sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

ventania

um texto sobre luiza brina e o vento


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1.
é assim: uma tentativa primeira, quase uma aposta, aquele risco que sempre acabamos por correr porque sim, porque sim, porque não dá para ficar parado por muito tempo, esperando, e todo esse silêncio é ótimo, mas não o suficiente, nunca o silêncio é suficiente, e a gente inventa uma outra coisa, um barulhinho, uma onda, as mãos batendo nas coxas, os pés pisando forte o chão, as unhas no copo de vidro, o riso, uma palavra, a porta entreaberta, o grito do vento, a música, toda música.

2.
é tarde, o corpo cansado, exausto, quase desiste, poderia dormir, mas não é de sono isso, sente falta do vento, aquele abraço, o cabelo e a saia levantando, fechar os olhos pra sorrir, coloca-se então à escuta, esse salto no escuro, dar o play, começar - o risco.

3.
o vento do ceará é violento, entra pra derrubar tudo, deixar no chão, acabar com qualquer ideia besta e livrar da dor, é desse vento que aprendeu a lembrar quando começa a noite, mas aqui, agora, nesta sala, é diferente, o vento que canta essa toada é mineiro, é sem praia, mas com o mar inteiro dentro, é mais suave, doce e acaricia - um alívio ou uma festa do boi, dá no mesmo.

a toada vem é pelo vento e é luiza brina - cantora, compositora e ventania - quem traz um catamarã imenso para o topo de santa teresa, arrastando todo cardume perdido em rede de pescador, numa dança que podia ser são luís do maranhão ou outra brincadeira suja de terra pra lembrar que o corpo viaja.

4.
escrever é o que sobra, o que cabe, porque não aprendeu a pintar a óleo nem a tocar pandeiro, porque ainda não sabe voar e os braços estão distantes de um abraço demorado, aí o coração bate no ritmo desse tambor, rápido, escreve porque precisa fazer algo com todo esse vendaval que invadiu seu apartamento e não tenta mais tirar o cabelo da testa, está bagunçada, entregue, inteira nessa toada que vem, sim, do vento, é claro, e chega por baixo da porta, pela janela, encharcando todo o piso frio e meu sorriso inteiro.

*

essa toada vem é pelo vento


Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena.
Saiba como escrever na obvious.
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