Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo.

"O Grande Truque" ou "Navio de Teseu em Grande Estilo"

Nesse artigo discuto a relação entre o filme "O Grande Truque" com o paradoxo do Navio de Teseu: qual a essência ou natureza real das coisas? O que faz nós sermos quem somos e sermos identificados por isso? A discussão parte da ideia de que filmes Hollywodianos podem trazer ideias complexas sem precisar ser chatos, mas divertidos e ao mesmo tempo desafiadores. O artigo contém spoilers.


Retomando a ideia discutida anteriormente de que filmes Hollywodianos podem trazer ideias complexas e inspirar reflexões filosóficas e éticas apresento neste artigo a discussão sobre o paradoxo do Návio de Teseu e o filme "O Grande Truque" (The Prestige), comumente referido como "Aquele filme em que o Batman e O Wolverine são mágicos".

Iremos aqui fazer uma comparação rápida entre o paradoxo e acontecimentos do filme - portanto o artigo contém spoilers. Primeiro iremos nos familiarizar com o mito de Teseu. Depois uma breve apresentação do filme e o momento em que ele se relaciona com o mito. Por fim estabeleceremos as relações entre ambos e o paradoxo e percorrer algumas outras questões levantadas, traçando a ligação com outros pontos semelhantes da filosofia grega.

Prestige_poster.jpg"Você deveria mudar o nome do filme para Wolverine X Batman. Vai vender mais..."

O Návio de Teseu: o que é isso?

O mito de Teseu e o paradoxo do seu navio é uma daquelas histórias que você provavelmente não prestou atenção na escola. Teseu (ou Teseus) foi um Herói Mítico Grego, considerado como o fundador de Atenas. Como Herói Grego, Teseu passou por diversas aventuras, encontrando-se com outros personagens da mitologia e com deuses em diversas histórias. O resumo da história a qual o paradoxo faz referência é a seguinte:

O Rei Minos, de Creta, tendo sucesso na guerra contra Atenas decretou que de nove em nove anos 14 jovens atenienses (metade garotos e metade garotas) deveriam ser enviados até o labirinto do Minotauro - aquela besta de corpo de homem e cabeça de touro - para que fossem devorados pelo mesmo. Partindo para Creta em navios com velas negras, por duas vezes jovens atenienses foram sacrificados. Na terceira vez, Teseu se voluntaria para ir com a promessa de que iria liquidar o Minotauro e, caso tivesse sucesso, iria voltar à Atenas com velas brancas no navio anunciando seu triunfo. Teseu vence a luta contra o Minotauro e retorna para Atenas com todos os outros 13 jovens. O navio é supostamente guardado e deixado em exibição no porto da Cidade-Estado. E aí entra Plutarco.

Plutarco, historiador grego, conta a história de que o navio foi mantido como relíquia ao longo de séculos e que, pouco a pouco, suas partes originais eram substituídas a medida em que iam apodrecendo. No final de vários anos todas as partes do barco original haviam sido trocadas e do barco que estava em exibição no porto de Atenas não restava um único pedaço do navio de Teseu. A pergunta que os filósofos se faziam é: esse navio, dado que as partes foram substituídas, se não inteiramente mas pelo menos a maior parte do original, é o verdadeiro?

Portanto, quando se fala em Navio (ou barco) de Teseu em filosofia se faz referência à natureza das coisas, das suas essências. Não vamos entrar em muitos detalhes e estender a discussão por aqui pois ficaríamos por horas citando exemplos do que pode ser demonstrado como paradoxo semelhante.

455px-Theseus_Slaying_Minotaur_by_Barye.jpg"Então você gosta de comer jovens atenienses? hmm....Estranhamente isso faz sentido"

O Grande Truque

ATENÇÃO, a partir de agora muitos SPOILERS!

Antes de mais nada, se você não assistiu ao filme, assista. Se não, veja pelo menos o trailer. Não vou perder muito tempo explicando partes do filme, apenas a que nos interessa para entender a ideia do filme e do ponto de vista da ligação com o paradoxo.

No filme (baseado num livro na verdade), dois mágicos de palco do século XIX disputam a atenção do público. Qual deles consegue fazer o truque mais fantástico? Entre as enormes elaborações ambos passam a preparar um truque sensacional: o teletransporte! Cada um a sua maneira cria um truque parecido e tenta desmascarar o truque do outro. Há outras coisas acontecendo no filme, mas o essencial é isso.

215071-the_prestige_original_2.jpg"Um filme que é um sonho Nerd, só que não....Uhahaha vamos frustá-los pensando na possibilidade de um filme com os dois de verdade!"

Num dado momento, o Wolverine Grande Danton, interpretado por Hugh Jackman, entra em contato com Nikola Tesla, um cientista e inventor que realmente existiu, a fim de que crie para ele uma verdadeira máquina de Teletransporte. Tesla cria uma máquina. Ela porém não teletransporta o usuário mas faz uma cópia dele do outro lado, algo que descobrimos apenas ao final do filme. Para quem não viu o filme ou não lembra da cena, veja o vídeo abaixo a partir de 1:50.

A resolução que o personagem de Jackman encontra para poder utilizar a máquina é matar a cópia. Ou seria o verdadeiro? Aí se encontram dois problemas levantados pelo filme quanto ao resultado do truque:

- Quem aparecia no outro ponto da máquina era a cópia ou o original? - Ambos seriam a mesma pessoa?

Supondo que a máquina produz uma cópia do outro lado da sala, ambos parecem manter as mesmas memórias, pois da primeira vez que ele usa a máquina ele mata o "Grande Danton" que surgiu do outro lado, porém quando executa o truque para as plateias quem é morto é "Grande Danton" que ficou no palco. Portanto, cada vez que ele executava o truque ele estava disposto a "morrer". Ao fazer isto sucessivas vezes o que se tem no final é uma cópia, da cópia, da cópia .........

Mas a cópia não é o mesmo que o original? Se em tudo eles são idênticos, até mesmo em memória, na verdade o que se tem são vários Hugh Jackmans todos cantores e dançarinos e badasses?

the_prestige_9_1280x1024.jpg"Isso pelo menos explicaria como o Wolverine conseguia estar na capa de 10 revistas da Marvel por mês."

A Essência de Ser Algo

O que ambas histórias nos levam a refletir do ponto de vista do paradoxo é o que nos faz identificar alguma coisa, ou no caso do filme, alguém. A essência é o que mantém a natureza real da coisa? No caso do navio, a ideia que os atenienses tinham do navio era o que mantinha a sua essência, ou seja, simbolismo de mantê-lo no porto? Mas e ele não era a mesma coisa original, seria relevante reformá-lo?

Hobbes, preocupado como era com as relações humanas, acrescentou mais à historinha. Supondo que alguém tenha guardado ao longo dos anos os pedaços do navio que foram removidos e depois do navio ter sido todo reformado, percebeu que tinha partes o suficientes para remontar o barco com as peças originais e resolveu fazê-lo. Um estrangeiro chega à Atenas e, maravilhado com a história, pede para ver o Navio de Teseu. E agora? Qual navio deve ser mostrado ao estrangeiro? O reformado, que não tem mais as peças originais, ou o antigo que foi remontado, mesmo que com as peças deteriorando? Qual deles é o verdadeiro Navio de Teseu? E se ambos podem ser considerados? Neste caso, vamos considerar que, sendo o barco original aquele em que Teseu esteve, ou seja, navegou e encostou seus pés nele, o verdadeiro, obviamente, é o barco remontado.

O mesmo problema se põem no filme. Temos que ter em vista, antes de mais nada, que a solução para o barco pode ser mais fácil pois se trata de um objeto inanimado e o que ele é ou simboliza é proveniente da experiência que as pessoas fazem dele e não do objeto em si. Portanto, considerando que o navio original é o que levou Teseu, temos a resposta ao paradoxo, enquanto que se considerarmos as experiências que outras pessoas - no caso o que o barco representa para os atenienses - poderíamos considerar o barco reformado como o verdadeiro, pois é o que está em exposição e sendo visitado todos os dias e identificado como o Barco de Teseu. Quando se trata do "Grande Danton" temos duas pessoas com as mesmas memórias, mesmas características corporais e, provavelmente, mesmos sentimentos e pensamentos sobre o mundo. De certa forma são exatamente a mesma pessoa.

performances.jpg"Veja bem, eu também sou o Wolverine. Isso está ficando cada vez mais complicado..."

Dessa vez, por não se tratar de um objeto inanimado, não podemos simplesmente pensar na experiência de outros indivíduos para resolver o paradoxo. Dessa vez o objeto pensa e sente, como o outro. Mas não vamos embarcar (!) num problema ético, vamos manter os pés na resolução de quem é o verdadeiro "Grande Danton". De certa forma podemos considerar que, sendo que uma pessoa é não só a parte física, mas a mental e o que ela concebe como sendo ela mesma. Nossa essência, personalidade ou individualidade, é construída a partir das experiências que vivenciamos. No caso do filme ambos têm a mesma personalidade, porém apenas um deles efetivamente passou pelas experiências. Neste caso poderíamos até evocar a experiência alheia, ou seja, o verdadeiro é aquele com que os outros indivíduos já tiveram contato anterior, enquanto a cópia, apesar de reter memórias, é uma nova pessoa sem contato algum. Mesmo que ele consiga reconhecer os outros e se lembrar de experiências que tiveram com o original, a cópia não esteve fisicamente presente.

Caímos num certo materialismo mas, acredito, é uma boa resposta. Pra nós, não para Danton. O personagem provavelmente se viu no mesmo problema, porém sua resposta foi que ele e a cópia são a mesma pessoa e não importa quem morre, pois essencialmente ele continuará vivendo. É possível concluir isso porque após a primeira experiência - onde o Danton que estava na máquina mata o que estava do outro lado da sala - as cópias ou originais mortos são aqueles que estão no palco (ele faz isso colocando um tanque de água embaixo de um alçapão que se abre ao colocar a máquina em funcionamento). Portanto a solução que ele encontrou foi diferente do desfecho original!

A solução pode ser pensada também se considerarmos que a cópia ou o original irão manter a ideia de que é o verdadeiro e, portanto, não importava se era a cópia o que sobrevivia ou o que morria, o sobrevivente sempre se achava o verdadeiro. Na verdade, ele revela que todas as noites ao executar o truque, não sabia se seria ele no palco ou do outro lado do teatro.

Heráclito e o Rio

Obviamente existem outros exemplos da filosofia grega que discutem a questão relativa a natureza de ser e a essência. Heráclito, filósofo pré-socrático, já levantava esse ponto ao dizer que uma pessoa nunca entra duas vezes no mesmo rio. Isso não acontece não só porque as águas do rio correm constantemente, porque as pessoas mudam o tempo todo, adquirindo novas experiências e refletindo sobre coisas diferentes obtendo respostas. Provavelmente você não é o mesmo de quando começou a ler esse artigo.

Não só isso. Depois dos avanços da ciência e da medicina já sabemos que as células do corpo se renovam constantemente, umas mais rapidamente que outras. Porém todas as células do seu corpo mudam, e em torno de 7 anos você não tem mais nenhuma das células que tinha 7 anos atrás... o que faz de você uma outra pessoa, talvez....?!?Desisto...


Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo..
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