Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo.

Refugiados: um "outro indesejável"

Imigração forçada, refugiados, estabelecidos, outsiders, evitamento e empatia social. Saiba como cada um desses conceitos se relacionam com a crise migratória atual, e um breve paralelo com o filme Distrito 9. Por que demoramos tanto para nos comover com um movimento de fuga da Síria que acontece desde 2011? De acordo com relatório da ONU, só no passado, foram praticamente 60 milhões de refugiados no mundo todo e a Europa recebeu a menor parte deles. Leia um pouco sobre essas questões depois do clique!


refugiados_01.jpeg Refugiados na Hungria: a crise migratória atual está sendo comparada à migração em massa que ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial.

Como tudo que acontece em nossa sociedade, a crise migratória que tem sido noticiada nas duas últimas semanas tem origens e implicações sociais. Para quem estiver interessado em saber um pouco mais sobre o fenômeno atual e ainda não teve muito tempo para se dedicar a leituras sobre o assunto, indico acessar a página abaixo da Carta Capital onde são apresentadas as principais informações para entendermos melhor.

Perguntas e Respostas Sobre a Crise Migratória da Europa

O fenômeno de pessoas atravessando fronteiras para fugir de guerras em seus territórios natais, não é novidade mas atingiu enormes proporções nos últimos tempos. De acordo com relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), no ano passado praticamente 60 milhões de pessoas se tornaram refugiadas em função de disputas armadas ou crises econômicas nos seus países de origem. E a questão não se resume apenas a problemas de fronteira, obviamente. Essas pessoas que se deslocam entre um território e outro "carregam" consigo uma série de demandas. São necessidades que devem ser atendidas, como de abrigo e alimentação. O problema maior que enfrentamos nesse sentido é que, principalmente nestes casos, ninguém quer ser visto como desumano e ninguém quer assumir a responsabilidade também.

A solução não é simplesmente acolher as pessoas. Há duas questões que devem ser resolvidas pelos governos: (1) o primeiro é interno, sobre o atendimento desta população "em fuga". Como atender de maneira a não prejudicar a própria população do país? Como garantir que esse fluxo de pessoas não gere problemas de segurança? Os governos tem de lidar com a possibilidade do movimento migratório gerar uma crise política no próprio país, principalmente em casos que se tem uma população descontente.

(2) o segundo é externo. A maior parte da comunidade internacional não admite que, de um ponto de vista global, as crises são geradas pelas próprias relações e disputas nacionais e internacionais. António Guterres, Alto Comissário da ONU para refugiados, crítica a postura predominante entre os países membros:

"De um lado, há mais e mais impunidade para os conflitos que se iniciam, de outro, há uma absoluta inabilidade da comunidade internacional em trabalhar unida para encerrar as guerras e construir uma paz perseverante"

E por que isso acontece? Basicamente porque os refugiados geralmente são o que é chamado de "o outro indesejável": é aquele grupo social que é indesejável para determinado grupo. Evocando os conceitos dos sociólogos Norbert Elias e John Scotson, há uma relação de estabelecidos e outsiders. No estudo de uma região operária de Londres, os dois sociólogos mostraram o contraste que havia entre dois grupos diferenciados de sujeitos de mesma classe social. Os moradores da área mais antiga do bairro se consideravam melhores do que as famílias residentes na área mais nova. A razão? Meramente uma questão de tempo no local.

No caso dos sírios na Europa temos um outsider que em diversos aspectos se difere do europeu tradicional do ponto de vista cultural. Pior ainda, a comunidade ocidental tem sido marcada nos últimos anos por uma aversão da cultura islâmica, o que faz que essas pessoas sejam vistas mais ainda como Alienígenas. Antes de chegarem à Europa, 95% dos refugiados da Síria estavam se deslocando para países de cultura islâmica próximos as suas fronteiras, como Egito, Libano e Turquia.

Distrito 9

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Como eu originalmente abordo fenômenos sociais através da cultura cinematográfica, eu pergunto-lhes: Alguém se lembra de Distrito 9?

O filme de ficção científica estreou em 2009 e serve também como comentário social. Na história, um grupo de alienígenas tem uma nave danificada e acabam ficando em Joanesburgo, capital da África do Sul. Num determinado lugar da cidade, é levantado um campo de refugiados que recebe o nome de - advinha? - Distrito 9. Os alienígenas que vivem no campo sofrem preconceitos e são deixados à própria sorte, vigiados constantemente por militares, enquanto se tenta resolver a situação deles. Se você não assistiu, recomendo que assista. É possível entender um pouco a questão atual a partir dessa obra, como já havia destacado antes.

O filme transmite bem a sensação relativa ao "outro indesejável". A indiferença é típica dessa sensação, até que o problema te bate a porta. Nessas situações podemos tentar resolver os problemas de duas formas: uma delas é tratando os refugiados como o problema - caso do Distrito 9 e talvez da situação atual. A outra forma, é a compreender as raízes desta situação.

A parte mais difícil de lidar com o "outro indesejável" é superar a sensação de indiferença e a atitude de evitamento que adotamos de maneira padronizada. E como fazer isso? Empatia (social).

Empatia Social

Então, como superar o evitamento e a perspectiva do outro como um simples outsider? Comece com empatia! E o que seria isso? De acordo com o sociólogo Sam Richards:

"Saia da sua posição e coloque-se na posição de outra pessoa. (...) É isso que digo aos meus alunos: saia do seu pequeno mundinho. E entre no pequeno mundinho de outra pessoa. E então faça isso de novo e de novo. E de repente todos esses pequenos mundinhos se juntam numa teia complexa. E eles constroem um grande, complexo mundo. E de repente, sem notar, você está vendo o mundo de maneira diferente. Tudo mudou. Tudo na sua vida mudou. E é isso, claro, que importa."

E é aí que entra a foto do garoto Aylan Kurdi, o menino sírio de três anos que morreu afogado no mediterrâneo e foi encontrado na costa da Turquia. A imagem do afogamento provocou reações e emoções intensas nas mídias sociais. Por que essa imagem chamou tanto a atenção para o problema? Porque ela foi capaz de conectar as pessoas com o problema. Aquilo que foi apresentado na imagem foi um drama mais universal: uma experiência que tem acesso à imaginação coletiva com maior facilidade do que perseguições religiosas ou descriminação racial ou medo da guerra. O medo da morte, o medo da perda de alguém querido, a proteção à infância que nossa cultura desenvolveu ao longo dos anos...isso é uma experiência coletiva. Foi a imagem que foi capaz de gerar esse processo de empatia social. Infelizmente não atingiu a todos.

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Igor Assaf

Igor Assaf tem tentado, através de muito esforço e desespero, entender a vida em sociedade e escolheu a cultura e a educação como seu objeto de estudo..
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