Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo.

No Bar Com Weber, Bauer e Parker: os problemas da ação racional

Max Weber conclui: Jack Bauer e Peter Parker tem algo em comum. Nesse artigo discuto os tipos ideias de ação racional weberiana, ética e dois heróis que não parecem ter muita coisa em comum. E tudo isso sentados num bar, afinal, tem cara de conversa desse tipo de localidade! E no final, uma participação especial!


O "Espetacular Homem-Aranha 2" está nos cinemas brasileiros há um mês. O personagem foi meu favorito nos anos de infância e adolescência e foi com ansiedade que esperei os primeiros filmes. Após reiniciar a série com o primeiro "Espetacular" eu, fundamentalista de quadrinhos, não aprovo 100% os retoques do diretor Marc Webb, porém o traço da ação pautada na responsabilidade, que é característico do personagem contínua, por lá. Coincidência ou não, no mesmo mês do retorno do cabeça-de-teia aos cinemas tivemos o anúncio do retorno de um outro herói preocupado com as responsabilidades que carrega, o senhor Jack Bauer da série "24 Horas". Apesar de não terem nada em comum a primeiro momento, Peter Parker e Jack Bauer servem como excelentes modelos da teoria Weberiana de ação racional, são tipos ideais. Portanto, vamos reunir Parker, Bauer e Weber num bar e conversar sobre isso? Por que num bar? E há lugar melhor?

amazing-spider-man-2-jamie-foxx-andrew-garfield-hi-res-600x400.jpg E com calvície vem a reponsabilidade de assumí-la!

Weber Entra no Bar: Ação Racional

Weber, pensador alemão considerado um dos fundadores da sociologia, pensou as interações entre indivíduos a partir, principalmente, de dois conceitos: a ação e a ação social. Ação seria toda atitude humana com algum significado subjetivo , ou seja, uma ação que tem significado para o próprio indivíduo, sem interação com outros. Quando a ação é pensada a partir da ação de outros indivíduos, a ação é uma ação social. Pois bem, imaginemos o seguinte: estava eu sentado numa mesa de bar e eis que entra Max Weber pela porta. A ação de Weber de entrar caminhando pela porta do bar, essa é uma ação pura e simples, com significado subjetivo: ele andou, colocou um pé na frente do outro e passou pela porta. Depois de entrar, ele escolhe uma mesa, senta-se e faz sinal para o garçom pedindo uma caneca de chope (afinal de contas ele é alemão). A segunda atitude dele é uma ação social, pois foi uma ação voltada para interação com outro indivíduo, nesse caso o garçom, visando uma atitude por parte dele também. Para Weber o objeto central da sociologia é a ação social. A partir dela, da definição de costumes, tradições e observação da vida em sociedade em geral podemos criar teorias sobre essas sociedades.

Uma exigência da ação, para Weber, é que elas são racionais. Racionais no sentido que conectam a ação com uma consequência. Compreender uma ação, portanto, é compreender sua conexão de sentido. Quanto maior essa ligação entre causa e consequência, mais racional é a ação. As ações humanas são tanto mais racionalizadas quanto mais independentes de costumes, valores e tradições socialmente estabelecidos. Portanto, voltando ao exemplo do café, tomar café faz parte de uma tradição, de algo que aprendi com meus familiares e que, de fato, não coloco muito raciocínio no ato. Acordo e vou direto pra cozinha. Pense em atitudes menos complexas, como escovar os dentes ao acordar ou depois do almoço: nós não colocamos muito raciocínio nisso, simplesmente fazemos. Não há cálculos de efeitos, simplesmente fazemos.

Pois bem, dessa forma, Weber utiliza um método que batizou de tipos ideais. Os tipos ideais seriam formas puras, um exercício de pensamento para identificarmos certas categorias para procedermos uma análise sociológica. Na realidade, não existem tipos ideais de fato, mas traços muito próximos, tendências de ser mais uma coisa que outra. Weber então propõe quatro tipos ideais de ação: ação racional com relação a fins, ação racional com relação a valores, ação tradicional e ação afetiva. Como o que nos interssa aqui é falar de ação racional, iremos focar apenas nas duas primeiras.

Uma teoria da ação é uma teoria ética

Vamos complexificar um pouco mais antes dos senhores Parker e Bauer chegarem no bar. Uma teoria da ação é usalmente uma teoria ética. Por quê? Ora, porque a ética trata-se de uma teoria sobre a ação humana. A ética é uma proposta de "saber-viver", ela trata de escolhas: quais seriam as escolhas adequadas para determinados tipos de situações em que me encontro. E da mesma forma que postula Weber, a ética trata apenas da ação pensada. Não existe uma ética sobre como andar ou escovar os dentes. Não existe ética para gatos, seres que depende interamente da natureza para tomar as atitudes que tomam. A ética trata de racionalidade, de pensar na execução.

Portanto a ação racional com relação a fins seria uma ética consequencialista e a ação racional com relação a valores seria uma ética de valores. E finalmente entraram o senhores Parker e Bauer!

24-tv-show.jpg"Não seria muito ético da sua parte pensar em piadinhas sobre o nome da série"

Peter Parker: Com Grandes Poderes Vêm...

Como disse anteriormente, quando mais novo era um grande fã do Homem-Aranha! Achava ele um exemplo de atitudes humanas corretas. Fui descobrir depois de alguns anos que o Homem-Aranha era para mim um modelo ético: como o Homem-Aranha reagiria a essa situação? Peter aprendeu duramente a lição de que com "Grandes Poderes Vêm Grandes Responsabilidades", que na versão moderna me parece que o Martin Sheen esqueceu a fala. Na verdade, essa frase atribuída a Stan Lee, o criador original do personagem, pode ser encontrada em Aristoteles:

"Tanto a virtude como o vício estão em nosso poder. Com efeito, sempre que está em nosso poder o fazer, também o está o não fazer, e sempre que está em nosso poder o não, também o está o sim; de modo que, se está em nosso poder o realizar quando é belo, também o estará quando é vergonhoso, e, se está em nosso poder o não realizar quando é belo, também o estará, do mesmo modo, não realizar quando é vergonhoso." (Ética para Nicômaco)

Okay, então entedemos que Peter é um personagem que acredita que suas atitudes devem sempre se pautar nas suas possibilidades de ação. Portanto, temos uma ação pensada. Na maioria das vezes, na história do personagem, essas são ações sociais: o que ele pode fazer para ajudar os outros. E como ele apredeu essa lição em função da morte do seu tio, a vida se tornou um valer em si para ele e o que media essa relação entre as ações e suas consequência. Em última instância, ele age para preservar a vida.

Em nenhuma das suas encarnações nas difentes mídias, Homem-Aranha opta por matar ou deixar alguém morrer. Inclusive, muitas das suas histórias giram em torno dessa relação e, por isso, (SPOILER ALERT) a morte de Gwen Stacy tem um impacto tão forte para o personagem.

Então, quando o Sr. Parker entra no bar, Weber olha para ele e pensa: aí vai um tipo ideal. É uma "ação racional com relação a valores" ambulante. Ele se senta ao lado do filósofo, pede um copo de leite e fica sozinho pensando nas suas ações. E entra Jack Bauer.

Jack Bauer: torturar é viver

Parker torce o nariz quando Jack entre no recinto. Ele conhece a série, mas acha absurdas as atitudes do agente secreto. Jack tortura e mata para conseguir seus objetivos. Weber dá uma golada na caneca e pensa: aí está uma "ação racional com relação a fins" ambulente.

Para Homem-Aranha e para mim, durante muito tempo, o protagonista de "24 Horas" não tem ética alguma. Se ele é capaz de atitudes tão condenáveis quanto as dos terroristas que caça, este é um indivíduo sem escrupúlos. No entanto, Weber me deu umas dicas sobre ética que falei anteriormente: é uma teoria da ação. Portanto, de certo ponto de vista - mais bem elaborado do que o meu adolescente, diga-se de pasagem - Jack Bauer é tão ético em suas atitudes quanto Peter Parker, afinal ambos fazem o que está ao seu alcance executando uma ação racional, ou seja, há uma conexão lógica entre as atitudes de ambos e uma consequência visada.

O que difere os dois é que, enquanto a vida é um valor em si mesmo para o aracnídeo, independente de quem seja - inocente ou vilão -, para o agente secreto a vida tem valor relativo. A vida e a integridade física de um bandido vale menos do que a vida e a integridade de várias pessoas.

O sociólogo dá um sorriso meio de lado e um tapinha no ombro de Peter. Weber está pensando de maneira muito maldosa o seguinte: para Jack Bauer, da mesma forma que para tio Ben, com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Mais do que isso, ele parece levar mais à sério do que o Cabeça de Teia: ele faz de fato tudo que está ao seu alcance e leva em consideração as consequências gerais de suas atitudes. Já o Homem-Aranha se limita até onde há possibilidade de vida. Portanto, sua valorização pela vida vale mais do que seus "Grandes Poderes".

No final da noite

Na minha cabeça os três passam a noite discutindo quais seriam as melhores atitudes a se tomar num número infindável de situações. Weber se diverte, Peter sobe pelas paredes e Jack responde "tortura" toda vez que a pergunta envolve as palavras "terrorista", "bomba" e "população dos EUA". Mas essa lógica consequencialista do agente secreto, vale para toda e qualquer situação? Seria Jack alguém inescrupuloso, digamos, Maquiavélico? E eis que entra Nicolau no Bar...


Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo..
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