Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo.

Uma Questão de Transcendência: Parte 1

"Transcendence: A Revolução" levantas questões filosóficas sobre a existência de uma divindade ordenadora do mundo e sobre a consciência ou essência individual. Nessa primeira parte da análise nos dedicamos a primeira questão: Deus é uma criação humana?


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"Transcendence: A Revolução" (subtítulo brasileiro ridículo) é o filme mais recente com o amado ator de Hollywood Johnny Depp lançado nos cinemas brasileiros em Junho passado. Apesar de ter uma premissa interessante a película recebeu péssimas críticas e batendo apenas 19% no site Rotten Tomatoes pela falta de capacidade do roteiro e direção de manter o nível da ideia inicial. O que proponho aqui é explorar duas questões levantadas no início do filme que, tristemente, retornam poucas vezes à narrativa e ganham respostas rasas ao longo do desenvolvimento da história:

1 - Deus é uma criação humana

2 - O que seria a Consciência ou Essência individual?

Nessa primeira parte da análise iremos dedicar a pensar questões relativas a existência de Deus possíveis de serem levantas no filme.

ATENÇÃO PARA SPOILERS!!

1 - "Você quer dizer que Deus é uma criação humana?" "O que não é?"

Uma das primeiras e mais permanentes questões filosóficas, a existência de um deus - qualquer que seja - faz parte daquele grupo de perguntas sem respostas que pululam a mente humana. Mas, veja bem, não se trata aqui de uma divindade cósmica personalizada com identidade própria, mas a ideia de uma força criadora e matriz do universo. O que usualmente fazemos é atribuir uma personalidade - completa com desejos e modos próprios de pensar - que nos permita uma relação pessoal e próxima dessa entidade.

O que Transcendence faz é apontar esse segundo ponto: o Deus personalizado é uma criação humana. O cientista interpretado por Depp flerta com a possibilidade real de criar uma inteligência artificial superior à inteligência humana, que poderia agir como a consciência cósmica ordeira que tanto gostaríamos que houvesse. Obviamente o filme não responde diretamente à pergunta, mas promove uma parábola moderna relativa a um Deus criado e não um Deus criador. O que decepciona é o desperdício de oportunidade com uma mensagem final chinfrim do tipo "A humanidade ainda não está preparada".

Namastê

116630_ori.jpg "Eu já estive em você, Bruce"

Do ponto de vista da parábola, o filme levanta dois pontos interessantes. Primeiramente, a ideia de que a religião - e através de uma extensão meio grosseira, Deus - é uma manifestação da consciência coletiva da sociedade: ele sabe tudo e está em todo lugar.

Ao ter sua consciência transferida para uma máquina e conectar-se à internet, Depp tem acesso a toda e qualquer informação produzida e em produção na história da humanidade. Com o conhecimento sobre tudo e sem nenhum tipo de barreira que o impeça de utilizá-la, ele se torna a manifestação da inteligência de toda a humanidade. Isso lhe permite avançar muito mais em termos de compreensão e, em pouco tempo, de produção. Mais uma vez o filme flerta com questões éticas, mas não investe, sobrevoando baixo as implicações do acesso livre e irrestrito a informação que, inclusive, o personagem usa para aplicar na bolsa de valores. O conhecimento adquirido é usado também para resolver problemas da humanidade: doenças, fome, poluição...tudo resolvido através de nano robôs que podem infestar terra, água e ar. Esses nano robôs, conectados ao computador Depp, monitoram o mundo e fornecem informações para ele.

A segundo ponto está relacionado com um pensamento presente em certas religiões de que Deus - ou essa força enigmática - está presente em todos nós. No filme isso é possível graças aos já citados nano robôs. Utilizados primeiramente para curar algumas pessoas com deficiências - que passam a migrar coletivamente para serem curadas -, uma das partes que achei boba no filme. Esses sujeitos, agora curados, passam a ser conectados a mente de Depp e entre si, produzindo uma consciência coletiva. Esse Deus Criado passa a utilizar algumas pessoas para se manifestar ou para falar em seu nome para outras pessoas, uma espécie de profetas.

De novo mais uma reflexão ética que poderia ter sido explorada e é jogada para escanteio quando agentes do governo e os revolucionários anti avanços tecnológicos - estes inclusive responsáveis pela morte de Depp no início do filme - dão uma resposta rápida e paranoica: Depp estaria montando um exército para si.

O que de fato é interessante seria o questionamento da individualidade e os limites do avanço tecnológico. Estariam as pessoas curadas vivendo uma ditadura inconsciente?

É interessante notar que a figura tradicional e predominante do Deus monoteísta é essa de uma entidade que tem um projeto para nós, mas não se questiona as limitações individuais ou a privação de certas liberdades pois, esse Deus, não é humano, ele é melhor que humano e, portanto, sabe o que é bom para nós.

No entanto, quando se trata de um humano ou de uma criação humana na posição de consciência cósmica, temos paranoia coletiva. Mas no início do filme a natureza de Deus é definida por Depp como uma criação humana, assim como todo o resto. O triste é saber que o filme não traz a tona isso de volta e a frase que seria importante para a compreensão do filme, morre.

Em breve publicarei a parte 2 desta análise para discutirmos sobre consciência individual.


Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo..
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