sobre o mundo sobre a mesa

Todos os sobres e sabores

Ana Márcia Cordeiro

Sobretudo impressões. Sobre tudo. Da minha mesa até o mundo.

O peso da escolha

Se a própria trajetória da vida na Terra é feita de acasos, de improbabilidades incalculáveis, como podemos insistir nesse poder falso e tirano de autodeterminação?


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Eu tenho uma teoria (na verdade tenho uma quantidade bastante impressionante de teorias. Bem menos impressionante, no entanto, é o conteúdo delas). Não importa quem você seja, quanto dinheiro tem, quantos livros leu, com quem você dormiu, qual sua profissão, seus amores, seus prazeres, nada mudará o fato de que a vida de todo o ser humano é diretamente influenciada por um certo número de verdades inescapáveis do Universo.

Eu não sei quantas são essas verdades, muito menos o teor de todas elas. Algumas eu desconfio, outras tenho certeza. Eu não sei se nossa missão aqui na Terra é aprender a viver sob suas égides ou se viver em paz com o Universo já seria o suficiente. Eu não sei se é possível viver em paz com o Universo sem compreender essas verdades. Aliás, eu não sei de nada, mas eu tenho teorias, muitas, e essa é uma das minhas preferidas.

Algumas verdades inescapáveis foram amplamente decodificadas pela humanidade e passadas de geração em geração. Atravessaram continentes, oceanos, milênios, diferentes sociedades, culturas atualmente extintas; até se tornarem lugares-comuns, clichês, sabedoria popular deturpada pelo próprio povo num telefone sem fio que fez esvair todo o seu valor.

Quando chegamos a esse ponto, quando descartamos uma verdade inescapável, o Universo (ou Deus - sua personificação) nos lança um olhar de condescendência, simula um “sorvete na testa” e faz surgir outra guerra imbecil (ou um vírus apocalíptico) em algum lugar do planeta.

Das verdades inescapáveis que identifiquei, há uma que me perturba, assombra, persegue (ou sou eu que a persigo?), e que alguém conseguiu condensar na seguinte frase:

“Toda escolha é também uma renúncia”.

Seis palavras. Trinta e quatro caracteres. Todos os dias, há mais de dez anos, tento decidir se essa frase me é como um feixe de luz divina ou uma pedrada na cabeça.

Incontestável, simples, invariavelmente verdadeira. Na minha opinião, genial. Não há no Universo condição que a faça perder efeito.

Não sei se é culpa da frase - ou da professora de filosofia que me trouxe essa, digamos, “pedrada luminosa” - ou se eu já tinha probleminhas antes daquela aula. O fato é que me encontro tão obcecada em fazer sempre a melhor escolha que vivo tendo crises catatônicas diante das bifurcações que a vida nos apresenta o tempo todo.

“A doce ansiedade da escolha” suspira Renata Salecl, filósofa, em uma TED talk sobre o tema. Particularmente não vejo nada adocicado no processo, nem mesmo quando estou entre o pudim e o petit gateau.

De acordo com Salecl, a catatonia não é exclusividade minha ou do Chaves. Somos todos obcecados pela escolha certa, aquela que nos levará invariavelmente a um grau maior de felicidade e satisfação. É um fenômeno das sociedades capitalistas industriais modernas, onde não apenas há muitas escolhas disponíveis, mas também um peso excessivo em cada uma delas - sucesso ou fracasso. Por isso mesmo, não raro, o excesso de opções (ou de liberdade, em última instância) causa muito mais paralisia do que movimento.

A cada escolha algo nos é garantido, algo nos é privado. A ansiedade vem da impossibilidade de se enxergar além da curva, pois no momento da escolha, não há como saber com certeza o que ganhamos e o que perdemos. Sempre há desdobramentos que vão além da imaginação, e ninguém quer perder um centavo além do combinado. Só que não existe combinado!

Se a própria trajetória da vida na Terra é feita de acasos, de improbabilidades incalculáveis, como podemos insistir nesse poder falso e tirano de autodeterminação?

Nem toda a ponderação e parcimônia do mundo nos protegerá das perdas. Nenhuma equação matemática conseguirá prever todas as nuances do fracasso. Nenhuma tecnologia será capaz de fabricar os sincronismos que tornam a vida tão interessante. Qualquer preocupação que te consuma, que te impeça de notar pequenas ou grandes belezas do cotidiano será sempre uma completa perda de tempo.

Somos fruto de nossas escolhas, mas também da magia que habita o Universo muito antes de nós. Há momentos em que a melhor opção é acalmar o coração e confiar nisso.

Idade do céu - Paulinho Moska

(Vai dispensar esse clichê? Não quero nem ver o noticiário)


Ana Márcia Cordeiro

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