Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo.

Tropas Estelares: Entre a crítica e a exaltação militar

"Tropas Estelares" (1997) é um filme que satiriza a militarização da sociedade e a exploração da guerra como motor político. No entanto, depois de quase vinte anos, parecem ser poucos que entenderam essa mensagem.


Os filmes "Tropas Estelares" (Starship Troopers, 1997) e "No Limite do Amanhã" (Edge of Tomorrow, 2014) guardam algumas semelhanças na trama principal: em ambos os casos a humanidade está envolvida numa guerra contra seres extra-terrenos que lançaram um ataque sobre o planeta Terra. Nos enredos ambos os protagonistas são membros do exército e a narrativa é conduzida a partir de operações militares. Porém, as diferenças de visão sobre o exército não poderiam ser maiores. Enquanto "Tropas Estelares" apresenta uma crítica via satíra de uma sociedade militarizada, "No Limite do Amanhã" tem um tom de exaltação romântico. No entanto essa diferença é perceptível?

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Uma sátira incompreendida

"Tropas Estelares", baseado em livro homônimo, conta a história de Johnny Rico, um jovem soldado que se alista para o serviço militar em função de uma garota e acaba participando de uma guerra da humanidade contra um raça de alienígenas artrópodes. A sociedade retratada no filme é altamente militarizada, não só do ponto de vista de haver uma valorização dos militares, mas também por um detalhe que pode passar despercebido: a cidadania, um direito universal de nascimento nas sociedades modernas, na sociedade futurista da história é um direito a ser adquirido através do serviço militar. A justificativa é que só aqueles que fazem por merecer devem exercer direitos políticos.

Quando assisti ao filme, em torno de dois anos depois do seu lançamento, não gostei nem um pouco do filme. E na época, eu devia ter uns 13 ou 14 anos, muitos colegas falavam empolgados do filme. Não entendi o que havia chamado atenção e achei o filme um tanto brega. Recentemente, há uma semana atrás, assisti a um review do filme feito por Leon Thomas que me chamou atenção para o que não havia percebido há mais de dez anos atrás: o filme é uma sátira sobre uma sociedade militarizada.

O mais interessante de tudo é que descobri que não só eu não percebi a sátira do filme: parece que um bocado de adolescentes de 13-15 anos que foram responsáveis pelo sucesso de bilheteria do filme também não entendeu. E isso nos leva a pensar o seguinte: o filme, como uma sátira é bem sucedido ou mal sucedido, se ninguém entendeu a piada?

Antes de mais nada, o que seria uma - do ponto de vista técnico - uma sátira? É um gênero de discurso literário que tem como objetivo ridicularizar, zombar, de alguma pessoa, organização ou aspecto cultural. No entanto, a sátira não necessariamente tem de ter algum tipo aspecto humorístico e pode se utilizar de linguagem irônica ou sarcástica para abordar o tema criticado. Por esses aspectos, a obra pode ser mal interpretada. Na verdade, podemos afirmar que inlusive o gênero pode ser utilizado para fazer algum tipo de crítica velada, ou seja, sem parecer de fato uma crítica.

Portanto, podemos entender que "Tropas Estelares" como uma sátira bem sucedida do ponto de vista da elaboração de uma crítica elaborada sobre uma sociedade que exalta o serviço militar: o filme utiliza a perspectiva da própria cultura a qual ironiza.

Exaltação bem sucedida?

A sátira pode ser um bom mecanismo para compreender certos aspectos sociais pois, como em uma caricatura, ela exarceba certos aspectos para que tomem uma proporção quase inverossímil a fim de chamar atenção para aquela característica. Como num tipo ideal weberiano, - que tem uma função de servir como ferramenta para estudo, mas não como a realidade em si - a sociedade militarizada retratada no filme deveria nos chamar atenção para um tipo de pensamento no qual há demasiada valorização do militarismo e excesso de confiança em figuras de autoridade.

Ao focar na carreira de Johnny Rico, o filme pareace abordar temas como honra, respeito e responsabilidade e foram esses aspectos que acabaram por se destacar no filme de maneira geral. No entanto, de acordo com o próprio diretor, Paul Verhoeven, a intenção era criar um senso de absurdo, conduzindo a história com elementos de soup operas e de propaganda militar para ironizar o mundo no qual os personagens viviam.

Nem tudo é alegórico e de difícil interpretação no filme. Logo no início do filme, durante uma aula de filosofia, o tom da abordagem fica claro quando o professor diz para a turma: "Quando você vota, está exercendo autoridade política, está usando da força. E força é violência. A autoridade suprema de todas as outras derivam". Essa afirmação justifica a cidadania no filme, pois apenas aqueles que fazem parte da entidade que detem a violência institucionalizada podem votar. Em uma das cenas em que a ironia fica mais clara, é quando Rico está no alistamento e o burocrata que o atende diz que servir a infantaria fez dele o homem que ele é hoje, dando um close no braço mecânico e na ausência de pernas do homem. (a cena pode ser vista aqui)

Outra caraterística que deixa a crítica mais evidente são os uniformes dos oficiais e os símbolos utilizados pelos militares no filme.

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De fato não é dificil imaginar que há pessoas que não entendem esses elementos como críticas. O filme é bem produzido e bem dirigido a ponto de as cenas de ação provocarem certa excitação na audiência, que acabara por torcer pelos personagens principais, os humanos militares. O tom sinistro do final do filme reside no fato de que o sucesso desse empreendimento militar leva inevitavelmente a uma renovação do ciclo de dominação de um pensamento único e de certa forma alienante.

Há outros aspectos da história que surgem após uma revisitação com olhar mais atento: as motivações da guerra, a veracidade da propaganda militar, a crítica às autoridades que nunca de fato se envolvem nos campos de batalha, a doutrinação a partir do sistema educacional, a mídia controlada pelo governo...

De qualquer forma o filme parece apontar para um aspecto verdadeiro de nossa natureza social: em momentos de incerteza social parece haver uma tendência de parte da sociedade preferir entregar sua liberdade para lideranças rígidas e autoritárias.

O porquê desse aspecto parece ser uma característica que merece uma investigação mais aprofundada. Mas se há alguma lição para aprendermos com "Tropas Estelares" é que mesmo sátiras podem ser um bocado perigosas se não compreendermos sua ironia.


Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo..
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