sólidos de revolução

e quadraturas do círculo

Ygor H. Speranza

Gosta de matemática, gosta de jogos, gosta de filosofia. Escreve para ter mãos que toquem essas coisas.

Lexicon: o jogo de Borges

Lexicon é um jogo onde os participantes assumem o papel de enciclopedistas e, juntos, forjam uma enciclopédia. Aristóteles, André Breton e os surrealistas franceses, Borges, Pavic... como pode um jogo trazer tantos nomes à mesa? A literatura é um jogo? Jogos podem ser literatura? Conheça Lexicon.


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Se a literatura começa em Aristóteles como imitação, dois milênios (e alguns séculos aqui e ali mais) foram suficientes para que deixássemos de depositar nossa fé completa nisso. Quem ainda acredita em uma realidade objetiva a ser representada? Para aqueles dispostos a se equipar do conceito de literatura como jogo, livros não são mais imagens de algo externo e único. Cada livro determina e se submete a um próprio e particular conjunto de regras; não há só um universo fora dos limites da linguagem a que se quer escrever, mas muitos, infinitos; uma literatura que, destituída do poder de iluminar uma verdade monolítica e exterior, quando essa não existe, passa a representar a si mesma.

E se hoje não nos estranha mais a noção de literatura como jogo, a relação inversa, que seria ver o jogo como literatura, nos parece curiosa. Aonde foi o interesse da vanguarda modernista que abriu o século XX sobre uma variedade de jogos artísticos e experimentos?

O que queremos dizer com jogo como literatura? Qualquer forma de jogo cujo produto é essencialmente literário (textual). Um dos exemplos mais conhecidos é o jogo batizado cadavre exquis, popularizado por André Breton e outros surrealistas franceses na década de 20. Nesse jogo, cada jogador escreve em um pedaço de papel um fragmento de texto (às vezes seguindo certos padrões sintáticos) sem saber o que foi escrito pelos outros. Ao fim do jogo, tem-se um texto autorado por todos os participantes. O resultado final com dificuldade não nos parecerá hoje aleatório demais para que nos diga algo: no entanto, personifica a aposta do surrealismo na intuição como sabedoria e no inconsciente coletivo. E se, talvez pois hoje Freud e a psicologia não são mais recursos revolucionários, não mais acreditamos no sonho como verdade absoluta: por que abandonar os jogos como fonte literária se, mais do que nunca, recuperamos na filosofia o papel do lúdico (o “instinto do jogo”, como em Johan Huizinga) em nosso pensamento, nossa poesia?

Lexicon foi criado por Neel Krishnaswami em 2003. Em Lexicon, os jogadores assumem o papel de enciclopedistas fictícios, no projeto de escrever uma enciclopédia. Lexicon foi inicialmente criado para ser jogado na web (fazendo uso de ferramentas de criação de wikis): no entanto, com exceção de algumas menores questões logísticas, não consigo imaginar o por quê não poderia ser jogado em uma mesa. Ao longo de um final de semana.

Uma partida de Lexicon começa com os jogadores determinando o tema da enciclopédia que irão criar. Um tema pode ser tão amplo ou específico quanto os jogadores desejarem, e estabelece o assunto geral de que os verbetes tratarão. Minha ideia favorita de tema é qualquer ocasião ou momento histórico conhecido o suficiente para que existam fontes a se pesquisar a respeito, e desconhecido o suficiente para que os jogadores sintam-se livres para manipular a história, à invenção de personagens e localidades inexistentes (em caso de se jogar em uma casa de campo, deixe que o acervo do lugar determine). No entanto, mesmo os temas mais extravagantes podem funcionar: a forja de um códex de botânica renascentista. Um manual que tenta explicar a nomenclatura obscura de um lógico húngaro do século XIX.

borgesdesmazieres2.jpg Ilustração de Erik Desmazieres do conto "A biblioteca de babel", de Jorge Luis Borges.

Lexicon é jogado em turnos. Cada turno começa com um dos jogadores retirando de um saco de 1 a 3 letras, onde foram postas, previamente escritas em pedaços de papel. As letras não são recolocadas no saco após terem sido escolhidas, e representam as iniciais do turno. Ao longo desse turno, os jogadores deverão escrever verbetes que comecem com essas letras. Caso já existam verbetes fantasma (veja abaixo) a serem preenchidos para essas iniciais, a eles deve ser dada preferência. Do contrário, não existindo tais verbetes, podem-se criar novos.

Um verbete é uma entrada da enciclopédia. Possui um título e um texto que o elabora. Os jogadores devem entrar em um acordo prévio quanto ao número mínimo e máximo de palavras ou linhas (ou páginas). Esse limite é importante: como os jogadores frequente precisam conhecer o conteúdo não só das suas entradas, mas também das escritas pelos outros, textos muito grandes podem desacelerar a partida.

Além dos limites de tamanho do texto, existem outras regras importantes a serem cumpridas em um verbete: cada verbete precisa apontar (ou seja, fazer menção) a pelo menos um verbete já escrito por outro jogador e para dois verbetes ainda não escritos. Tais verbetes mencionados mas não ainda preenchidos chamam-se verbetes fantasma.

Os verbetes, em Lexicon, dessa forma, possuem duas regras básicas: a do comprimento e a das citações. A regra das citações é a regra mais importante do jogo. Através dela, garante-se uma colcha de retalhos ficcional montada pelos jogadores, ricamente costurada. Ao fim de uma partida (quando todas as iniciais já foram sorteadas), tem-se um texto interreferenciado, produto das regras do jogo que naturalmente carregam para esse entrelaçamento. Durante uma partida de Lexicon os jogadores se verão confrontados pelas (e, gosto de pensar, mesmo incentivados a tirar proveito das) dificuldades inerentes de tarefas intelectuais dessa natureza, como, por exemplo, a discordância com relação a termos usados e diferentes interpretações de um mesmo verbete.

Essas são as regras de Lexicon. Na criação desse jogo, Krishnaswami diz ter sido influenciado pelo livro Dicionário Khazar, do sérvio Milorad Pavić, obra totalmente não linear que se organiza como entradas curtas de uma enciclopédia e comentários. As restrições, pelo que são, me lembram mais ainda as contraintes do grupo experimental francês Oulipo. No entanto, Lexicon, para mim, é o “jogo de Borges”. Qualquer leitor do mestre argentino (notadamente uma influência em Pavić) conhece seu conto “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, no qual um grupo clandestino de enciclopedistas se junta para forjar coletivamente um país, um mundo, através de entradas falsas em uma Enciclopédia Britannica. “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius” fala sobre um dos temas favoritos de Borges, a contaminação da realidade pela ficção, pela imaginação: a investigação do protagonista começa a revelar que certas coisas que só existiam em Tlön também existem em sua realidade. De uma certa forma, Lexicon nos permite esse prazer, reinventar o passado, imaginar o futuro, a muitas mãos, através da escrita: não para que de estarmos escrevendo façamos a verdade; mas para que escrevendo como verdade algo fictício, rebaixemos por simples indistinção o que é considerado fato à desconfiança.


Ygor H. Speranza

Gosta de matemática, gosta de jogos, gosta de filosofia. Escreve para ter mãos que toquem essas coisas..
Saiba como escrever na obvious.

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