sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

A carta além da carta

Escrevo esta carta com o corpo e a memória, de mim e de outros.


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Esta é mais uma carta que eu te escrevo.
Talvez todas as cartas que já escrevi na vida tenham sido pra você.
Não sei.
E, mesmo assim, já ficaram velhas todas as minhas notícias.
Eu mesma envelheci.

Tenho pensado nisso de carta, para além de palavras e papel – é muito pouco palavra e papel. Escrever é muito pouco, quase nada. Toda palavra é armadilha. E eu, no entanto, escrevo cada vez mais – quase um desespero. Fico pensando em Monet ou em Cézanne, e na insistência de suas pinturas, na raiva e na urgência de pintar infinitas vezes a mesma paisagem, de sujar-se com a tinta, fixar o tempo, ir mais rápido que o próprio tempo. Fico achando que é assim também com as cartas, que escrevo porque tenho raiva das palavras, porque sei que são impossíveis. É uma forma de persistir e perseguir algum encontro com o outro, comigo mesma. Te escrevo porque não posso te tocar. E, no entanto, ao te escrever, te toco. E por isso te escrevo.

Mas hoje só foi que eu estudei que as cartas mais importantes a gente não escreve, ou tarda, e justamente porque os assuntos seriam muitos, todos, exigindo totalidade de expressão, simultaneidades, revisão de tudo, recaptura anímica dos dias e das horas, um esforço inteiro da gente, conforme a gente queria e precisaria. É quase como começar um livro. Escrever, de verdade, a você, é impossível. Então, movo-me, e vou pondo e falando, fazendo de conta, fazendo de mim. O que eu precisava era ter você aqui perto, sempre. Pra ouvir e falar, perguntar e comentar, e sentir; até mesmo para ficar calada. De fato, nada mudou, no meio da eterna e externa mudança. Por dentro, sigo.

Você também não sente que a carta exige outro tempo, tanto de quem escreve como de quem lê? Um tempo inventado, fabulado, ilimitado, desmedido, de demora – essa palavra que em francês se diz demeure e que se traduz também como morada. Há sempre uma ideia de espera, de contratempo, de atraso, de adiamento ou de suspensão nessa demeure. Eu demoro e moro na escrita de uma carta que tarda; demoro e moro na espera de alguma mensagem sua, desse carteiro que parece nunca chegar. Ocupamos esse espaço-tempo juntos, ainda que você não saiba.
Quanto escrevo, te convido à demorar-morar um pouco comigo. Vamos na contramão da velocidade desses tantos meios de comunicação. Flutuamos em outro tempo.

Não há cronologia que dê conta da demora de uma carta.
Quando escrevo, evoco memórias, se não nas palavras, talvez no próprio gesto de escrita, no uso de minhas mãos, nos traços, nas escolhas. Tudo o que tenho, e te entrego, é memória e ninguém sabe. Não se fala mais disso nem de mim aqui. Se ainda existo, é porque escrevo – e talvez um dia você me leia.
Queria te falar desses caminhos pelos quais andei e me perdi e me encontrei de novo e me perdi mais uma vez e por aí vai. De todas as cidades, todas elas. Sobretudo, desta, aqui, de onde te escrevo agora. As cidades mudam mas meu coração está perdido. Somente com você posso falar disso, percebe? Só você.
Parece que só em você habito.

No entanto, sabemos que as coisas que vou escrever não me farão nunca ser amada por aquele que amo, que a escritura não compensa nada, não sublima nada, que está precisamente onde não estamos.
Perceba que isto não é carta: mas, quando muito, um sumário. Ou seja, um pequeno e defeituoso mapa, feito para que você se perca. Linhas tortas que podem te levar a milhões de lugares – e a nenhum. O que importa não chegar, mas, sim, como demorar-se um pouco mais.

Te deixo meu maior beijo,
e não preciso mais dizer saudade...

PS Você sabe, melhor do que eu, que uma carta nunca termina...

*
Carta-montagem escrita por mim, Guimarães Rosa, Ana Cristina César, Jacques Derrida, Maurice Blanchot e Carlos Drummond de Andrade.



Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena.
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