Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo.

"As Crônicas de Gelo e Fogo" ou "As Crônicas de Perdedores e Vencedores"

Todos gostamos de uma história de um "Underdog", ou azarão, como diríamos no idioma legado à nós brasileiros. As "Crônicas de Gelo e Fogo" de George R. R. Martin são um exemplo em uma série de outras histórias que nos contam a respeito de personagens que contrariam todas as possibilidades. Mas parece que Martin aumentou em todas as proporções tal aspecto apelando para algo tipo Vencedores e Perdedores (Winners e Losers). Neste artigo eu tento analisar e mostrar as relações de oposição entre as personagens do livro e como o autor, consciente ou não, na maioria das vezes favorece os personagens que apresentam alguma característica de "loser". O artigo contém alguns spoilers para os que não tem acompanhado os livros ou apenas assistido a série.


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Todos gostamos de uma história de um "Underdog", ou azarão, como diríamos no idioma legado à nós brasileiros: uma história sobre alguém que, contra todas as possibilidades e previsões foi capaz de superar uma dificuldade inicial. Existe algo em nós que nos faz sentir um certo êxtase ao ler essas histórias, sejam reais ou não. Provavelmente isso acontece porque entendemos essas crônicas como um vislumbre de uma possibilidade para nossas próprias vidas. A esperança que algum dia alo ou alguém irá nos tirar de nossa rotina e de uma vida sem sentido.

Não são poucos os livros que exploram trajetórias desse tipo. Já vimos isso em "Senhor dos Anéis" ( A raça dos Hobbits, a mais insignificante na História da Terra Média tem um papel crucial e decisivo na Guerra do Anel) ou em "Harry Potter" (um menino orfão abandonado num sótão, desprezado pelos parentes se torna um poderoso mago), ou até na Bíblia (O filho de um carpinteiro se revela o filho de Deus e salvador da humanidade).

The Passion of the Christ.jpg "Você é um filho de carpinteiro que convive com pescadores e quer ser Rei? Qualé?!"

AS Crônicas de Gelo e Fogo

As "Crônicas de Gelo e Fogo" de George R. R. Martin, como os exemplos acima, nos conta a respeito de personagens que contrariam todas as possibilidades. No entanto parece que Martin elevou ao quadrado tal aspecto apelando para algo do tipo Vencedores e Perdedores (Winners e Losers), uma característica tipicamente Norte-Americana. De forma consciente ou não, o autor, na maioria das vezes favorece os personagens que apresentam alguma característica de "loser" e que tem em sua essência algo de bom. Há uma certa oposição interessante, geralmente associada a características físicas e sentimento nobre. A beleza nos livros de Martin é retratada de forma cruel, enganadora e repleta de comportamentos desviantes. Numa alegoria a uma típica história de High-School apresentada em filmes, as personagens que seriam os alunos "populares" tem se dado mal ao longo do livro, enquanto os "otários" ou "losers" tem se dado relativamente bem. Relativamente bem porque em primeira análise as histórias de Martin não parecem se encaixar numa lógica maniqueísta de bem e mal, porém com o tempo podemos perceber que há sim essa perspectiva. E mesmo que os personagens bons e perdedores não estão vivendo da melhor forma possível e colhendo os louros da vitória o tempo todo, é possível perceber o desprezo que elas despertam no mundo que os cerca e como, de uma hora para outra, eles se veem numa situação antes inimaginável para os seus padrões. Há também os personagens que são "bons e bonitos", que acabam pagando por sua beleza (a beleza aqui se trata não só de questão física, mas o autor utiliza das características físicas para nos indicar como deveríamos nos sentir em relação aos heróis).

As personagens que ficam no meio do caminho, que temos dúvidas quanto suas índoles, como Tyrion, passam por situações tão confusas quanto seus próprios sentimentos. O exercício que tentaremos fazer aqui é de opor os personagens em duplas e verificar como um faz oposição ao outro, e de que maneira o personagens azarão tem uma resposta do mundo de Westeros que corresponde mais a uma verdadeira história de sucesso do que ao mundo de aparências dos "populares".

game-of-thrones-title.jpg "O inverno está...vocês já não estão cansados dessa imagem?"

Família Stark: Losers e Winners

Comecemos falando das crianças Stark. Em primeiro lugar gostaria de falar da primeira relação entre personagens que me chamou atenção para esse aspecto: Sansa e Arya.

A mais velha das irmãs Stark é descrita no livro como sendo uma linda garota ruiva, esbelta, com a voz doce, que se veste bem e uma candidata a princesa Disney. Já Arya é descrita como uma garota com hábitos de garoto (tomboy), desgrenhada, desajeitada ao exercer tarefas tipicamente femininas e com um belíssimo apelido de "Cara de Cavalo". As duas são ótimas oposições de maneira de enxergar o mundo: enquanto Sansa sonha em ser Rainha e com contos de princesas e donzelas em apuros e cavaleiros em armaduras brilhantes, Arya sonha com aventuras de piratas, caçadores e com o desconhecido. Ao longo dos livros acompanhamos pouco a pouco o sonho da primeira de desfazendo e o da segunda se cumprindo cada vez mais. Sansa é prometida a um príncipe que a maltrata, ela passa a conhecer o mundo por trás das aparências dos cidadãos da côrte (que em nada tem a ver com suas aparências de contos de fadas) e depois é obrigada a casar com um anão. A primeiro momento seu herói que irá salvá-la é um bobo da côrte bêbado e gordo. Já Arya, apesar de ver seu mundo desmoronando ao final do primeiro livro, parte para uma aventura onde irá conhecer diferentes lugares, combater bandidos, se esgueirar no meio da noite e empunhar uma espada. Por mais apuros que ela passe, é possível para o leitor perceber como ela evolui ao longo dos capítulos e se torna a história que sempre gostou de escutar. Sansa vê, cada vez mais, sua realidade de castelos e luxo se desmanchar, sem qualquer tipo de reação que não seja chorar ao final do dia.

Os irmãos Robb e John são outro exemplo. Enquanto Robb é criado como nobre e sucessor de seu pai como senhor das Terras do Norte, Jon é lembrado a todo tempo de sua condição de bastardo, algo que ninguém quer. Enquanto Robb tem a oportunidade de vingar a morte do pai, Jon é enviado para uma forma de exílio ao engrossar as fileiras da Patrulha da Noite, formada essencialmente por párias e foras da lei que não têm nada de melhor a oferecer à sociedade. Robb é declarado Rei do Norte, vence batalhas e se casa com uma linda moça que encontra pelo caminho. Jon passa dias e dias lutando contra sua condição de bastardo, dias e noites ao relento e acaba por matar a mulher que se apaixona, pois ela era uma selvagem. Apesar da narração inicial de glória para Robb e drama para Jon, o Rei do Norte é assassinado e Jon se torna homem de confiança, herói e depois Comandante da Patrulha da Noite.

Lannister: nós somos bonitos

É óbvio que a relação inicial que nos vem à cabeça quando falamos nos Lannister é Tyrion e seus irmãos gêmeos Jaime e Cersei. Porém Tyrion é um personagem um pouco mais complicado, mas me parece que seu sofrimento ao longo do livro, assim como sua glória, é apresentada de forma dúbia, complicação que acontece porque ele não parece ter um lado bom ou mau definido no livro. De qualquer forma, a impressão é que suas punições ocorrem por não sabermos exatamente de que lado ele efetivamente está, porém o carisma do personagem em relação aos leitores é bem claro em função do destaque que se é dado para seus defeitos físicos e sua inteligência acima da média, algo que provoca uma certa solidariedade entre Tyrion e muitos dos seus leitores, classificados como nerds, geeks e "losers" (eu sei que o livro se popularizou muito atualmente, mas literatura fantástica é tipicamente relacionada a esses grupos. Eu sei porque sofri esse tipo de preconceito, mas é matéria para outro dia).

Cersei e Jaime são apresentados no livro como o "Rei e Rainha do Baile": ricos, bonitos e bem nascidos seu desprezo pelos outros é tão grande que resolvem ter relações sexuais entre eles do que se submeter ao convívio com "não-leões". A forma, a beleza e a riqueza são cateterísticas de seu caráter, sempre a julgar os outros por esses padrões auto-estabelecidos e desprezar quem julgam inferior. Ao longo dos livros tais características nos fazem odiá-los, provavelmente com aquela lembrança ressentida dos garotos e garotas que estavam em sala de aula conosco e eram bons em absolutamente em tudo. E mesmo que não fossem, eles faziam parecer que o eram. Esses irmãos começam a se dar mal ao longo do livro, apesar da aparência de que está tudo sobre controle, Cersei começa e perder os filhos (morto ou enviado para outro país) e o pai, e, em busca do poder, não descansa um só momento, tendo de desconfiar de todos a sua volta. Jaime - que desde o início com boa aparência, porém com uma má fama de traidor, conhecido como Regicida - perde uma batalha e é capturado, sua vida passa a descer uma ladeira onde sua imagem limpa e rica se torna suja e pobre. Mas com ele acontece algo interessante a partir do momento que ele conhece a oposição à sua irmã: Brienne.

Brienne é uma mulher masculinizada, praticamente o futuro de Arya, descrita no livro como um do seres mais feios que habitam suas páginas. Porém a personagem é de uma honra e cavalheirismo que não se encontram verdadeiramente nos Sors que habitam Westeros. Ao escoltar Jaime como prisioneiro até Porto Real passa a conviver com o Regicida, e o autor nos dá a chance de conhecer melhor o galante cavaleiro. Porém nenhum sentimento positivo nos é despertado em relação a ele durante a viagem com a feia mulher de armadura (algo que ele faz questão de destacar em relação a donzela),até o momento que ele se vê destituído da sua mão direita: ele passa ser um aleijado (que nos remete a feiura física) e inútil (pois essa era sua mão da espada).

Eu acredito que neste momento Jaime começa uma viagem no livro de uma lado para o outro. E isso, talvez, deixa bem claro essa relação para o autor entre ser um pária e ser um "popular". A mudança física de Jaime passa se configurar em mudança moral. Tem início a um desprezo em relação a irmã e Brienne, a feia donzela de armadura, começa a pulular seus sonhos.

brienne.jpgSonhe com isso....

Sucesso Via o "Não-Sucesso"?

Não sei se é exatamente essas histórias que nas entrelinhas mostram o sucesso entre os azarões que chamaram a atenção para a série de Martin, porém acredito que em grande parte há efetivamente uma relação entre uma coisa e outra. Existem mais situações no livro que demonstram tais aspectos, como o gordo Samwell Tarly e sua descoberta fantástica do ponto fracos dos "Outros" (ou white walkers, não sei exatamente) por puro acidente, ou ainda Bran Stark, o garoto aleijado que tem poderes sobrenaturais e também parte para uma aventura com a qual nunca imaginou.

É esse tipo de coisa que nos atrai a história do tipo azarão: a possibilidade que, mesmo com todos os defeitos e problemas que temos, um dia podemos escrever uma história de sucesso em relação àqueles que sempre nos sobrepujaram.


Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo..
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