sólidos de revolução

e quadraturas do círculo

Ygor H. Speranza

Gosta de matemática, gosta de jogos, gosta de filosofia. Escreve para ter mãos que toquem essas coisas.

Louis Lozowick: nas fundações do modernismo americano

Arranha-céus vertiginosos, gruas e guindastes e homens balançando por suas vidas, tratores e tanques, maquinaria monstruosa. O litografista, escritor e revolucionário russo-americano Louis Lozowick levantou sua obra em cima de sua obsessão por essas imagens, e no construir de seu lugar na história da arte deu forma ao modernismo nos Estados Unidos.


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Louis Lozowick nasceu na rural Ludvinovka, parte do Império Russo (hoje Ucrânia), em 1892. Mostrando talento para o desenho desde pequeno, mudou-se para Kiev com um irmão mais velho e ingressou no Kiev Art Institute, onde estudou arte até 1906, quando emigrou para os Estados Unidos. Continuou seus estudos em Nova York, na National Academy of Design e foi aluno de pintores e litografistas da altura de Leon Kroll, Douglas Volk e George Willoughby Maynard.

Graduando-se em 1918, um ano depois Lozowick embarcou para uma temporada de cinco anos na Europa. Lá, foi muito influenciado pela estética da Era da Máquina, em especial por El Lissitsky. Ainda durante a viagem, Lozowick começou uma série de pinturas das cidades americanas de memória. Em 1924, voltou para os Estados Unidos, onde começou a série de litografias que lhe garantiu seu lugar na história da arte.

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Nas obras de Louis Lozowick, é comum encontrarmos canteiros de obras, alicerces de prédios, pontes, trens, barcos e carros, arranha-céus de ferro e vidro, complexos industriais, chaminés fumegantes e maquinaria pesada. Louis Lozowick dedicou sua vida a registrar a beleza do vigoroso processo de construção e mecanização das grandes cidades americanas.

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Em Lozowick, o foco pertence às estruturas arquitetônicas. O ser humano, quando não completamente implícito, assume frequentemente lugar acessório aos prédios e máquinas. Os homens são motoristas de tratores, limpadores de janelas, mecânicos e pedreiros. Sua função é fornecer o trabalho braçal e manutenção.

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É mesmo possível identificar uma despreocupação de Lozowick em fazer com que nos destaquemos dos veículos que operamos e dos prédios que construímos: os homens são robustos e parecem “feitos de pedra”, como estátuas, golens incitados à vida para o trabalho. Reparemos como nunca se encontram em posição de repouso, seus corpos estão sempre debruçados sobre os painéis de operações ou balançando-se a muitos metros de altura em guindastes — a um escorregão da morte.

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A obra de Lozowick foi, em parte, produto de muitas influências: dos construtivistas russos (com quem teve contato em suas viagens pela Europa), do Cubismo, do Futurismo, do Neoplasticismo e, pelos arranha-céus que representava, também do Art Déco. É impossível não encontrar nos quadros de Lozowick os traços do Expressionismo alemão que vemos no clássico Metropolis(1927), de Fritz Lang:

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Essa mistura de influências, contudo, alinhada a uma celebração pela paisagem industrial e urbana americana une-se no movimento ao qual a arte de Lozowick verdadeiramente pertence: o Precisionismo. O Precisionismo foi um movimento artístico essencialmente visual. Foi também conhecido como Cubismo realista ou Cubismo provinciano, e seus integrantes eram chamados imaculados ou esterilizados. É considerado o primeiro movimento modernista verdadeiramente norte-americano, e a primeira contribuição do país para a consolidação do modernismo: sua obsessão pela industrialização e modernização dos Estados Unidos, retratados em linhas fortes e formas geométricas nítidas, foi reconhecida como algo original. Enquanto a Europa podia debruçar-se sobre monumentos e arquitetura de séculos de existência, os americanos tinham o potencial, a fermentação. As palavras do mestre da arte moderna Francis Picabia refletem as expectativas que já se respiravam em 1915:

"Dado que a máquina é a alma do mundo moderno, e dado que a genialidade da máquina atinge na América sua expressão mais alta, por que não seria razoável acreditar que na América a arte do futuro florescerá mais brilhantemente?"

Lozowick é considerado, contudo, o artista a colocar mais peso e sombras no Precisionismo. Compare sua obra à de Charles Demuth, um dos fundadores do movimento:

Demuth_Charles_Aucassiu_and_Nicolette_1921.jpg Charles Demuth, Aucassin e Nicolette (1921)

Alguns críticos consideram que os contornos firmes e acentuados de Lozowick refletem sua visão de uma reestruturação espacial e política eficaz da metrópole. Essa perspectiva parece válida de um ponto puramente estético; contudo, torna-se especialmente relevante considerando o engajamento político do litografista. Quando voltou aos Estados Unidos, em 1926, mesmo período em que começava sua litografias, Louis Lozowick afiliou-se ao jornal marxista The New Masses, no qual trabalhava no conselho editorial e era um ocupado escritor e palestrante. Seus artigos e apresentações tratavam da arte de vanguarda, em especial da arte russa.

Louis Lozowick, New Masses Cover Aug. 1928.jpg Capa do The New Masses feita por Lozowick (1928)

Em seu artigo de 1927, A americanização da arte, escreveu:

“Ainda que alegássemos que a América possui uma herança cultural pobre e sem o peso de uma tradição, de forma alguma poderíamos concluir que nos falta a matéria-prima para a atividade criativa. A novidade, a virilidade bruta, a magnitude do novo ambiente americano fornecem essa matéria-prima em abundância. Para o artista criativo, a crueza do campo que descansa deve provar-se apenas um incentivo adicional ao seu cultivo. A tarefa do artista é peneirar e debulhar a matéria ao alcance das mãos, moldá-la ao seu propósito, separando o essencial do acidental, enriquecendo assim a cultura existente e ajudando a formar uma nova tradição.

A história da América é uma história de esforço incessante para aproveitar as forças da natureza — um aperfeiçoamento constante das ferramentas e processos que tornam o domínio dessas forças possível. A história da América é uma história de gigantes obras de engenharia e de construção mecânica colossal.

Os arranha-céus de Nova York, os elevadores de grãos de Minneapolis, as siderúrgicas de Pittsburgh, os poços de petróleo de Oklahoma, as minas de cobre de Butte, os estaleiros de Seattle oferecem o épico industrial americano em seu diapasão.

O ambiente, no entanto, não é por si só arte, apenas matéria-prima que se torna arte quando reconstruída de acordo com a exigência das formas estéticas. O artista não pode e não deve, portanto, tentar uma transcrição literal e sem alma do cenário norte-americano, mas sim dar uma interpretação criativa e penetrante dele (...)"

louis_lozowick_ralph_steiner_1930.jpg Louis Lozowick em foto de Ralph Steiner (1930)

Embora para Lozowick sua obra transportasse forte carga revolucionária, não se considerava um modernista. Chegou a censurar a obra de modernistas americanos por considerá-la “sem qualquer contato com a classe trabalhadora” e por “se curvar a um pequeno número de colecionadores ricos”. E mesmo o maquinário opressor e claustrofóbico que protagoniza seu trabalho parece não se sentar facilmente com as visões revolucionárias que Lozowick expressava em seus textos. Em seu livro Comrades in Art: Revolutionary Art in America, Francis Booth explica essa contradição: em uma sociedade socialista, a Máquina interpretava um papel diferente do desempenhado em uma sociedade capitalista. Booth cita Nikolai Bukharin: “Nós somos repreendidos por termos tornado a máquina em um ícone, mas a máquina apenas despersonaliza na sociedade capitalista; conosco, a máquina desempenha um papel libertador. A máquina no socialismo é o mais alto fator no desenvolvimento da cultura”. Lozowick mesmo tratou desse problema em um de seus artigos: “Enquanto os expressionistas alemães retratam a cidade como apocalíptica e os futuristas italianos como desumana, o artista revolucionário americano afasta-se da representação realista e pinta a cidade como um produto da racionalização e economia, aliadas da classe operária na construção do socialismo”.

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Louis Lozowick trabalhou na divisão gráfica da Works Progress Administration de Nova York de 1934 até 1940. Em 1943, mudou-se para Nova Jersey, onde morou até o fim de sua vida, em 1973. Deixou um total de mais de 300 pinturas e litografias. O movimento artístico que integrou, o Precisionismo, seguiu até a década de 50, quando, já sem força, cedeu a outros movimentos, sem deixar de influenciá-los. A sociedade americana, entretanto, mesmo 40 anos após sua morte, continua fascinada com o universo que Louis Lozowick ao mesmo tempo ergueu e foi fundação. A tecnologia e as grandes obras da engenharia ainda têm por sede o coração dos Estados Unidos e seus artistas.


Ygor H. Speranza

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