sobre o mundo sobre a mesa

Todos os sobres e sabores

Ana Márcia Cordeiro

Sobretudo impressões. Sobre tudo. Da minha mesa até o mundo.

Para amar Greta Garbo

Garbo fora chamada “a divina” e isso me dava sensação de exagero, mas que outro termo se aplica ao incrível encontro de um talento irretocável com uma beleza descomunal?


Não sou por natureza uma pessoa saudosista. Pelo contrário. Tenho a estranha tendência de ver com maus olhos tudo o que é passado, sobretudo o meu passado. Minha parca evolução ao longo dos meus trinta e poucos anos de existência me trouxe verdadeira aflição pela pessoa (ou pelas pessoas) que fui e pelos erros bobos que cometi. Por outro lado, fico bastante irritada com quem descarta o tradicional chamando-o de velho, esvaziando seu valor por completo sem sequer deitar-lhe uma segunda reflexão.

Por iniciativa própria, por gostar de Cinema e por gostar de dar valor ao que tem valor, ainda na adolescência, me obriguei a assistir filmes de Charlles Chaplin - uma decisão que certamente não entrará para o hall dos erros bobos e aflitivos. Chaplin é a prova de que a genialidade resiste ao tempo. Fiquei completamente apaixonada por sua obra e ainda espero o dia em que vou conseguir assistir O Garoto sem chorar e rir. (Mentira. Não espero esse dia. Na verdade, espero que ele nunca chegue.)

Amar Chaplin foi fácil, difícil é conseguir companhia para assistir filmes mudos ou em preto e branco, e agora que meu filho de seis anos tem idade suficiente para se levantar e ir embora da sala, conto apenas com Dona Alzira - uma grande entusiasta das artes em geral, ela própria uma pintora de mão cheia e, não bastasse essas e outras qualidades, avó-quase-mãe de meu marido. Foi ela quem trouxe para minhas imediações o fascínio e mistério de Greta Garbo.

gg as you desire me.jpg “Como me queres” (As you desires me) 1932

Nem de longe eu poderia passar por grande conhecedora da Sétima Arte - Dona Alzira, no entanto, enganaria mais facilmente. E Como todos que não são especialistas em coisa alguma, acumulo nesta vida muito mais ignorâncias do que sapiências - e pensando bem, um especialista tende a ter apenas um campo de sapiência e todos de ignorância, então que diferença isso faz? Digamos apenas que o especialista tem o mérito de ser aquele que faz os assuntos avançarem e eu certamente não farei isso aqui.

De fato poucos conseguiriam trazer novidades, não sobre o Cinema, mas sobre seu maior ícone feminino, pois se somarmos todo o conhecimento de todos os especialistas em Greta Garbo, certamente acumularíamos mais dúvidas do que certezas.

gg1.jpg ”Há muitas coisas no seu coração que você nunca pode dizer a outra pessoa. Elas são você, suas alegrias particulares, suas tristezas, e nunca podem ser contadas. Se as contar, você estará barateando-as, barateando a si mesmo”

Dona Alzira ainda não me presenteou com uma sessão de A Dama das Camélias (1936), mas está em nossos planos, e para breve. Enquanto não damos conta disso, o bom e velho(?) Youtube me permitiu contato com trechos clássicos de Garbo.

Já disse que não gosto que se descarte o velho sem maiores considerações? Pois também não gosto que se glorifique o passado por qualquer bobagem.

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Garbo fora chamada “a divina” e isso me dava sensação de exagero, mas que outro termo se aplica ao incrível encontro de um talento irretocável com uma beleza descomunal? Pelo pouco que vi, Greta Garbo e sua atuação não parecem dever nada ao mito que ela se tornou quando abandonou a carreira - seu último filme Duas Vezes Meu (1941).

Os motivos para por fim a sua vida profissional foram tão obscuros quanto os meandros de sua vida amorosa e pessoal.

Em uma Hollywood fortemente misógina (e que o é, não se engane, em algum grau, até hoje), a divindade conferida pelo talento e beleza fez nascer temores nos grandes executivos da indústria. Uma mulher que não queria ser (e não era) apenas bela e sedutora; que não tinha como único objetivo povoar posteres e sonhos, mas fazer boa arte e ser bem paga por isso; que não se conformara com os rumos que o mundo tomava indo inevitavelmente em direção à Segunda Guerra, enfim, uma mulher em vias de acumular qualquer poder para além do lar, sobretudo naquela época, não poderia caminhar pela Terra impunemente.

Além de sofrer certo boicote, Greta Garbo foi a primeira grande vítima da fome da mídia. Por conta disso, viveu em Nova York até o fim de sua vida, encontrando seu exílio dentro de suas capas de chuva, chapéus, echarpes e óculos, povoando assim a memória e o imaginário dos concidadãos que tiveram a sorte de vislumbrá-la - algo quase como a aparição de um unicórnio.

Sobre sua sexualidade, tudo se especula. De bissexual a assexuada, o maior ícone feminino da história do Cinema usava roupas que lhe davam um visual andrógino, sonhava em representar papéis de homens e - reza a lenda - muitas vezes se referia a ela mesma no masculino. Parece que teve relacionamentos com homens e mulheres, mas sabe lá Deus quantos amores de verdade ela teve, se é que teve algum.

Das poucas entrevistas que deu, ficou a impressão de que raramente se divertia, que era melancólica, preocupada demais, até depressiva. Mesmo assim, a grande atriz dramática soube também fazer comédia divinamente - o filme Ninotchka foi promovido com o slogan “Garbo Laughs!!!”.

Das histórias que se contam, uma particularmente me parece fazer enorme sentido. Uma jornalista a teria flagrado encarando-se no espelho do banheiro de um restaurante. Tinha um ar de desconsolo, as mãos seguravam o rosto, como se tentasse fazer sumir as rugas que já se acumularam àquela época. A jornalista fingiu não reconhecê-la com medo de “afugentar o unicórnio”; graças a isso pode notar que ela deu as costas para o espelho muito antes de deixar o toalete.

De fato, não deve ser fácil para uma divindade entender o que é o tempo e por que ele existe.

gg color.jpg “Sou o que o adolescente jamais encontrará, o que o velho procurou em vão durante meio século, o que a mulher desejava ter para segurar quem a deixou. Compreendem, então, por que me escondo? Não quero que os sonhos acabem.”

Infelizmente Greta Garbo e Charlie Chaplin mal se conheceram em vida.

Uma pena, realmente. Eles teriam muito o que conversar.


Ana Márcia Cordeiro

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