sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

Mediocracia e arte

Enquanto não houver trabalho de memória, a mediocridade seguirá triunfando, reviveremos ininterruptamente o passado e suas catástrofes. Mas é nesse momento que a arte se faz mais urgente, ultrapassa a estética e assume-se também política.


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Em 1913, José Ingenieros publicou O homem medíocre, resultado de um curso que ministrou em 1910, sobre psicologia do caráter, na Faculdade de Filosofia da Universidade de Buenos Aires. O livro, situado no contexto da época — e situado no contexto de todo-o-sempre — monta uma análise do caráter humano dentro das desigualdades sociais. José Ingenieros cria, então, o conceito mediocracia: regime em que somente os medíocres vencem.

Para ele, um dos principais traços do homem medíocre é a imitação — o que seria também uma renúncia de si mesmo: em vez de pensar com a própria cabeça, o homem medíocre pensa com a "cabeça da sociedade" e, assim, "aspira ser confundido entre os que o rodeiam". Os medíocres, portanto, como aqueles que "engolem sem digerir, até ao empachamento mental: ignoram que o homem não vive do que engole, mas do que assimila”. Nesse processo de imitação do outro, funda-se a total incapacidade de criar. A mediocridade como o terreno infértil do intelecto, da alma.

Mais de um século depois, agora, em 2019, Wagner Moura está prestes a lançar um filme sobre Carlos Marighella — escritor, político e guerrilheiro importante na luta contra a Ditadura Militar, assassinado pelo Estado em 1969. Desde que o filme ficou pronto, Wagner tem dado algumas entrevistas, que sempre se expandem a temas relacionados à política e à (falta de) memória do nosso país, na qual a história de Marighella é ainda pouco e mal contada.

Memória inconsistente que vinga discursos de que, no Brasil, a ditadura foi branda, já não existem índios, a escravidão foi abolida etc. Uma memória a princípio falha e fraca, cheia de rasgos, mas muito bem arquitetada politicamente, ensinando-nos a cegueira diante da brutalidade de violências e desigualdades naturalizadas.

Em uma dessas entrevistas, Wagner diz que estamos vivendo o triunfo do homem medíocre em que a arte perde todo o sentido. Pra que arte se arte é justamente a ausência de um pra quê? Afinal, a liberdade do encontro com a arte se dá justamente no ponto em que ela não está ali para servir — e essa é a sua potência e beleza maior.

Mas o triunfo do homem medíocre não se dá agora. Ele vem e volta na história da humanidade, numa insistência cíclica, ganhando mais força em determinados momentos. Foi em 1910 que Ingenieros escreveu: "Até hoje, nunca houve uma democracia efetiva. Os regimes que adotaram esse nome foram uma ficção. As supostas democracias de todos os tempos foram confabulações de profissionais para se aproveitarem das massas e excluírem os homens eminentes. Sempre foram mediocracias."

A mediocracia, portanto, é um projeto político antigo e muito bem sucedido. É nela que estamos. É nela que alguns exercem uma violência absoluta sobre outros que, por sua vez, sequer realizam que são violentados, reproduzindo muitas vezes a própria violência que sofrem — e Ingenieros nos lembra: a mediocridade leva à incapacidade de reagir. Para o homem medíocre, que pensa com a cabeça de uma sociedade adoecida, qualquer criação seria um risco, uma brecha.

Nesse momento, a arte se torna ameaça, pois é justamente com toda a poética de sua inutilidade que ela propõe ao homem a possibilidade de novos mundos, de rompimento com o que está posto, de expansão. Mas, quando já não estamos aptos a pensar com nossas próprias cabeças, como enxergar a potência da arte? Se tudo o que fazemos e adoramos é imitação, qual espaço sobra para o artista?

Artista que não é celebridade ou produto, que não se mede em números de rede social — isso seria apenas uma reafirmação da mediocracia. Arte não tem necessariamente a ver com popularidade. Arte não se faz esperando um retorno ao ego. Arte é tudo aquilo que irrompe de dentro, com força, e avança sobre o mundo ao mesmo tempo em que o desfaz.

Como pontuou Wagner Moura, estamos outra vez onde estava Ingenieros, e onde estiveram tantos outros. Afinal, enquanto não houver trabalho de memória, a mediocridade seguirá triunfando, reviveremos ininterruptamente o passado e suas catástrofes. E, quando a arte perde o sentido e o artista se torna criminoso, a força da criação se faz mais urgente, ultrapassa a estética e assume-se também política, pois é precisamente na potência trans e deformadora da arte que a morbidez do homem medíocre pode ser combatida — e alguma fresta de transformação se abrir.


Isabela Bosi

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