Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo.

Os Problemas da Ação Racional II: Maquiavel e a defesa de Jack

Da última vez que estivemos no bar encontramos com Max Weber, Peter Parker e Jack Bauer discutindo a racionalidade de suas atitudes. Nesta continuação, Maquiavel aparece para defender um pouco mais a Ética do protagonista de 24 horas, justificando suas atitudes do ponto de vista político e da coletividade.


No último texto havíamos conversado – junto com Weber, Peter Parker e Jack Bauer – sobre o que definiria uma ação racional, ou seja pensada, e os problemas éticos relativos as referências para essa ação. Entendemos que, para o sociólogo Max Weber haveriam dois tipos de ação racional: orientada a fins e orientada a valores e que, dois heróis da ficção poderiam representa-las, Jack Bauer e Homem-Aranha, respectivamente. Também definimos que a Ética é uma teoria da ação e a moralidade diz respeito de uma ação em si. Aqui vale a pena estendermos um pouco mais a explicação Weberiana. A ação racional orientada a valores está conectada ao que o autor chama de “ética de convicções”, enquanto a ação racional orientada a fins está conectada à “ética da responsabilidade”. Do ponto de vista da moralidade convencional, diríamos que a “ética de convicções” seria superior à “ética da reponsabilidade” porque não tem o mesmo caráter supostamente utilitarista da segunda. Vivemos numa sociedade altamente influenciada pelo Cristianismo onde, “dar a outra face” é uma orientação moral que nada tem de utilitária.

Voltemos as conclusões do texto anterior. Ao fim da discussão entre os dois heróis Weber apontou que tanto Jack quanto Peter atuam de forma racional e ética, porém orientados de maneira diferente. E aí surgiu o problema relativo a Ética do herói de “24 Horas”: se há algo que orienta sua ação, ele não seria orientado também por um valor e, portanto, sua ação racional seria de tipo orientada por valores e não por fins? Seria a “ética de responsabilidade” orientada também por valores últimos?

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Esse problema foi levantado anteriormente por outros pesquisadores a respeito da análise Weberiana. Primeiramente porque a ação orientada a valores tem um “sabor” de irracionalidade. Pensemos novamente no Homem-Aranha: a vida é um valor último para o personagem, o que leva a atitudes que prezam pela vida de qualquer indivíduo, mesmo um vilão. O vilão é uma ameaça, de maneira geral, para a população da cidade de New York. Seria melhor que o Duende Verde não existisse, pois ele sempre está pensando em atos que podem gerar perdas, inclusive de vidas, para os que cruzam o caminho de seus objetivos. Mesmo assim, o Homem-Aranha prefere não desferir nenhum tipo de golpe letal contra o bandido, que reaparece inúmeras vezes ao longo das histórias do personagem. Sua valorização à vida o torna irracional do ponto de vista de um cálculo estratégico puro, que resultaria no fim de uma ameaça constante à população metropolitana. Mais do que isso, do ponto de vista da história pessoal do herói,(SPOILER ALERT) se ele houvesse matado o Duende Verde quando teve a oportunidade, Gwen Stacy não teria morrido. (FIM DOS SPOILERS)

Tendo isso em vista, o segundo problema é relativo a ação racional do agente Bauer. Podemos analisar a ação racional do agente sob dois pontos de vista: (1) Jack atua orientado por um valor que seria a “democracia norte-americana”, e, portanto, suas ações são justificáveis através desse ponto de vista; (2) Jack é um Utilitarista, e atua de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar para o maior número de pessoas.

Lembra que da última vez que vimos nosso trio conversando no bar um tal Nicolau apareceu por lá?

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Nicolau Maquiavel: um pensador Ético

Peter Parker já estava irritado com a discussão sobre a moralidade do agente Jack Bauer. Weber, com muita paciência, pedia para o super-herói considerar a atitude de Bauer do seguinte ponto de vista, apresentado em seu texto “A Política Como Vocação”: um homem consciente da responsabilidade pelas consequências dos seus atos, estando em uma posição onde suas atitudes geram resultados que interferem na vida de outros, deve calcular seus atos a fim de considerar as possibilidades. Desse ponto de vista, rigidez moral não é capaz de gerar resultados positivos pois não considera as consequências da ação de “bater o pé”.

Quando Nicolau apareceu pela porta do bar e se dirigiu para a mesa onde estava o nosso trio, o herói aracnídeo já foi logo apontando e dizendo “Tá aí mais um para me dizer que os “fins justificam os meios”.” Weber deu mais um dos seus sorrisos de lado. “Eu o convidei”. Nicolau tira a poeira da roupa, ajeita a cadeira e ergue o braço pedindo uma taça de vinho italiano. E eu maravilhado com a cena. Que encontro! Que emoção! Pois, veja bem, Maquiavel foi um dos caras mais mal entendidos da história, conhecido como sujeito maléfico na cultura popular, tudo porque atribuíram a ele uma frase que de fato não aparece nos seus escritos e de forma completamente deslocada de qualquer contexto. A frase que o senhor Parker citou anteriormente nunca foi escrita por sua pena, porém é uma possível conclusão de seu texto. Mas será?

Na verdade, Maquiavel poderia ter sido uma figura que inspiraria o herói Jack. Produto de seu tempo, Maquiavel escreveu sua obra mais famosa, “O Príncipe”, durante um período de turbulência. A sua região de origem, Florença, experimentou certa estabilidade durante o domínio de Lourenço, o Magnífico, até 1494. À época, eram cinco grandes Estados que dominavam o cenário político italiano: Nápoles, Estados Papais, Florença, Milão e Veneza. No final do século XV a região passou por turbulências devido a invasões provenientes da França e da Espanha, resultando em reconfigurações das relações de poder na região. O problema sobre o qual se debruça é a estabilidade de um Estado em função dos ciclos de poder. Maquiavel parte da compreensão de que o poder de dominação, representado pelos Estados e seus governos, é contra a ordem natural e eterna, é historicamente embasado e é uma criação humana. A instabilidade das relações humanas, seres com desejos e vontades conflitantes deve ser considerada na hora de fazer política. Seu objetivo com o livro era dar uma orientação relativa a manutenção do poder com vistas a estabilidade da sociedade: quando haviam disputas de poder a incerteza era muito grande, gerando um cenário conflituoso para todos. O problema sobre o qual se debruça é a estabilidade de um Estado em função dos ciclos de poder. Maquiavel parte da compreensão de que o poder de dominação, representado pelos Estados e seus governos, é contra a ordem natural e eterna, é historicamente embasado e é uma criação humana. A instabilidade das relações humanas deve ser considerada na hora de fazer política. Para o filósofo, a moralidade convencional e cristã pode ser prejudicial a manutenção do poder, e portanto, ao "fazer política". Certos vícios desprezados pela moral podem muito bem ser virtudes do ponto de vista político - lembrando aqui que para ele a atividade essencial da política é a manutenção do poder e a estabilidade. A sabedoria para agir de acordo com as circunstâncias é uma das qualidades que compõem as qualidades de um bom governante e, sendo assim, agir contra a moralidade convencional pode ser conveniente em vista do objetivo político - "aprender os meios de não ser bom e a fazer uso ou não deles, conforme as necessidades".

Homem-Aranha: irracional e egoísta?

Após Maquiavel explicitar sua teoria, Weber dá outra golada do seu caneco. O italiano foi o primeiro pensador conhecido a pensar na política de forma real. Podemos dizer que ele expõe uma teoria da ação, portanto uma Ética, voltada propriamente dita para a política e não para o dia-a-dia. Dessa forma, Bauer atua de forma ética ao preservar estabilidade do governo para o qual trabalha. Isso não quer dizer que ele não questione suas atitudes, porém elas envolvem uma perspectiva de que o que é melhor para sua consciência não é necessariamente positivo para a sociedade.

Parker se levanta irritado. Achou que estava sendo julgado por suas atitudes e não queria mais dividir mesa com aquelas três figuras. A ideia de que suas ações são irracionais ou de que atua a partir de um ponto de vista egoísta – ou seja, para satisfazer a sua consciência – o deixaram abalado. “Não se preocupe”, diz Weber, “Não só estamos falando de política, como há limites para a ação racional também”. Curioso, Parker se senta novamente e pede mais uma Coca. Bauer o abraça e explica: “O que o alemão está querendo dizer aqui é que uma ação racional do ponto de vista individual, pode levar a resultados irracionais do ponto de vista coletivo”.

Aonde iremos chegar? O que se quer dizer com isso? Talvez que, a política tem uma ética mais apropriada para ela e que ela faz parte de um sistema um pouco diferente do nosso dia-a-dia.


Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo..
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