essa: saber lidar não com o tempo que volta - porque não volta - mas com o tempo que passa.


Isabela Bosi

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