sobre o mundo sobre a mesa

Todos os sobres e sabores

Ana Márcia Cordeiro

Sobretudo impressões. Sobre tudo. Da minha mesa até o mundo.

Questão de tempo - (e não é sempre?)

Aprender a gerenciar um tempo que está cada vez mais líquido talvez seja o grande aprendizado da vida moderna.

"Questão de Tempo" não é super lançamento, não é clássico, não é cult. É um filme despretensioso e adorável. Uma estória para saborear com uma lição para não se esquecer.


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O mundo certamente melhorou em vários aspectos nos últimos séculos. Comparando nosso cotidiano com o dos séculos passados - e lembre-se que somos todos do século passado -, fica claro o quão ágeis nos tornamos. A tecnologia acelerou nossos deslocamentos e potencializou nossas capacidades de forma tão intensa, que mudou a forma como experimentamos o tempo. E quanto mais esticamos os dias fazendo caber mais e mais tarefas e decisões, mais velozes - e furiosos! - ficam os ponteiros do relógio.

Assim, entre carreira, filhos, amigos, romances, família e tudo o que acontece no mundo, até os mais pontuais parecem sentir-se atrasados o tempo todo - como se o mundo vivesse uma pandemia da síndrome do coelho branco (ou do hamster na gaiolinha). E não, essa vida demasiadamente acelerada não é uma das maravilhas dos nossos tempos, mas um extenuante efeito colateral dele.

Aprender a gerenciar um tempo que está cada vez mais líquido pode ser o grande aprendizado da vida moderna, do qual ninguém deveria escapar. O problema é que todo aprendizado requer tempo e quem o tem? (Percebam o paradoxo)

Meus dias, por exemplo, ou a parte “útil” deles, tem uma média de 18 horas de duração, mesmo os sábados e domingos. Vejam bem, dezoito horas. Não é pouco tempo (basta saber que dá para assistir na íntegra a trilogia d’ O Senhor dos Anéis. DUAS VEZES!! Quer dizer… É TEMPO, MINHA GENTE!). Mesmo assim eu vivo falhando nas tentativas de encontrar horário para atividades simples como ir ao cinema com o marido (que é tão atarefado quanto eu).

Ah, o cinema… Que saudade...

E pensar que já houve um tempo (tipo, logo depois que o meteoro caiu e exterminou os dinossauros) em que eu assistia a transmissão do Oscar me sentindo apta a discordar das premiações e entendendo quase todas as piadas do Billy Cristal. Agora, vivo em eterno delay cinematográfico, televisivo e até literário.

Motivada por essa saudade e aproveitando que meus filhos já se entretém sozinhos por cerca de dezoito incríveis e consecutivos minutos, marido e eu - munidos de uma determinação épica - temos tentado correr atrás do prejuízo. Cinematográfico. (E de outras naturezas também, mas por agora foquem no cinema).

Dia desses marcamos um encontro no nosso sofá. Dentre os títulos disponíveis, ele sugeriu assistirmos um filme cujo cartaz e sinopse anunciavam: um ruivo esquisitérrimo; um macarrão sem molho chamado Rachel McAdams; e uma estória que envolvia viagem no tempo.

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Sendo fã de filmes sci-fi, porém casado com uma pessoa que raramente se interessa por tal filão, marido teve a certeza de que melhor que isso não ficaria - sem falar que, como teríamos que costurar a trama em retalhos de dezoito minutos, lhe pareceu bastante apropriado assistirmos algo que exigisse pouco de nossos neurônios. Assim, sem mais delongas, começamos a assistir, sem qualquer empolgação.

A trama gira em torno de Tim (Domhnall Gleeson - o ruivo esquisito), que assim como seu pai (Bill Nighy - coraçãozinho com a mão) possui uma habilidade peculiar: consegue viajar no tempo, mas apenas para o passado - mais especificamente para o seu próprio passado.

Com essas limitações, a temática viagem no tempo se distanciou dos interesses do marido (sorry, honney), mas fez nascer uma história fantástica que troca ideias justamente com essa sensação de hamster na gaiolinha, entre outras coisas.

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Imagine que existência interessante… Vir a esse mundo com um “controle remoto”, cujo botão rewind permite não apenas rever os melhores momentos, mas fazer escolhas diferentes, testá-las com toda a calma do mundo, voltar e desfazê-las quantas vezes for necessário? Imagine ver o tempo não mais como um fator limitador, mas como um aliado? Imagine nunca mais se ver assombrado por um daqueles tenebrosos e se?

E se eu tivesse mais tempo para meus filhos?, e se eu passasse mais tempo com meus pais?, e se eu tivesse dito a frase certa na hora certa?, e se eu tivesse feito alguma coisa para ajudar alguém?

E se um dia eu encontrar uma lâmpada mágica ou uma fada madrinha e me for permitido escolher uma habilidade especial, definitivamente, quero essa. Nada de superforça, invisibilidade ou ler pensamentos. Quero TEMPO. Quero fazer escolhas que nunca serão definitivas. Quero rever a primeira vez que vi meu marido e a primeira vez que o vi depois de um longo período afastados, ouvir de novo a primeira gargalhada dos meus filhos, a primeira palavra, os primeiros passos - porque foi um período tão cansativo e de lá para cá, tanto se acumulou na minha cabeça que eu temo ter precisado abrir espaço jogando fora memórias preciosas que eu jamais terei de volta.

Com tempo de sobra seria fácil ser uma mãe um pouco melhor - para ser muito melhor, let’s face it, eu teria que nascer de novo -, mas sem dúvida, enquanto professora, eu seria a melhor de todas! Teria resposta para todas as dúvidas, tempo para todos os alunos e todas as estratégias funcionariam de primeira - lá pela terceira ou quarta tentativa.

Não teria pressa para absolutamente nada; raramente chegaria atrasada aos compromissos (meus amigos agradeceriam imensamente); e ainda poderia ler todos os livros que não li, ver todos os filmes que não vi, entender todas piadas do Billy Cristal e do rapaz magrinho de How I Met Your Mother.

Divagações à parte, Questão de Tempo é um filme de uma leveza e doçura incríveis. Eu faria um texto muito mais interessante se entregasse aqui alguns detalhes - e considerando que é um filme de 2013, não seria nem considerado spoiller. Mas não farei isso, pois caso você se depare com ele numa noite de insônia ou numa tarde de folga, vai poder assistir sem me emanar vudus por eu ter estragado a experiência. Vou me ater a dizer que Tim e seu pai desenvolveram diferentes reflexões sobre o bom uso de seus poderes, e vão além: nos mostram alguns truques bem simples que podem transformar qualquer cotidiano ordinário em uma vida extra-ordinária.

Ninguém precisa ter poderes fantásticos para fazer nascer um par de horinhas semanais dedicadas a fazer feliz aquela lista de quatro ou cinco pessoas que você mais ama no mundo (sem esquecer que você mesmo faz parte dela). Basta reunir um bom punhado de coragem e alguma determinação. Para dizer não ao emprego escravizante que te paga bem, mas te suga a alma. Para não se obrigar a perder tempo no salão de beleza toda semana. Para se permitir desviar a atenção do que mais importa no mundo todo, e se presentear com um filme, um livro ou qualquer outra coisa que, apesar de simples, te trará enorme satisfação (ainda que fracionada em intervalos de dezoito minutos).

Melhor descartarmos a fada madrinha ou a lâmpada mágica e aceitarmos que, diferente de Tim, para o nós, o tempo continuará sendo linear e de mão única. Melhor fazer valer a pena logo na primeira vez.

O filme é uma fofura. Assistam.

(A menos que você - um ser sem coração - tenha odiado Simplesmente Amor. Nesse caso, não assiste, não. E se assistir, não mande vudus)

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Ana Márcia Cordeiro

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