sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

Agnès Varda, vovó e uma ponte invisível

Uma escrita aos grandes corações — e à construção de pontes invisíveis


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Tem vezes que a vida parece construir um roteiro perfeitamente amarrado, com início, meio e fim costurados da forma menos óbvia e, ao mesmo tempo, mais sincrônica possível. É quando, mesmo em meio ao luto, a gente consegue sorrir alguma coisa — e, nisso, existir se torna também poesia.

Em 1918, minha avó paterna nascia num interior inventado, de nome Duas Vendinhas, em mãos de parteira e sem anestesia de mãe. Vovó teve uma vida que se pode chamar de simples, mas, em mim, parece o que de mais extraordinário existe.

Saiu do lugar pequeno onde se tornou humana para viver no imenso Rio de Janeiro, com seis filhos e um coração que só mais tarde descobririam grande demais. Mudou-se outras vezes, carregando suas casinhas na mala. A cada ano, mais e mais casas na coleção.

Teve netos. Depois, bisnetos. Muitos sobrinhos. Todos lhe deram a chance de amar quando parecia ser impossível amar ainda mais. Foi inchando o coração aos poucos, sem pressa, com alguma dor pelo caminho, mas só de saudade.

Não terminou os estudos de escola, e nunca deixou de ler. Mesmo com a visão envelhecida, os óculos e a lupa lhe permitiam seguir escapando do real para o imaginário das letras — nesse sonhar baixinho que faz parte dos que têm coração grande.

Dez anos depois de vovó, em 1928, Agnès Varda nascia em Bruxelas, da mistura de um grego com uma francesa. Com seus 4 irmãos, aos 12 anos a guerra lhe força a deixar a cidade natal para morar perto do mar, na França de sua mãe, onde aprende sobre maresia e imensidão. É ali que constrói algumas de suas maiores lembranças — o que, no futuro, seriam matéria de seus filmes.

Quando vi Les plages d'Agnès pela primeira vez, há dez anos, reconheci nela o amor de minha avó, no olhar que sorri a todo encontro, essa abertura à vida. Não sei de suas casas nem do tamanho de seu coração, mas não percebo que entre o sul da França e o interior do Brasil há uma ponte sutil, um caminho traçado em afeto, mesmo que não se veja.

Vovó e Agnès se despediram deste planeta no mesmo dia de março de 2019, uma com 100 e a outra com 90 anos, marcando a passagem de um século juntas, à distância, sem nunca terem ouvido falar uma da outra. Ambas, porém, se encontram em mim, na formação disforme de meu coração que aprende a crescer com(o) elas, em casas que construo silenciosamente.


Isabela Bosi

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