Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo.

Jogo dos Tronos da Mídia: Poder e Opinião Pública

A imprensa tem papel importante em sociedade democráticas, ao mesmo tempo que ela mesma se torna uma forma de poder que opera paralelamente ao Estado. Qual o maior poder da mídia nos dias atuais? Transformar "opinião publicada" em "opinião pública". Neste jogo de poder cada um joga com suas armas.


As pessoas têm preferências. Nem importa quem você seja, ou seu gosto, o fato é que procura o que lhe agrada. Sempre. Somo seres desejantes, como enfatizado por muitos filósofos, e de desejos conflitantes. Buscamos ter nossas vontades atendidas, faz parte da nossa natureza. No entanto, não há como fazer a vontade de todo mundo e, por isso, Weber definiu poder como sendo a capacidade de impor a vontade individual sobre outro(s) indivíduo(s).

Maquiavel e Hobbes são fantasmas de plantão rondando o cenário dessas disputas por poder. Sempre quando a há conflito nos lembramos dos limites da conciliação democrática. E como o poder se distribui de diversas maneiras na sociedade contemporânea - não só os nobres donos de terras tem capacidade de impor suas vontades - vez em quando há uma disputa entre as esferas procurando a legitimação máxima, o Estado. O mais legítimo dos poderes que detém a violência legalizada, além da regulação jurídica da vida, o único capaz de aprovar ou desaprovar uma ação como permitida. Resguarda nossos contratos, nossas propriedades e nossa integridade física. Tudo concentrado numa mesma instituição.

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O que resta desvinculado do Estado numa sociedade democrática e livre é a liberdade de expressão, alçada ao poder transformador a partir da imprensa livre - condição necessária numa democracia. É uma mídia com a qual o governo tem que lidar, seja como parceiro seja como inimigo. A isenção da mídia é uma falácia moderna, afinal ela tem donos. E eles têm vontades, como todo ser humano. As possibilidades de ação da mídia, como ação transformadora, estão intrinsicamente ligadas à opinião pública (que de acordo com certo autor, não existe). E opinião é um discurso explicito, anunciado sem rodeios. Portanto opinião é algo esclarecido, evidente. A opinião pública, no nosso entendimento, seria o julgamento esclarecido predominante na população. E isso que a mídia tenta nos convencer: de que o seu julgamento é o nosso. Faz como um trocadilho entre "opinião pública" e "opinião publicada".

"As questões da opinião esclarecida são difundidas para produzir respostas de todos sobre problemas que se apresentam para alguns: questões que não existiam para as pessoas passam a existir a partir do momento em que essas pessoas são interpeladas a respondê-las como se de fato fossem questões suas"

O poder de publicar notícias e promover histórias como sendo verídicas não deve ser menosprezado. Ao mesmo tempo temos que deixar de lado a crença na imparcialidade. No "jogos dos tronos" (para usar uma expressão mais pop), cada um joga com suas peças no limite das regras. Como na sociedade há indivíduos que entendem minimamente das regras que conduzem as instituições sociais, burlar as regras demonstrando desprezo ou desconhecimento leva a deslegitimação, ou seja, perca de reconhecimento ente os que se interessa impor a vontade. Porém para a maioria o entendimento das regras é limitado e com um toque de malandragem: o que não está proibido está liberado.

Agora façamos uma ligação entre estre três pontos. (a) À mídia cabe a divulgação de fatos que tenham como objetivo repassar conhecimento e permitir que o público forme alguma opinião. Tendo em vista a existência de um Estado que tem um discurso oficial, a mídia é um contraponto. (b) Sendo uma esfera legitimada de poder, tem que jogar de acordo com as regras. Nesse caso, ela não pode legislar ou governar, pois isso cabe ao Estado. A ela cabe divulgar. (c) Como não há nenhum tipo de proibição quanto a divulgar somente o que interessa a uma parcela da população, a mídia pode usar deste recurso - e não se engane, ela usa - para apontar as infringências às regras do jogo que outras instituições cometem influenciando a visão majoritária sobre determinado assunto. Dizer que algo é "opinião pública" é estabelecer uma legitimação, é dar poder a um julgamento. Ela existe nas sociedades modernas em função da instituição democrática. O voto é a manifestação máxima da vontade da nação e a nação constitucionalmente construída transforma a escolha da sociedade em algo sagrado através de cerimônias, como a diplomação de um presidente eleito.

Portanto, há um status proveniente da voz da maioria. No entanto devemos nos ater que na realidade a "opinião pública" pode ter pouco a ver com "opinião esclarecida" . Esta última envolve entendimento real e ponderação.

Pesquisas como a divulgada pela Folha (avaliação do governo como ruim/péssimo pulou de 24% em dezembro para 44% em janeiro) esta semana sobre a popularidade da Presidente pode servir como instrumento de legitimação induzida da opinião real de um determinado grupo. Os interesses por trás dessa generalização devem ser considerados. No Brasil - e em muitos outros países do mundo - os donos das mídias de maior circulação entre a população são poucos e têm posição privilegiada, muitos ligados à famílias tradicionais que, ao se esvaziarem de outras esferas de poder, mantiveram através da mídia seus títulos de nobreza. Alguns destes com relações fortes com quem os colocou naquela posição, senhores de um Estado patrimonialista que cedia concessões à amigos e aliados que promoveriam a manutenção do poder governamental.

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Nesse sentido não estamos descartando que haja de fato uma correlação entre opiniões do consumidor de determinados veículos de informação e seus donos e editores. Na maioria das vezes procuramos as notícias que nos agradam, que trazem o tipo de informação que estamos buscando. No entanto, o que acontece em casos mais gritantes é a "venda" de notícia numa relação de alimentar a posição - muitas vezes de indignação - dos leitores: veicula-se não informação necessária para julgamento individual dos fatos, mas o que alimentará o sentimento, as emoções do leitor, mesmo que prejudiciais.

Não sou contrário a pesquisas de opinião como da "Folha", mas temos de saber muito bem como a pesquisa foi feita. De que maneira foi realizada a pergunta, em que contexto e o público-participante. Também devemos ficar atentos aos fatos que são publicados e sua verossimilhança. Quando nossa imprensa é conhecida por casos como o do Boimate, é necessário estarmos atentos!

"A vontade dos dominantes se torna vontade de todos"

Nesse sentido, se não há como garantir a isenção de opinião pessoal dos donos desses meios - jornais e revistas, canais de televisão e rádio -, que são a principal fonte de informação para a população formar sua própria opinião, como garantir a criação de uma falsa opinião pública? Minha aposta é a garantia de diversidade maior de opiniões circulantes. Mas como fazer isso? A Internet já não seria esse veículo mais democrático?

Difícil saber. Depois da repercussão de notícias baseadas em boatos - como o envenenamento de Youssef na virada do ano passado -, não temos por garantido que o brasileiro médio tem acesso e busca informação na internet que não seja veiculada às grandes empresas já consagradas e globais. Essa história tem muito o que repercutir e a relação da mídia com o poder político no Brasil e no mundo é um cortejo de muitos anos. Enquanto esse dia não chega, Isaias Caminha prepara um novo boimate.


Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo..
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