Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo.

Manifestações, Ações Coletivas e Justiceiros

Nesse artigo deixo de lado as análises divertidas sobre cultura para discutir coisas sérias: as manifestações no Brasil, na Ucrânia e na Venezuela, além dos chamados de Justiceiros que ganharam destaque devido ao comentário de uma jornalista recentemente. O que proponho é tentar entender o que essas coisas tem de comum e como supostamente as pessoas são afetadas por ela.


Pelo visto as manifestações que tiveram seu auge em junho do ano passado vieram para ficar. Desde o ano passado, quando os animos foram acendidos para os que estavam "dormindo", as manifestações de rua no Brasil ganharam uma visibilidade que não era sentido há muitos anos. Não entrando nos méritos das reivindicações ou questões relativas a legitimidade do uso da violência, é fato que essas erupções parecem acompanhar um processo que se espalhou pelo mundo. Nos anos seguidos as manifestações em Wall Street, na Espanha e a "Primavera Árabe", o mundo parece ter entrado em ebulição. Na vizinha Venezuela e na distante Ucrânia, grupos invadem a rua e chegam "as vias de fato", sejam contendas manifestantes e policiais, sejam civis de diferentes lados. No Brasil a violência também tem se dissiminado e os Black Blocs, noticiados como "poucos vândalos" na mídia, tem se demonstrado um tanto organizados no seu intuito. De qualquer forma, todas essas manifestações, sejam pacíficas ou não, são uma forma de ação coletiva. Da mesma forma que os justiceiros que tem prendido jovens negros a postes. Mas existe algum ponto de dissernimentos entre essas ações? De onde surgem e pra onde nos levam? Hoje, vamos tentar pensar de forma sociológica sobre o assunto.

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Ações Coletivas, Descontentamento e Privação

De maneira simples podemos definir todo tipo de manifestação, revolta ou turbas de linchamento - os justiceiros do Leblon - como formas não usuais de ação coletiva. Ações coletivas seriam a organização de pessoas que agem a fim de gerar ou resisitir a mudanças - sociais, políticas, econômicas - de diferentes formas. Ações coletivas são consideradas usiais aquelas,geralmente, não-violentas e que seguem padrões de comportamento estabelecidos por estruturas sociais, usualmente burocráticas, como por exemplo as leis de um país. Ou seja, são ações que seguem um padrão determinado socialmente e reconhecido de forma legítima, o que se espera de um comportamento considerado organizado: sincatos, partidos, lobby etc. Em casos onde há o abandono ou a subversão dos padrões institucionais, a ação coletiva é considerada não-usual. Ou seja, um grupo de pessoas se junta, de maneira organizada ou não, e promove uma ação coletiva que não segue os padrões esperados de comportamento como forma de resistência mudanças ou manifestação de descordâncias com a ordem vigente.

Em ambos os casos temos uma relação entre descontentamento, realidade e capacidade de mobilização coletiva. Vamos entender melhor isso. Tais comportamentos têm origens em descontentamentos, que podemos apontar como sendo problemas relativos as privações que determinado grupo está sofrendo. A privação é uma situação real onde um indivíduo ou grupo não têm acesso a determinado bem, material ou imaterial. A privação absoluta se refere a uma situação onde o acesso aos bens não existe, nem nunca existiu. Já a privação relativa coloca a rpivação sobre uma perspectiva comparativa entre os que espera receber e o que realmente se recebe. Portanto, são percepções subjetivas da realidade. Estão ligadas às recompensas sociais, que seriam bens amplamente valorizados socialmente como dinheiro, educação, segurança, saúde etc. A sensação de privação relativa ocorre quando expectativas crescentes são acompanhadas por declínio das recompensas sociais recebidas. Soma negativa = insatisfação.

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Em casos em que há uma determinada parcela da população ou um grupo que tem passado por situação de privação relativa, temos um certo nível de descontentamento desse grupo. Caso esse grupo consiga, por alguma razão, mobiliar esforços para agir em conjunto, temos uma ação coletiva. O ingredientes que podem gerá-la, principalmente a não-usual, são muitos. Geralmente boatos, esperanças infundadas ou pânico generalizado pode desencadear uma ação coletiva não-usual em função da relação entre a privação relativa e a incerteza de futuro.

Para entendermos melhor irei ilustrar com um caso conhecido nos Estados Unidos que ilustra o post.

Ação Coletiva Não-Usual: o caso da turba de linchamento de Claude Neal

Em 27 de outubro de 1934, em Greenwood na Flórida, Claude Neal, de 23 anos, foi linchado devido a uma acusação de estupro e assassinato de Lola Cannidy, de 19 anos. Lola, branca e filha do patrão. Neal, negro, supostamene confessou o crime sobre coação. Depois de preso, Neal foi removido da Cidade para Brewton, no Alabama, para sua própria segurança. Não adiantou muito. Alguns moradores, 15 para ser mais preciso, descobriram para onde o suspeito havia sido removido e viajaram 190 Km ao seu encontro.

Munidos de armas e e dinamite ameaçaram explodir a delegacia da cidade caso Neal não fosse entregue. O único guarda de plantão, provavelmente aterrorizado, entregou o preso a turba feroz. Levado de volta a Flórida, onde uma multidão - entre 200 e 300 pessoas - se reunira de frente da casa de seu ex-patrão e, exaltada, gritava "Queremos o Crioulo". De acordo com os relatos, os sequestradores temeram que as pessoas se machucassem e levaram Neal para uma mata. O que segue é um relato do investigador responsável poara entrevistar aqueles homens:

"(...) Após levar o crioulo para a mata, a cerca de 6 km de Greendwood, cortaram seu pênis. Ele foi forçado a comê-lo. (...) De vez em quando durante a tortura, uma corda era amarrada no pescoço de Neal e ele era içado de um galho e deixado lá até quase sufocar, quando era abaixado, e a tortura tinha início outra vez" (Sociologia: sua bussóla para um novo mundo, pg. 561)

Depois de finalmente morrer devidos as torturas, o corpo de Neal foi amarrado num carro e arrastado de volta a casa de Cannidy. Lá, a turba "linchou" o cadáver a murros, pontapés, facadas e até tiros. Até crianças foram incentivadas a agredir o cadáver. Ainda com ânimos exaltados, um grupo de pessoas se dirigiu a uma pequena vila onde residiam negros e ateou fogo aos casébres.

O corpo de Neal ainda foi levado até o palácio da justiça da cidade, dependedurado numa árvore e fotografado. Posteriormente, a multidão que chegou apenas no dia seguinte para ver o corpo que já havia sido removido, pôde comprar uma cópia da foto. É a foto que ilustra o post, com o corpo de Neal devidamente cortado em função do impacto que poderia causar no leitor.

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Esperança, Medo e Raiva

Basicamente, são a esperança, o medo ou a raiva os sentimentos gerados por situações de incerteza. Nos casos de privação relativa as pessoas podem ser "invadidas" por esses sentimentos, que geram disposições a participar de ações coletivas de diferentes naturezas. Na narrativa sobre Neal, em paralelo com o caso dos justiceiros do Leblon, há uma situação de incerteza em relação à segurança e uma relação distoante entre o que a população acredita ser justiça e o que é de fato aplicado. Em ambos os casos, subverteu-se a ordem e os grupos tomaram para si o direito de "fazer justiça". Porém, podemos avaliar ao mesmo tempo outro parelelo entre os dois casos: o alvo da justiça era um indivíduo negro.

Não levantemos aqui o fato de ter sido cometido o crime ou não por parte dos dois. Apenas levemos em consideração que, quando se subverte a ordem, a raiva muitas vezes latente entre grupos ou inviduos pode se tornar manifesta. A discriminação racial não é novidade, porém as pessoas muitas vezes as mantém aprisionadas em função dos possíveis contrangimentos sociais que manifestá-las pode trazer. Muitas vees podemos observar que a raiva ou indiganação latente com alguma situaão pode se tonar manifesta devido a boato ou incitação via algum tipo de liderança ou personalidade que tenham algum reconhecimento social para aquele grupo.

É também o que temos observado nas últimas semanas na Venezuela.: parte da população, de caráter conservador, insatisfeita com o governo de Maduro, invadiu as ruas numa tentativa de derrubar o governo devido aos incentivos do líde da oposição, Henrique Capriles. Nesses casos, as moderações provenientes da coação social ficam de lado e as insatisfações vem à tona, de maneira clara.

As manifestações no Brasil tem sido exemplo de ação coletiva, tanto usual como não-usual. O que tem nos preocupado ultimamente é a explicitação de sentimentos antes latentes que vem acompanhado tanto os manifestantes quanto aqueles que não aderiram as marchas, mas as apoiam ou as desprezam. De fato o que podemos obervar é que são ações coletivas incentivadas por algum tipo de privação relativa e indignação coletiva, canalizada de diferentes maneiras por diferentes grupos. Enquantos uns escolhem permanecer no âmbito das ações legítimas, outros preferem subverter a ordem. De qualquer, as animosidades foram despertadas em ambos os lados e as manifestações devem invadir a Copa. Não nos cabe julgar as posições, mas entender que, por mais que haja uma relação de desiquilíbrio de forças do ponto de vista dos embates quando chegam "as vias de fato", ao adotar um tipo de ação coletiva não usual, damos margem para que o lado ao qual nos opomos também o faça.


Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo..
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