sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

Não há tempos difíceis

Todo tempo é um (im)possível, onde tudo cabe.


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É comum escutar que os tempos estão difíceis. Pobre do tempo, que nada ou muito pouco tem a ver com tudo isso. O tempo segue, como sempre seguiu, contornando e conduzindo nossos corpos pela vida e pela morte, mostrando-nos o assombro de como as folhas da primavera podem cair secas no inverno, e nem por isso a árvore tomba. O calor volta e novas folhas brotam. É esse o tempo que continua nos deixando loucos, na tentativa de controlá-lo com cronômetros e relógios, enquanto ele, o tempo, insiste e escapa, escorre pelos nossos desejos e se demora quando estamos atentos demais.

Não é o tempo que anda difícil. Como já diria um amigo, o mundo sempre esteve se acabando. A diferença é que esta é a nossa vez de lidar com isso. Nos últimos acontecimentos — no Brasil, mas não só —, nossos corpos têm sido encurralados, em um alto grau de retração, espremidos, uns contra os outros, contra nós mesmos e nossa capacidade de resistir.

A violência de tudo isso atingiu o centro dos nossos corpos e a capacidade de manter a calma, de conversar com o outro — que deixou de ser outro e passou a ser enigma, abstração, reflexo do que não somos capazes de suportar de forma alguma. Fomos ficando tristes, recuados, quando muito, raivosos e excessivos. Nossa visão embaçada e a energia pouca, quase nada.

A violência de tudo isso é contra nossos corpos, que não são todos os corpos, mas, sim, os nossos, que menos importam, não fazem falta. Nossa arma — ainda que escassa — é a alegria, portanto. Não a do riso frouxo de quem pouco sabe — afinal, sabemos. Mas a alegria que nasce como última tentativa de desconcertar a bala disparada contra os corações. É nossa resposta a todo horror, o cuidado em manter nossas vidas e as dos outros de pé, à espera e atentas diante de toda estratégia armada para nos desarticular e calar nosso desejo de fala.

Não há, portanto, tempos difíceis. Todo tempo é um (im)possível, onde tudo cabe. O exercício, incansável, é de levantar nossos corpos cada dia e acreditar na alegria como meio de ultrapassar a opressão e alcançar o outro. E, assim, estarmos vivos, fortes e juntos.


Isabela Bosi

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