sobre tudo

Porque a profusão de mundo se organiza no curso do discurso.

Teofilo Tostes Daniel

Foi assim: até os dez anos de idade, aprendeu o mundo de ouvido. Então dois pedaços de vidro inseriram em seus olhos o conceito de nitidez. Encantou-se com a forma das coisas e das letras. Divide a cama e a biblioteca com sua amada Fabi. E ensaia constantemente seu concerto com as palavras.

Semibreves

Em tempos de ouvidos moucos, talvez a música exista para nos ensinar a dialogar. Mas não temos muito tempo. Em nosso mundo agitado, as notas mais longas são semibreves. É nesse efêmero que soamos.


furalina.jpg Arvo Pärt: Für Alina*

Tenho o desejo mudo de dissolver em tintinnabuli a polifonia. Não para que cada voz deixe de dizer. Mas para que cada uma delas soe como sino em favor da música, até os últimos compassos. Até o fim sem fim do silêncio impossível.

Habita-me desejo urgente de dissolver corações na suavidade de notas que ressoam até o inaudito e ressaltam os harmônicos das notas seguintes. Em dissonâncias, ressonâncias e consonâncias que liquefazem sons. E neste delicado cluster, formado por espectros sonoros, em cada mão do piano vive uma voz que fala. Elas existem para um diálogo continuado.

Eu ouço, pois vivemos num tempo em que precisamos aprender a dialogar. Nossa voz se aprende de ouvido, de ouvir a alteridade. Silenciar o outro é diminuir a riqueza da música do mundo. Por isso, talvez seja necessário aprender a acolher para questionar. Hospedar em si aquilo que nos absurda, antes de devolver a perplexidade de estar diante do abismo.

A música existe para não deixarmos que o inaceitável crie raízes em nós. Para impedirmos a descaracterização de nossa face. Para não abrigarmos a violência de tantos fascismos. Para que ódios não revirem nossas vísceras. Contra tudo isso, é preciso desobedecer os imperativos diários da desumanização. É urgente não anuir com a violência, não aceder em oprimir pelo lastro da banalidade do mal. E resistir a todos os extermínios.

Não temos muito tempo. Em nosso mundo agitado, as notas mais longas são semibreves. É nesse efêmero que soamos. Ressoamos, evidenciando consonâncias e dissonâncias. Vozes se cruzam apenas no tempo do diálogo. Esse tempo é o presente, imerso nos determinantes da história das coisas e imbuídos dos desejos do amanhã.

notacaomusical.gif Notação musical antiga

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*Für Alina é uma peça para piano de Arvo Pärt, considerada a obra inaugural do estilo de composição criado por ele chamado tintinnabuli, no qual cada nota da melodia permanece ressoando enquanto outra nota é tocada, formando um efeito que remete à ressonância de um sino (em latim, tintinnabulum).

Teofilo Tostes Daniel

Foi assim: até os dez anos de idade, aprendeu o mundo de ouvido. Então dois pedaços de vidro inseriram em seus olhos o conceito de nitidez. Encantou-se com a forma das coisas e das letras. Divide a cama e a biblioteca com sua amada Fabi. E ensaia constantemente seu concerto com as palavras..
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