Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo.

"Homem de Aço" ou "Gnose Cristã Na Sétima Arte"

Homem de Aço que estreou no Brasil no dia 12 de Julho, reconta no cinema a história do antigamente nomeado Super-Homem (agora Superman), através da visão de dois cineastas que "revolucionaram" a transposição de quadrinhos para cinema: Christopher Nolan e Zack Snyder. As referências à "Jornada do Herói" de Joseph Campbell e a analogia Superman / Jesus estão espalhadas pelo filme, que se torna uma história mitológica moderna. O artigo não discute aspectos cinematográficos, procuro aqui explorar a dramaticidade da exploração do tema da Gnose, lugar comum da cultura ocidental em diversas lendas. O artigo contém alguns spoilers.


Homem de Aço que estreou no Brasil no dia 12 de Julho, reconta no cinema a história do antigamente nomeado Super-Homem (agora Superman), através da visão de dois cineastas que "revolucionaram" a transposição de quadrinhos para cinema: Christopher Nolan da nova trilogia do Batman, que atuou como produtor; e Zack Snyder, diretor de "300" e "Watchmen" com o diretor. Ambos emprestam suas visões de como a história do Kriptoniano radicado no Kansas deveria ser e o resultado é, para alguns, o melhor dos dois mundos, enquanto para outros, o pior. Porém, o que chama mais atenção desse retcon, como já foi apontado em outro artigo aqui no Lounge, é a alegoria entre Superman e o redentor da humanidade Jesus Cristo. O problema em si não é a alegoria, mas talvez a maneira como ela executada, deixando de ser alegórica em alguns momentos.Este artigo contém pequenos Spoilers.

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A Jornada do Herói e Gnose

Aos poucos que não ouviram falar sobre a "Jornada do Herói", o termo se refere ao que o historiados Joseph Campbell chama de Monomito no seu livro "O Herói de Mil Faces". Segundo o autor há elementos básicos que marcam as histórias clássicas de heróis na cultura ocidental. Campbell demonstra com certa maestria que as histórias clássicas se encaixam nesse padrão que se divide basicamente em três momentos:

- A jornada para longe de casa, ou do seu lugar comum; - A descoberta de um mundo diferente; - A mudança ou a morte; - O retorno ou renascimento.

Facilmente conseguimos encaixar diversos filmes e livros que se encaixem nesses padrões ( Matrix, Trilogia Starwars, Thor, Jonas e a Baleia, Moisés, A lenda do Rei Arthur). Do ponto de vista da Antropologia (em especial a Estruturalista), esse tipo de padrão não é algo consciente, mas códigos inconscientemente construídos gerando sistemas de classificação que identificamos, gerando uma mensagem que captamos. A consciência de cada um cria uma impressão de estar diante de algo intrinsecamente ordenado, acionando mecanismos de compreensão, sem necessariamente termos consciência total do que se passa, porém sabemos que a mensagem nos diz algo. E muita gente vai sair do cinema com a impressão de já ter visto aquilo antes. Confesso que em alguns momentos, será possível "sentir" o filme (graças a trilha sonora de Zimmerman). De acordo com Campbell, essa sensação e a forma como nos identificamos com essas histórias se devem a elementos psicológicos pois, o Monomito fala de uma jornada pela qual todas as pessoas passam: a vida e o amadurecimento.

Superman.jpg Veja como amadureci!Agora sei de que lado da calça fica a cueca!

Agora, o que isso tem a ver com Gnose? Joseph Campbell não foi o primeiro a pensar no Monomito e seus padrões recorrentes. Ele foi quem cunhou o termo e sistematizou a "Jornada do Herói". No entanto, nos primeiros séculos da Era Comum (D.C.), houve uma crença sincrética entre a religião Cristã e elementos da cultura Helenística que resultaram no que ficou conhecido como Gnosticismo: a palavra deriva do grego "Gnose", que pode ser traduzido como conhecimento. Faz referência os que conhecem a verdade oculta. Que verdade era essa? Prepara-se para ler o enredo de Matrix:

- O mundo, a realidade que vivemos, é produto de um erro, uma falha e não corresponde ao real. Vivemos em algo que derivou da realidade. O Deus do antigo testamento, o Criador, é na verdade uma entidade perversa e imperfeita, chamado também de Demiurgo;

- O Ser Criador, supremo e verdadeiro, que não foi o responsável pela criação do nosso mundo, se encarna para nos revelar a verdade. Ele possui a capacidade de nos libertar da ilusão do mundo que vivemos.

Neo podia alterar a "realidade" da Matrix porque possuía o "Código Fonte" para isso. Jesus produzia milagres porque era o Verbo Encarnado, o poder criador de Deus. Kal'El pode realizar o que parecem milagres ao olhos dos tolos terráqueos porque ele vem de outro mundo e contém toda a criação dentro de si (irei voltar neste ponto mais a frente). Para que o "Escolhido" possa atuar sobre a ilusão do mundo, ele primeiramente tem de "sair de si mesmo", se encontrar com essa realidade diferenciada, tomando consciência de si e da realidade efetiva, só assim podendo produzir milagres. Daí vem a relação com a "Jornada do Herói".

É como a "Alegoria da Caverna" de Platão - uma das bases do Gnosticismo. Vivemos num mundo de sombras e a realidade está do lado de fora da caverna. Apenas quem teve contato com o lado de fora é capaz de retornar e tentar conscientizar as pessoas. O problema? As pessoas que estão na caverna estão tão habituadas a essa "falsa realidade", que vão tentar matá-lo. Consequências que foram comunicadas a Neo, Jesus e Clark. Se você não viu o Trailer do filme que coloquei acima, veja-o a partir de 0:50. Jonathan Kent diz a Clark que ele não pode revelar seus poderes até que o mundo esteja preparado. O tema é recorrente no filme.

O sacrifício faz parte da possibilidade da revelação da verdade. É a partir do sacrifício que o personagem irá finalmente se libertar e ascender ao seu posto de herói.

O Mito Cristão e Suas Alegorias No Filme

Man-of-Steel-Trailer-Images-Jor-El-Russell-Crowe-and-Lara-with-Baby-Kal-El-570x237.jpg "Vá meu pequeno Jesus e faça sua parte naquele mundo"

Acho que foi possível relacionar a "Jornada do Herói" e Gnose com temas recorrentes em histórias de heróis. Portanto, o que tem de ficar claro é que a sensação de "já vi esse filme" será inevitável e isso não é um problema, afinal as histórias que apreciamos tratam de temas recorrentes. A execução, a maneira como isso é feito que muda tudo. O que tem gerado indignação em boa parte das pessoas que assistiram ao filme é a alegoria a Cristo. Eu acredito que, como demonstrado acima, por se tratar na verdade de uma história que orbita sobre uma temática comum no mundo ocidental, a parte Cristã seria apenas uma questão de ponto de vista: aos cristãos a ligação apareceria. Aos não cristãos, a ligação poderia se dar a partir de outros referenciais. Lembra-se da Estrutura inconsciente encontrando um caminho da realidade consciente para poder dar sentido à mensagem que me referi acima? Referenciais coletivos, gerando compreensões individuais. Mas o filme peca (já que estamos falando de cristandade) nesse sentido.

Peca porque ele deixa tão claro a relação Superman / Jesus, que deixa de ser, em alguns momentos, uma alegoria. A adaptação de "As Crônicas de Narnia" foi mais sútil em relação a Aslam do que esse filme. E é isso que tem causado irritação. O filme deixa de lado toda a sutileza e escancara todas as referências. Numa das cenas coloca inclusive Clark numa igreja ao lado de um vitral com uma imagem de Cristo com um manto vermelho que mais parece uma capa. É como se naquela parte Snyder estivesse falando com a audiência: "Ei, se vocês ainda não sacaram, olha isso aqui ó!". E se você ainda não sacar, ele coloca Superman de braços abertos, em pose de Crucificado. E não é apenas uma vez, mas pelo menos duas, que podem ser vistas nos trailers.

Jesus-Praying-in-the-Garden.pngEssa é a imagem que aparece no filme. De verdade. E com o Clark do lado.

Infelizmente, pelo que pude garimpar pela internet, aparentemente a Warner teve a intensão de explorar esse lado. Pois então veja: a alegoria não ocorreu em função de uma Estrutura coletiva de mitos, da imagem heroica que ronda o subconsciente ocidental, mas partiu de escolha deliberada dos produtores.

Porém gostaria de chamar atenção as referências Gnósticas da história, que na minha humilde opinião, são apresentadas de maneira didática no filme. O que pode parecer exageradamente Cristão Tradicional, na verdade pode despertar interesse em conhecer o que é ou o que foi Gnosticismo Cristão, que foge um bocado da visão tradicional. Irei listar aqui as referências que eu pude observar. Caso alguém perceba mais coisas, por favor, traga aos comentários e irei acrescentar aqui ao final.

Lista de Referências ao Gnosticismo

- O mundo não foi criado num ato de amor, mas por um erro. O filme dá entender que a Terra foi uma possível colônia de Kripton que foi abandonada, porque o projeto se demonstrou falho. Enquanto outras colônias definharam e morreram, a Terra seguiu um curso próprio de evolução resultando nos humanos, uma sub-raça derivada dos Kriptonianos;

- Jor'El representa os Deuses criadores, porém um com verdadeiro amor pela "Humanidade" (não poderia falar dessa forma, mas não tem termo melhor). Ele rejeita o projeto dos seus semelhantes desumanizados - em Kripton as crianças são produzidas em laboratório com papéis sociais definidos no DNA (estilo "Admirável Mundo Novo"). Jor'El rejeita esse projeto fazendo um filho à "moda antiga". Nesse filho ele deposita a esperança da salvação do mundo;

- Como os Kriptonianos eram todos "feitos em laboratório", havia uma espécie de "Código Fonte", chamado no filme de Códex, que contém a informação genética de todas as pessoas que habitavam o planeta. De alguma forma, Jor'El deposita toda essa informação em Kal'El antes de o enviar para a Terra. Kal'El é portador da Criação, todos habitam dentro dele. Ele pode recriar a população de Kripton que iria renascer;

- Portanto, um ser ligado a criação viaja até a realidade falha (Terra). Ele é criado como pertencendo a esse mundo, a fim de experimentar o que não seria possível numa realidade como a de Kripton: desigualdades, injustiças e, claro, a condição humana. O sofrimento relativo a falsa realidade, a ilusão que vivemos;

- Tendo conhecimento de sua condição especial, o herói sai de casa para conhecer o mundo. Sua jornada permite que entre mais em contato com a Humanidade (agora sim), gerando uma moralidade e auto-consciência da sua condição especial frente aos imperfeitos. Essa é a parte que a Bíblia Cristã tradicional não contém, dando um salto direto para a época de pregação de Jesus, sem detalhar como ele "cresceu em sabedoria";

- Ao assumir seu papel no mundo, o herói tem de se sacrificar para salvá-lo e ascender a sua verdadeira condição ao se revelar para planeta. Depois de 33 anos vivendo no anonimato (Juro, ele diz explicitamente que tem 33 anos no filme. Pra quem não sabe, a idade em que Jesus foi crucificado)ele se enrega ao vilão do filme, General Zod, que ameaça destruir a Terra caso o contrário;

- Sobre o General Zod, ele representa os Deuses Imperfeitos - o Demiurgo - que criaram a Terra. A ideia dele de salvação é semelhante ao Deus representado no Antigo Testamento: destruir para recolonizar. Já Kal'El representa a "Nova Aliança", a possibilidade de abrir os olhos dos terráqueos quanto a realidade da sua condição e tentar, de forma harmoniosa, trazer de volta o sonho do pai (Reino de Deus?);

- Jor'El, como pai verdadeiro do Superman, é a representação de Deus. O filme não se contenta em exibi-lo no início da história: a tecnologia Kriptoniana foi capaz de "salvar" sua consciência numa espécie de "Pen Drive". Ao ser acionado, Jor'El aparece em todos os lugares e dialoga com o filho, demonstrando-se onipresente e onisciente de tudo que está acontecendo;

- Por fim, as referências infinitas nos posteres de divulgação do filme de que Superman é a fonte de iluminação: repare que há sempre uma fonte de luz por trás dele ou proveniente do símbolo - que segundo o filme não é um "S", mas sim o símbolo Kriptoniano para Esperança. A luz nos revela o que antes estava obscurecido, ou seja, traz conhecimento (Gnose).

Man-of-Steel-Trailer-Images-Henry-Cavill-as-Clark-Kent.jpg"Jesus usa barba. Eu uso barba, portanto..."

O filme deve ser odiado pelas suas referências escancaradas ao cristianismo? Ao meu ver, não. Porém, acredito que as escolhas da produção e direção são arriscadas na medida em que podem limitar o alcance da história, que deveria ter caráter mais universal e relacionável para o público. Interfere em demasia também, ao exagerar inserindo tais referencias a todo momento, jogando na cara do público algo que será possível reconhecer como cristão em cenas que poderiam ficar menos melodramáticas sem elas.

Do ponto de vista cinematográfico, tenho minhas críticas pessoais, porém não gostaria de tratar delas por aqui. Apenas fica registrado que, das direções de Zack Snyder, essa pode ser considerada a melhor. O que não quer dizer muita coisa...


Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo..
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