Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo.

Ficção Científica e Especulações Sobre o Mundo

Quais são as bases que fundamentam a ficção científica? Que tipo de comentário social elas incitam? Vamos dar uma olhada no gênero que gerou a maior obra cinematográfica de todos os tempos - na minha opinião - e mergulhar um pouco nos debates que cercam essa maneira científica de fazer ficção.


O gênero de ficção científica parece ter ganhado um pocuo mais de força nos últimos três anos, popularizando-se mais entre o “homem comum” e no Brasil. No ano passado tivemos o terrível “Depois da Terra”, "Home de Ferro 3", "Gravidade", "Círculo de Fogo" e a adaptação do clássico moderno "O Jogo do Exterminador" nos cinemas. Desde a vinda da editora Leya para o Brasil e a estreia da Não Editora tivemos acesso a material de qualidade, além de dar oportunidade para escritores de língua portuguesa terem seus livros divulgados. Não que ficção científica tenha se tornado uma febre no país, mas temos tido mais chance de ter contato com obras do tipo por aqui.Com o novo filme da franquia Planeta dos Macacos está para estrear em julho e me pareceu interessante explorar um pouco o terreno da ficção científica como gênero literário e cinematográfico. O que a ficção científica nos oferece de diferente de outros gêneros? Que tipo de comentário social há no gênero? Se junte a mim neste pequeno texto sobre a ciência que se faz ficção.

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Um Gênero Como Qualquer outro

O gênero de Ficção Cientifica, assim como o terror, costuma ser mais do que uma leitura inicial permite concluir a respeito de suas obras. Toda história tenta nos emergir num mundo onde há uma temática e regras a serem seguidas para o desenrolar dos acontecimentos. Ou ao menos a maioria das boas histórias funcionam dessa maneira. Dessa forma o autor consegue pensar numa narrativa coerente, onde os fatos se encaixam através da lógica estabelecida para aquele universo. Por exemplo, há de se esperar que num livro de gênero fantasia, a temática se relacione com mitologias, contos de fada – nada que tenha muita verossimilhança, uma realidade diferente da nossa. Muitas vezes os autores fazem isso situando a história em outro mundo. Entre as regras estabelecidas, como estamos num mundo que funciona diferentemente do nosso, onde quase qualquer coisa é possível através de elementos mágicos. Assim é a narrativa de O Senhor dos Anéis. Ao nos trasnportar para um outro mundo baseado fortemente na imaginação – não só do autor, mas em toda uma mitologia europeia - e onde magia é uma possibilidade, não estranhamos se um personagem desaparece ao colocar um anel mágico no dedo, há incoerência apenas com nosso mundo, mas não com a Terra Média. Um bom autor consegue nos colocar no “clima” da história e não quebra suas próprias regras.

Como um gênero, literário e cinematográfico, a ficção científica é difícil de ser definida, mas existema alguns elementos comuns que podemos apontar para permitir uma limitação na análise. Ela tem como tema – ora vejam só! - ciência. A história é geralmente guiada através de elementos que se apoiariam em possibilidades reais – ou seja, verossímeis em relação ao nosso mundo – mesmo que explore apenas possibilidades, cenários ainda não alcançados pela ciência, mas que seriam possíveis. Muitos autores alcançam o efeito de imersam nas possibilidades narradas na história situando-a no futuro. Outros, em algum laboratório super avançado e secreto que ninguém ouviu falar. A regra desse mundo é semelhante a nossa e toda situação fantasiosa tem uma explicação científica. Sendo assim, a regra de ouro para escrever ficção científica é escrever de forma racional possibilidades respeitando as regras do mundo natural. Geralmente trata-se de especulação, sem teorias reais, mas possibilidades de novas descobertas. E aí vem a regra não dita mais interessante da ficção científica: respostas a perguntas não respondidas da história tem uma explicação correta, que será aquela que mais se aproxima da realidade e pode ser explicada a partir de lógica e pensamento racional.

Um dos traços culturais mais divertidos dos norte americanos é essa capacidade de agrupar pessoas com gostos fanáticos semelhantes: se você procurar por aí verá que há fóruns e mais fóruns pela internet afora onde nerds de todos os tipos discutem suas obras favoritas. Aqui no Brasil há coisa parecida, como Clube de Leitores de Ficção Científica, o CLFC, mas nem chega perto a dedicação dos yankes. Filmes como Blade Runner, Matrix, Star Trek e outros, há fóruns e fóruns dedicados a discussão sobre todo tupo de quinquilharia ou conceito que levantado nas narrativas. Como é possível inserir memórias de falsas na mente, como seria possível transferir nossas mentes para um computados ou como viabilizar o teletransporte de matéria pelo vácuo? Essas histórias não trazem nem sequer uma ideia a respeito das possibilidades, porém a explicação, devido a coerência narrativa é CIÊNCIA.

E me desculpem aqueles que acham que Star Wars - ou o bom e velho Guerra nas Estrelas - é ficção científica. SW é fantasia, estilo Senhor dos Anéis. E quando tentou ter um quê de ficção científica, falhou miseravelmente.

Ficção do Real

"Na ficção científica, o futuro é metáfora do presente. A obra de ficção científica, ao projetar futuros, problematiza o presente e lança luz sobre o passado." - Marcos Lobato Martins

Como toda produção cultural humana, a ficção científica carrega em si uma boa dose de influência da realidade que cerca o autor, suas perspectivas de humanidade, suas ideias sobre o mundo e sobre a sociedade. Da mesma forma que o terror muitas vezes se trata de moralidade, a FC(daqui pra frente vai ter que ser sigla porque cansei) expande nossa realidade até um futuro próximo ou longíquo onde a humanidade pode ter prosperado como nunca - no estilo Star Trek - ou gerado o caos - como em "O livro de Eli". Essas obras trazem mais do que a especulação, mas uma luz sobre nossas próprias condições.

Seja questionando os avanços tecnológicos e ajudando a pensar na ética de cada um deles, ou mostrando um caso de amor com eles, o que nos lemos ou vemos na tela nada mais é do que uma reflexão sobre a realidade que vivemos, ou, quem sabe, o nosso passado absurdo. Quando George Orwell escreveu "1984" no ano de 1949, tinha em mente a própria Grã-Bretanha e a União Soviética de seu tempo, usando o Grande Irmão como uma alegoria da tendências dos governos cada vez mais invadirem a privacidade dos seus cidadãos. De fato, Orwell não estava paranoico.

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O "progresso decadente" visto em Blade Runner, onde observamos um cenário que se assemelha ao nosso, mas poluído com sinais de desgaste e super povoado, demonstrando o inchaço das grandes cidades nada mais é que o sentimento e as impressões de mundo do início da década de 1980. Foi um momento onde o Pós-Moderno, como negação do que havia sido a Modernidade, ganhou força como representação cultural no imaginário popular. Na FC, esse tipo de cenário ganhou o nome de Cyber Punk e se colocava em oposição ao gênero da chamada Era de Ouro, onde as obras demonstravam fé no avanço científico da humanidade - a ciência nos tornaria melhores. Depois de quase 3 décadas de prosperidade e desenvolvimento, a chamada década perdida se viu questionando a história, as pessoas estavam decepcionadas com guerras sem sentido, a crise do petróleo e recessão econômica que caracterizou a época. A FC não só refletiu sobre as possibilidades desse mundo que crescia desenfreado e se perdia em meio ao consumismo possibilitado pelos avanços industriais, como apontou para os dilemas éticos futuros como o esgotamento dos recursos naturais e o desenvolvimento de vida artificial.

Mas também, tem a ver com o futuro...

O jornalista Marcos Lobato Martins destaca em uma matéria sobre o gênero que FC tem também outra função de permitir que as pessoas se adaptem ao possível futuro da humanidade.Ela teria parte no imaginário social como ferramenta de adequação das pessoas ao progressos do mundo, se adaptando a novas ideias e tecnologias. Segundo Martins:

"a ficção científica também exerce impacto preparatório sobre o público e a comunidade científica, no sentido de ampliar o repertório de reações à mudança. Ela faz os leitores e espectadores lidarem com possibilidades que normalmente não seriam consideradas, habilitando-nos a perceber o potencial das novas tecnologias e a encontrar os ambientes em que poderemos conviver com os novos conhecimentos e invenções."

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Provavelmente essa foi uma das grandes contribuições para o imaginário social da série Jornada nas Estrelas. A capacidade de projetar na mente das pessoas um futuro próspero com aparatos tecnológicos que facilitariam nosso dia-a-dia criou uma geração de "nerds" que se tornaram engenheiros, físicos, químicos e outras modalidades científicas, migrando da sala de TV para universidades e desenvolvendo muitas das tecnologias que utilizamos hoje.

A FC também popularizou a máquina que está praticamente em todas as casas nos dias de hoje, além de mochilas e em alguns bolsos também: o computador. Obviamente que ainda não chegamos ao ponto de termos um computador como o batcomputador, onde uma pergunta nos leva a uma resposta impressa e precisa, mas temos o Google, onde uma pergunta nos leva a 2.343.456 resultados imprecisos, onde a página que contém o link que você procura é a de número 20. Ainda não teletransportamos nossos corpos, mas cientistas conseguiram transportar íons e átomos em pequenas quantidades de um lugar para outro. Nem temos uma simulação de realidade como a de Matrix, mas temos realidades virtuais de mundos inteiros como World of Warcraft.

Seja projetando o presente ou nos preparando para o futuro, ficção científica nos fornece um palco para a análises sociológicas e filosóficas a respeito do imaginário popular, tanto quanto as angústias do presente como as nossas expectativas de futuro.

Para conhecer um pouco mais sobre ficção científica, suas origens e estilos, além as suas possibilidades, recomento a leitura do artigo de Martins referenciado aqui.


Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo..
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