Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo.

Cultura Geek e Capitalismo ou O Por Que Ser Nerd Está na Moda

A "Cultura Nerd" explodiu nos últimos anos. Coincidência ou não, essa cultura antes de nicho, se tornou padrão no mercado, com incentivo ao consumo de bens não duráveis e a fidelização a certas marcas produtoras de tecnologia numa época em que o sistema começava a enfrentar certas crises de produção e consumo.


Anos atrás ser chamado de Nerd era uma espécie de ofensa. Obviamente, como aponta Norbert Elias no livro “Os Estabelecidos e os Outsiders”, o termo assume conotação pejorativa para o grupo que tenta ofender o outro: como alguém “chama” o outro de “preto” ou “gringo” e coisas do tipo. Com o tempo, as pessoas que eram chamadas de Nerds passaram a adotar o que antes era xingamento como uma referência ao grupo: o termo passou a referenciar pessoas com gostos em comum, geralmente associados a uma cultura específica, sendo que as de maior sucesso são a Fantasia e a Ficção Científica. Com o tempo os Nerds passaram a se estabelecer efetivamente como um grupo de fato, porém ainda estimulando uma visão negativa das pessoas de fora do grupo. O termo Geek – com significado etimológico que faz referência a “bobo” ou “anormal” – passou a ser uma espécie de sinônimo, principalmente quando a pessoa se demonstrava viciada em certas culturas de nicho, como Star Wars, Tolkien, Star Treck e coisas do tipo.

Porém, nos últimos anos surgiu uma nova imagem de Nerd ou Geek, estimulada pelos meios de comunicação, onde essa “tribo” se tornou legal. Estimulada principalmente pelo aumento do acesso à tecnologia nos últimos anos – e alguns outros fatores – a cultura média passou a aceitar mais abertamente esse traço cultural. Se antes eram poucos os leitores de “O Senhor dos Anéis”, hoje é estranho alguém falar que não conhece o filme. Os vídeo games se tornaram praticamente eletrodomésticos, se tornando item quase que obrigatório numa residência. Figuras como Bill Gates e Steve Jobs, considerados esquisitos anteriormente, se tornaram a personificação do sucesso. Ser Geek agora é legal! Os que se sentiam mal com o termo chegaram a cunhar até o termo Geek Chic. Mas de fato, a “cultura nerd” está sendo mais aceita, ou é uma questão de moda? Marx talvez tenha um palpite.

Cultura Voltada Para o Mercado

yoda.jpg "Um pedaço da cultura pop, eu sou"

Adorno e Horkheimer cunharam já na década de 1940 o termo “Indústria Cultural”: a produção em massa de bens culturais produzida pelo capitalismo como criação de uma padronização da cultura. Seria uma outra face da alienação marxista relativa a subjetividade. A “Indústria Cultural” produz homogeneidade da população quanto a gostos e, inclusive os torna efêmeros. Os autores alemães se preocuparam principalmente com as artes consideradas Alta Cultural como música clássica, literatura e artes plásticas, sendo produzidas como mercadoria em uma fábrica, espalhando as obras entre indivíduos sem as necessárias atribuições cognitivas para apreciá-las. Apesar da crítica – obviamente bem fundada – quanto ao elitismo dos autores, Adorno e Horkheimer acertaram em cheio ao falar da massificação da produção e consumo desses bens, frente ao desejo genuíno de liberdade e criatividade dos homens: a indústria cultural massifica as pessoas de forma homogênea.

E o que isso tem a ver com a “Cultura Nerd”? Assim como o consumo de bens considerados de alta cultura têm uma difusão associada a nichos de mercado – ou seja, não era uma cultura popular, que capaz de acessar os referências de qualquer pessoas – os antigamente considerados “Nerds” eram esses indivíduos que pareciam ter referências próprios. Se não se davam bem em termos sociais, era simplesmente porque compartilhavam de uma cultura muito específica, e compartilhavam pouco ou quase nada com a cultura popular de suas épocas. Ou, levavam essa cultura muito a sério, passando a outros patamares de apreciação dessas manifestações.

Para citar um exemplo, no Brasil histórias em quadrinhos e desenhos animados sempre foram considerados como “coisas de criança”. As pessoas que se “apaixonavam” por essas manifestações e mantinham seu gosto até a maturidade, eram vistas com certo estranhamento. Esse interesse específico visto como algo fora do padrão esbarra na dificuldade de ter demandas atendidas pelo mercado. Para a grande maioria das pessoas era estranho um adulto de 20 e poucos anos buscar todo mês a edição de Homem-Aranha na banca da esquina, ou assistir entusiasmado a um novo episódio de “Cavaleiros do Zodíaco”. Esse tipo de situação leva as pessoas que compartilhavam esses interesses a buscar a satisfação destas demandas em “lugares não-comuns”: buscavam no exterior, copiavam fitas cassetes uns dos outros e, com o advento da internet, baixavam vídeos de desenhos animados que não passavam aqui e faziam suas próprias legendas. Ela depende da moda como uma renovação constante da produção de novos bens.

O “problema” que pessoas com interesses muito específicos e com pouco atendimento do mercado sofrem é de se tornarem fiéis as mercadorias relacionadas ao seu interesse: pela dificuldade de encontrá-las, elas se tornam compradores contumazes das mercadorias ligadas ao seu interesse específico. E como tudo no Capitalismo pode virar investimento, depois de muitos anos, isso chamou a atenção de investidores...

A Crise do Capitalismo e Toyotismo

Entre as situações do mundo irão corroborar a ascensão “nérdica”, temos de entender primeiramente o que diferencia esse tipo de cultura da “alta cultura”, ou consumo de artes consideradas nobres, que como destaquei anteriormente, também são de nicho. Até meados da década de 1970 o modelo Fordista de produção – baseado nas linhas de produção, especialização e racionalização da produção – eram o suficiente para atender as demandas de mercado. A produção das grandes fábricas operava na perspectiva de produzir produtos de qualidade, duráveis e manter enormes estoques de reposição: ganhar a sua clientela era uma questão e garantia de qualidade. O problema vivenciado nessa época esteve ligado ao início de uma crise econômica e grande estoque de produtos que a indústria se dedicou. Devido as dificuldades orçamentarias, as pessoas deixavam de comprar. Como a inovação era escassa – ou seja, havia pouca criação de novas demandas de mercado – e os produtos duradouros, houve estagnação e, com o tempo, crise do modelo. Mas o Japão parecia ter a solução na fábrica da Toyota...

O Japão do Pós-Guerra se viu em uma situação precária. A economia japonesa estava em maus bocados e a população completamente desmotivada. Os japoneses resolveram a sua situação a partir de inovações tanto no mercado de consumo quanto no chão da fábrica: incentivar o consumo de bens supérfluos e aumentar a velocidade de produção. Para fazer isso os japoneses optaram por reduzir a vida útil dos objetos fabricados, reduzindo o valor de uso das mercadorias, surgindo a tão famosa defasagem programada dos produtos. Assim que algo de novo chega às prateleiras, sua obsolescência já está nos planos da empresa.

Além disso, o incentivo ao consumo ocorre também criando-se modelos diferentes numa mesma linha, como fabricar carros do mesmo modelo em variadas cores e opcionais. A tendência de estocar produtos para reposição perde o sentido, pois a inovação cria a necessidade de novos produtos. Assim se economiza com os estoques e a produção se torna algo mais voltado para a demanda direta. Entre outros aspectos mais técnicos do Toyotismo referentes ao modo de manufaturar o itens, essa inovação japonesa chama atenção das empresas ocidentais, porém o modelo demora alguns anos para virar moda. Uma das grandes empresas a se inserir nessa modalidade foi a Apple, principalmente ao criar um estilo relativo a marca, criando os “cativos de inovação”, os consumidores fiéis que aguardam ansiosos a próxima novidade da maçãzinha, mesmo que seja apenas uma redução de espessura.

Essa produção totalmente voltada dirigida à mercadorias com defasagem programada, porém capaz de prender os seus usuários necessita de um estímulo ao consumo em larga escala e fidelizado. O que nós faz lembrar de uma certa cultura ávida por inovação num mercado que não atende suas demandas. Ao se perceber que a “cultura nerd” era de fato consumista, se enxergou ao longo dos anos uma oportunidade de ouro. Com a redução do custo de produção de tecnologias da informação e as vantagens decorrentes das novas interfaces visuais – mais intuitivas para os usuários -, o consumo de produtos de informática tinha potencial para se tornar mais democrático. Se antes apenas entusiastas de tecnologia e trabalhadores que lidavam diretamente com serviços computação poderiam desvendar a linguagem oculta da programação, agora todos poderiam apenas “apontar e clicar”. Mas como incentivar essa nova categoria de consumo, com potencial de ser mais efêmera do que as outras em função das inovações constantes? Minha sugestão: transformar o Nerd em Cool.

X-Men Anime

Sou Nerd!

Depois de anos bombardeando a cultura pop com a imagem do Nerd associada a falta de traquejo social, agora era hora de transformá-los em algo legal! E não era só a informática que iria se tornar alvo desse incentivo, mas o consumo desenfreado: tornar a cultura Nerd em cultura de massa era a possibilidade de ganhar milhares de consumidores cativos da noite pro dia, mesmo que agora isso não representasse mais um nicho de mercado, a vontade de consumir produtos específicos era o pote de ouro destes pequenos duendes jogadores de RPG. E aos poucos Tolkien virou uma grade produção Hollywoodiana, Star Wars ressurgiu, a internet se tornou lugar comum e histórias em quadrinhos passaram a ser produzidas aos milhões – com diversas linhas diferenciadas de um mesmo “modelo” – X-men filme, X-men livro, X-men no futuro, X-men no passado, X-men mangá, X-men zumbi, X-men e filosofia...

Pronto, o Nerd estava na boca do povo. Passou a não ser associado com algo pejorativo, mas como uma cultura específica, tão legal quanto a de esportistas. O termo Geek, que fazia referência a qualquer pessoa que tivesse interesse anormal por qualquer assunto, passou a denominar os “Caras Legais Amantes de Tecnologia”, provavelmente pela difusão mais assimilada de forma pejorativa do termo Nerd. No início dessa explosão os “Nerds de Raiz” – termo cunhado por um amigo – acharam tudo ótimo. De um dia pro outro, as pessoas estavam indo ver Homem-Aranha nos cinemas e pedindo emprestado quadrinhos aos colegas anteriormente excluídos da escola (true story). Não era mais difícil achar conteúdo específico dos gostos mais bizarros e seu chaveiro do Pokemon não causava mais estranhamento entre seus colegas de serviço.

No entanto, com o tempo, percebeu-se que a história não era bem assim. Como toda cultura incentivada pela indústria, a efemeridade e superficialidade desse novo traço cultural fez-se perceber para os verdadeiros entusiastas. Como apontaram Adorno e Horkheimer, citados no início, a massificação e homogeneização dos consumidores, provocou o estranhamento daqueles que eram “nerds antes de todo mundo”.

Eu sei que parece coisa de Hipster, do tipo “eu gostava antes de fazer sucesso”, mas esse grupo não deixou de apreciar seus interesses, apenas ficaram impressionados com a proliferação de tudo que amavam, de maneira a provocar o esgotamento dessas coisas até a próxima novidade. Talvez entre os sintomas dessa exploração cultural o que mais chame atenção e consiga de fato separar os “nerds de raiz” de “nerd porque é a moda” é o apreço pelo seriado “The Big Bang Theory”.

the-big-bang-theory.jpg "Penny no País das Maravilhas Nerds"

“The Big Bang Theory” não é um seriado sobre Nerds. É um seriado sobre como pessoas normais – Penny – se sentem perto de Nerds, essas pessoas esquisitas. Penny é como a personagem de “Alice no País das Maravilhas”: ela está fora de seu referencial, não entende nada o que acontece entre seus estranhos vizinhos. O seriado se apoia fortemente em “é engraçado porque ele é nerd”. As referências a cultura de massa aparecem no seriado jogadas sem contexto, apenas para provocar estranhamento da Penny. Enquanto alguns acham que é ela o alvo da piada, de fato são os quatro rapazes. E esses quatro rapazes não tem muito que ver com nerds em si, são na verdade quatro rapazes com sérios problemas psicológicos que precisam de alguma forma de tratamento. Porém TBBT conseguiu fazer com que as pessoas associassem melhor esse mundo e entendessem melhor as referências, mas sem de fato respeitar esses gostos e interesses. Legal é a garota loira e burra que quer subir na vida sendo atriz. Os quatro professores universitários que de fato representam algo admirável em termos de esforço são “escada”, o Dedé do seriado. Por acaso alguém sabe o quanto é difícil se tornar alguém relevante no meio acadêmico? A Penny provavelmente não.

Ih Cara Que Chato...Eu Gosto de Coisas Nerds!

Sim, sim, não estou discutindo gosto. Só gostaria de apontar a conveniência desse gosto atual, assim como o de Ioiô e “É o Tchan” da década de 1990. E nesse caso há uma capacidade interessante de explicar essa explosão dos últimos anos, que tem se demonstrado duradoura em função do nosso modelo atual de consumo. De fato, não há como negar que a "Cultura Nerd" se assenta de maneira sensacional ao capitalismo e tem todas as suas conformidades. Porém, acredito que os “nerds de raiz” continuam se sentindo deslocados nesse mundo que alienou o que mais gostavam. Mas eles continuam se reunindo para aquelas partidas de D&D e para discutir sobre o melhor episódio de Star Trek. Ficaram até mais satisfeitos de não terem que explicar o que é aquele símbolo na camiseta deles, ou de não ser necessários utilizar do mercado negro para adquirir mercadorias ligadas aos seus interesses. Nerds Cool temos aos montes atualmente, mas caras como o Sr. Williams, que deu ao nome da própria filha de Zelda....ah, desses há poucos.

marx_magic.jpg “Nerds do mundo, uni-vos”!


Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo..
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