sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

poema maldito

para luis capucho


capucho.jpg

no dicionário, maldito seria o mesmo que perverso, malvado, ou condenado, amaldiçoado. gosto mais dos dois últimos significados, essa ideia de estar condenado a algo, quase como uma sina, o irreversível. escrever é também uma maldição, um sem volta, incontornável. um poema maldito seria, assim, quase uma redundância e a poesia, por si só, uma maldição -- especialmente àquele que a escreve, que está condenado a escrevê-la.

é disso que se trata o disco poema maldito, de luis capucho. é maldito não por ser malvado ou perverso, mas, justamente pelo contrário, por ser docemente amaldiçoado a existir. as músicas de capucho precisam existir. não porque o mundo precise delas - afinal, o mundo não precisa de nós -, mas porque a opção de não escrever é impossível. capucho escreve canções, escreve livros, escreve diariamente no blog azul, e talvez escrever seja a melhor forma de ser, a única, o que o torna maldito -- e, veja bem, nunca malvado.

como todos sabem, palavras existem não somente para iluminar as coisas, mas também para dar movimento na cabeça, para dar passagem no pensamento, e é assim que a canção nasce, das palavras que dão movimento ao pensamento, que compõem esse cinema de imagens que passeia pela voz de capucho e nos chega como um filme completo -- sala escura e tela grande.

parece estranho de início, porque é mesmo estranho e é imenso, o poema maldito de capucho. começa com uma viagem pela nave-janela, um vôo, um salto, e de repente já estamos respirando de outro jeito, porque somos tomados por essa força, uma força que vem também do formigueiro de palavras que arde e alegra tudo por dentro e através de capucho, que nos invade o corpo inteiro, nos deixa um pouco quentes.

termina o disco e parece febre, um suor e um sorriso, o corpo já outro, pós-viagem, num retorno que não se dá, estamos também malditos agora, entregues.


Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/musica// @obvious //Isabela Bosi