sólidos de revolução

e quadraturas do círculo

Ygor H. Speranza

Gosta de matemática, gosta de jogos, gosta de filosofia. Escreve para ter mãos que toquem essas coisas.

Carl Spitzweg e a arte da contemplação

Carl Spitzweg foi um pintor alemão do século XIX, tão popular na Alemanha que sua obra foi vítima de roubos espetaculares, esquemas de falsificação milionários e até mesmo adorada por Adolf Hitler. Descubra mais sobre esse artista, hábil em ver a beleza das pequenas coisas, em especial do simples ato de observar.


Carl_Spitzweg_033.jpg Der Schmetterlingsjäger (O caçador de borboletas)

Estamos em 3 de setembro de 1989. Uma exposição de arte acontece no Palácio de Charlottenburg, o maior dos castelos de Berlim. Em meio aos muitos visitantes, um jovem rapaz empurra um homem em uma cadeira de rodas. O homem na cadeira de rodas, no entanto, não possui nenhuma deficiência física: tudo é um truque para trazer ferramentas escondidas na intenção de roubar dois famosos quadros da exposição do pintor Carl Spitzweg. Usando alicates para arrebentar os fios de contenção das molduras, o jovem e o suposto cadeirante disparam o alarme, e a guarda ainda tenta cercar os criminosos na ala onde estão os Spitzweg, mas os ladrões conseguem se misturar na multidão e escapar. Os quadros até hoje não foram recuperados.

Carl Spitzweg foi um pintor alemão, nascido em 1808 na cidade de Unterpfaffenhofen. Carl, o filho do meio de uma rica família de comerciantes, completou seus estudos em farmácia na Universidade de Munique, área em que trabalhou até 1833, ano em que uma herança lhe permitiu abandonar todas as suas preocupações financeiras e dedicar-se apenas à pintura. Spitzweg passou então a viver um dia a dia monástico em um sótão de uma casa na pitoresca cidade de Rothenburg, só ocasionalmente recebendo a visita de amigos pintores.

carl-spitzweg-rosenduft-erinnerung-09236.jpg Rosenduft, Erinnerung (Memória do cheiro da rosa)

verdachtiger_rauch.jpg Verdächtiger Rauch (Fumaça suspeita)

Carl_Spitzweg_-_Mäherinnen_im_Gebirge.jpg Mäherinnen im Gebirge (O aparador nas montanhas)

Carl_Spitzweg_062.jpg Kunst und Wissenschaft (Ciência e arte). Repare nos dois homens que discutem no canto inferior direito do quadro.

36m0022a.jpg Der Witwer (O viúvo)

Na arte, Spitzweg foi um autodidata. Seu aprendizado consistiu de estudar por conta própria o clássico de John Burnet Treatise on Painting e visitar os diversos centros da arte europeus de sua época, como Londres, Paris, Praga e Veneza. As primeiras experiências artísticas práticas de Spitzweg foram cópias das obras dos mestres da arte flamenga. Rapidamente, contudo, seu estilo tomou a forma da arte da era Biedermeier, que se vale de cores naturais para dar atenção ao conforto das ativididades privadas e hobbies da burguesia do início do século XIX. A obra de Carl Spitzweg é conhecida por olhar para a vida com ternura e humor. É impossível para Spitzweg não reparar com carinho as minúcias e a comicidade dos afazeres diários de suas personagens, sejam elas bibliotecários, caçadores de borboletas, acadêmicos, alquimistas, poetas, músicos de rua, comerciantes, homens que se organizam numa serenata, mulheres que cuidam de seus jardins ou famílias que passeiam por um campo ensolarado. Embora Spitzweg pareça ter por um vasto leque das atividades humanas a curiosidade na mesma luz, existe um tema que parece cativá-lo acima dos outros. Na obra do artista, a contemplação, a meditação e a literatura surgem como atividade romântica. Parece que Spitzweg não quer retratar nem a pessoa, nem seu objeto de observação, mas sim o que acontece entre esses dois, a experiência do olhar em si, esse fenômeno invisível e fantástico, na maioria das vezes não percebido, da análise, da leitura, da contemplação.

Carl_Spitzweg_-_Der_Kaktusliebhaber.jpg Der Kaktusliebhaber (O amante do cactus).Reparemos como nessa pintura, o ato de observar transforma o observador: o homem toma a forma curvada do cactus.

Carl_Spitzweg_-_Ein_Gelehrter_der_Naturwissenschaften.jpg Ein Gelehrter der Naturwissenschaften (Um estudioso das ciências naturais)

Carl_Spitzweg_025.jpg Der Geologe (O geólogo)

Carl_Spitzweg_031.jpg Der Botaniker (O botânico). Nesta pintura, Spitzweg esconde o objeto de observação da sua personagem.

carl-spitzweg-ein-besuch-09212.jpg Ein Besuch (Uma visita). Aqui a natureza irrompe de uma janela, fazendo com que a personagem troque a leitura pela contemplação de um pássaro.

Observemos um de seus trabalhos mais famosos, Der Bücherwurm (O rato de biblioteca).

Carl_Spitzweg_021.jpg Der Bücherwurm (O rato de biblioteca)

Nele, um bibliotecário, trepado em uma escada portátil, consulta ao mesmo tempo quatro livros da prateleira de metafísica, distribuídos por seus braços e pernas. Pela vestimenta é um homem com recursos, que, provavelmente por conta da vida da leitura, apresenta já um bom grau de miopia. Um lenço que escapa do bolso de sua casaca completa sua personalidade, como distraído, alienado. Spitzweg parece divertir-se com a personagem, que procura respostas em livros antigos, tendo a luz natural do sol vindo como num feixe divino de algum lugar alto, como tentasse chamar sua atenção para onde verdadeiramente está a chave do enigma.

Carl_Spitzweg_-_Der_arme_Poet_(Neue_Pinakothek).jpg Der arme Poet (O poeta pobre)

Der arme Poet (O poeta pobre) é, sem dúvidas, sua obra mais famosa. Esse quadro mostra um homem, deitado em uma cama de livros em um sótão. Em um varal pendura uma única toalha. Ainda está em suas roupas de dormir, apesar de ser dia. Um guarda-chuva foi amarrado no teto certamente para que desvie uma goteira. A imagem do poeta miserável completa-se em seu ato de ter a pena à boca e as mãos que contam as sílabas de seus versos. O poeta pobre foi uma das obras que foi roubada do Palácio de Charlottenburg em 1989 (junto a seu outro quadro, A carta de amor), esse sendo apenas o seu segundo roubo (o primeiro teria ocorrido em 1976). Esses não foram os únicos crimes, no entanto. Na década de 30, 54 dos quadros de Spitzweg foram falsificados e vendidos como originais. Até 1992, 36 de seus quadros ainda apareciam na lista de obras desaparecidas da polícia alemã.

Carl_Spitzweg_030.jpg Der Liebesbrief (A carta de amor), um dos dois quadros do roubo de 1989.

Além das dimensões relativamente pequenas das obras de Spitzweg, existe um mais importante motivo por que o pintor é tão cobiçado pelos ladrões de arte: sua popularidade. O poeta pobre, em uma pesquisa, foi considerada simplesmente a segunda obra mais adorada pelo povo alemão, perdendo apenas para a Mona Lisa. O próprio Adolf Hitler, conhecido por seu amor pela arte e arquitetura, fazia parte desse grupo de admiradores. Hitler foi dito, por limitações financeiras, impossibilitado de comprar obras de arte até o início da década de 20. No entanto, próximos do líder do Partido Nazista dizem que a primeira peça de arte que comprou foi um Spitzweg, a qual, embora não se tenha documentado o título, sabe-se que figurava nas paredes do primeiro andar de seu apartamento na Prinzregentenstraße em 1929. Essa admiração durou, pelo menos, mais uma década: sabe-se também que a administração da cidade de Salzburg teria presenteado Hitler em abril de 1938 com o quadro de Spitzweg Sonntagsspaziergang (Passeio de domingo).

Carl_Spitzweg.jpg Carl Spitzweg, em foto de cerca de 1860.

Carl Spitzweg morreu em 1885, considerado o maior dos pintores do movimento Biedermeier. Ao longo de sua vida artística, que durou pouco mais de meio século, deixou aproximadamente 1.500 quadros diferentes. Sua imensa popularidade premiou seu legado com roubos e falsificações; no entanto, sua obra prevaleceu. Suas personagens continuam, até hoje, meditando sobre os mesmos interesses, pequenos e grandes, séculos após sua criação, inabaladas. E não só isso: em 2012, um promotor de justiça descobriu em um apartamento em Munique mais de 1.300 obras de arte perdidas, de autores como Pablo Picasso, Auguste Rodin, Albrecht Dürer e Edvard Munch. Tocando Piano, um rascunho de Spitzweg, estava em meio a elas. Carl Spitzweg continua a nos oferecer sua atenção à vida, mesmo quase 130 anos após sua morte.

Carl_Spitzweg_-_Sonntagsspaziergang.jpg Sonntagsspaziergang (Passeio de domingo), obra presenteada a Adolf Hitler em 1938.


Ygor H. Speranza

Gosta de matemática, gosta de jogos, gosta de filosofia. Escreve para ter mãos que toquem essas coisas..
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