sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

A literatura pode muito

A potência maior do livro, talvez, seja promover ao ser humano um alívio na solidão e um alcance maior de si e do outro no encontro com personagens que se tornam, também, amigos.


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Talvez, meus primeiros melhores amigos - esses que a gente sente que conseguem captar nossa alma, que parecem compreender de que somos feitos e que diminuem o peso de qualquer solidão - tenham sido personagens de livros. Digo isso porque não consigo me lembrar de nada mais próximo e capaz de me preencher como os encontros com os personagens de Harry Potter, antes dos meus 10 anos, quando comecei a ler a série.

Ainda estava me descobrindo como leitora. Não fazia ideia de quantos outros amigos eu ainda faria, de países e épocas distantes. Nem mesmo podia imaginar que esse tipo de intimidade e de reconhecimento também seria possível, mesmo que de forma bem diferente e mais complexa, no mundo fora dos livros, com pessoas feitas mais de carne que de palavra.

Enquanto ainda não sabia disso tudo, dormia e acordava lendo as aventuras dos bruxos de Hogwarts. Chorava a morte de personagens queridos, triste por saber que já não os encontraria ali. Vibrava com a vitória de pequenas batalhas. Sorria e acelerava os batimentos cardíacos quando algo bonito acontecia. Sentia-me acompanhada e compreendida, ansiosa para chegar da escola e poder continuar a ler, ou seja, reencontrá-los.

O mundo se ampliava. O quarto da casa onde eu vivia deixava de ser e parecia que tudo, de repente, era imenso. Como disse, esse era só o início. Depois, viriam outros amigos, muitos outros, de todos os tipos, idades e formatos. Alguns, inclusive, inventados por mim, quando percebi que era possível também criar histórias.

Tzvetan Todorov, em seu texto O que pode a literatura?, escreve que conhecer novas personagens é como descobrir novas pessoas, com a diferença de que podemos descobri-las interiormente de imediato. Ao conhecer profundamente um personagem, que se expõe a nós sem medo, com todas suas fragilidades e seus segredos, nos tornamos mais próximos também de nós mesmos, e do outro - ou, como Todorov escreve, ao citar Kant: a literatura ajuda a humanidade a pensar colocando-se no lugar de todo e qualquer ser humano.

Todorov, ainda no mesmo texto, nos conta brevemente a história de Charlotte Delbo, escritora francesa presa após conspirar contra o invasor alemão. Durante o período na prisão, ela conseguiu alguns livros com seu vizinho de cela, que tinha acesso à biblioteca. Por meio de um fio retirado do lençol, ele lhe passava o que conseguia pela janela. Era uma forma de interromper a solidão.

Meses mais tarde, Charlotte seria transferida para Auschwitz, onde ficaria distante não só dos livros, mas de toda possibilidade de imaginação. A luz cegante de Auschwitz varreu toda a visão, proibiu toda imaginação, declarou falsos os rostos e os livros… até o dia em Alceste retorna e a arrebata com sua palavra, escreve Todorov.

Após sair do campo de concentração, Charlotte se reencontra com Alceste, personagem da peça Misantropo, de Molière, que, aos poucos, lhe ajuda a voltar a enxergar e a imaginar. Para Charlotte, as criaturas do poeta são mais verdadeiras que as criaturas de carne e osso, porque são inesgotáveis. Ela diz:

É por essa razão que elas são minhas amigas, minhas companheiras, aquelas graças às quais estamos ligados a outros seres humanos, na cadeia dos seres e na cadeia da história.

Todorov e eu assumimos que não vivemos nada tão dramático quanto Charlotte Delbo, mas tampouco podemos dispensar as palavras dos poetas e a narrativas dos romancistas, que nos permitem dar fluxo aos eventos que constituem nossa vida. É a literatura, junto com outros raros evento da vida, que nos provoca um movimento cujas ondas de choque prosseguem por muito tempo depois do contato inicial.

A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajuda a viver.

É por isso, por tudo isso, conclui Todorov, que devemos encorajar a leitura por todos os meios. Inclusive, ele reitera, dos livros que o crítico profissional considera com condescendência, se não com desprezo, desde Os Três Mosqueteiros até Harry Potter: não apenas esses romances populares levaram ao hábito da leitura milhões de adolescentes, mas, sobretudo, lhes possibilitaram a construção de uma primeira imagem coerente do mundo, que, podemos assegurar, as leituras posteriores se encarregarão de tornar mais complexas e nuançadas.

Não há, portanto, literatura menor ou maior quando se trata da possibilidade de encontros. A potência maior do livro, talvez, seja essa, a de promover ao ser humano um alívio na solidão e um alcance maior de si e do outro no encontro com personagens que se tornam, também, amigos.


Isabela Bosi

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