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Um entre bilhões.

Lucas Lima

Cronista, pensador e urbanóide. Mas não necessariamente nessa ordem.

Arquitetura desconstrutivista: Um olhar Pluralista.

Partindo do aspecto filosófico do desconstrutivismo, falaremos sobre a arquitetura contemporânea, com base no trabalho da empresa Coop Himmelb (l) au e outros expoentes, estabeleceremos pontes entre a abordagem da Arquitetura Desconstrutivista e o pluralismo metodológico do filósofo Paul Feyeraband, que assim como a arquitetura contemporânea, questiona a rigidez da metodologia e propõe a liberdade de modos de se atingir determinado conhecimento ou tecnologia.


"Nós pensamos da nossa arquitetura como parte do século 21, como a arte que reflete e dá uma imagem de espelho da variedade e vivacidade, tensão e complexidade de nossas cidades." (Wolf D. Prix)

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Diria Vitrúvio, que “a filosofia torna o arquiteto magnânimo, para que não seja arrogante, mas sobretudo prestável, equitativo, digno de confiança...”. Aproveitando da fala deste pioneiro da edificação, que desde tempos remotos, aproxima a filosofia da arquitetura, falaremos sobre o desconstrutivismo e sobre sua contestação dos valores da arquitetura moderna, sob um olhar filosófico. Buscando capturar um pouco dessa estética, somente agora absorvida pelas cidades e pelos que as pensam, e discorrer sobre suas implicações no contexto contemporâneo e no quanto ele é reflexo de um movimento de libertação emergente em todas as formas da expressão humana, vamos percorrer o tema e nos permitir emprestar um sentido ao trabalho da COOP HIMMELB (l) au, e dos outros autores dessa escola.

Ao colocar a filosofia nesse universo, não podemos nos abster de citar a atividade de Derrida e Eisenman, que nos comunicam uma “metafísica da presença” como objeto da teoria arquitetônica. Nela a arquitetura é uma linguagem onde se pode comunicar um sentido. Da aporia entre “presença” e “ausência” sólido e vazio, é que se define o que é arquitetura. No léxico do pensamento deles o “locus” ou, lugar da presença, é em Si, a arquitetura. E esta, apesar da existência de elementos estruturantes, por que dialoga com a materialidade da física, deve gozar de liberdade na utilização e apropriação desses elementos por exprimirem e comunicarem sentido.

Como dito por Derrida:

“Qualquer desconstrução arquitetônica requer a existência de um arquétipo de construção particular , uma expectativa convencional fortemente estabelecida sobre a que jogar contra a flexibilidade das normas”,

ou seja, a desconstrução olha para uma tradição, reporta-se a ela e utiliza-se de seus elementos para subvertê-la. Na desconstrução, as normas e as técnicas são objetos da crítica, da reabordagem e da tentativa de superação. A desconstrução tem um caráter subversivo à forma, e isto é evidenciado na obra desconstrutivista.

O texto, a poesia concreta, e a escultura arquitetônica se comunicam principalmente no período embrionário desta escola, e noções-conceito como “rastro” e “apagamento” impregnam de significado obras como o Museu Judaico de Berlim, projetado por Daniel Libeskind. A obra em si, expressa a tentativa de um “rastro de apagamento” do Holocausto. É a própria edificação um manifesto, reforçando o papel do projeto arquitetônico como algo provido de sentido, para além da física, mais que um conjunto de linhas, materiais e formas.

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Olhando para todo este “edifício teórico”, julgamos apropriado trazê-lo ao campo do real, da vida cotidiana. E a primeira coisa que pensamos foi falar da COOP HIMMELB (l) au. Nascida na Áustria, esta empresa constituída como uma cooperativa, que tem como CEO e principal projetista Wolf D. Prix, sintetiza o caráter subversivo da arquitetura odierna.

Conceitualmente, enfrentam posicionamentos difusos, são eles odiados e amados, questionados e respeitados. Há um misto de simpatia e estranhamento aos que contemplam seus projetos, mesmo que através de fotos. Como empresa de ponta que é apresenta excelência técnica, tecnológica e profissional. Mas tudo isso vem a servir algo maior que é a sua vocação vanguardista. Atuam com projetos de arquitetura em diversos segmentos (residências, prédios comerciais, projetos de interiores, projetos institucionais, entre outros...), tendo como marca a capacidade de impressionar pelo inusitado e pelo arrojo das formas e espacialidades.

Participaram da exposição de ’98 no MoMA, marco do segmento, tornaram-se símbolo de vanguarda, ganhadores de diversos prêmios, têm como filosofia o “código-aberto” do trabalho e do conhecimento, a liberdade e a cooperatividade, a superação das formas e normas. Todos estes conceitos estão presentes e até evidenciados em seus projetos. Reportam-se aos valores embrionários da desconstrução, conforme nascida em Derrida, com raízes ainda mais profundas, em sua leitura de Nietzsche, Kierkegaard, Heidegger e Camus.

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Ao pensar a “Céu Azul”, tradução do termo HIMMELB (l) au, e a arquitetura desconstrutivista, reportamo-nos mentalmente à fala de Feyerabend, que defende um “pluralismo metodológico” na ciência. O que fizemos aqui, até então, foi trilhar um caminho de apresentação e abordagem, para que possamos aproximar essa leitura da arquitetura, do trabalho do autor, sem deixar perdido o leitor que não está intimamente ligado ao tema e às proposições que aqui ocorrem. Quando Paul resume a Introdução de “Contra o Método” vemos ali representados os valores que cremos nortearem a vertente arquitetônica abordada no presente texto. Segue:

“A ciência é um empreendimento essencialmente anárquico: o anarquismo teorético é mais humanitário e mais suscetível de estimular o progresso do que suas alternativas representadas por ordem e lei”.

Fica evidente ao nos apropriarmos desse olhar que o autor tem da ciência, e ao empresta-lo à arquitetura desconstrutivista, a vocação dela de se reinventar e reinventar o espaço no qual interfere e que passa a ser parte. Pode ela, se utilizar de todas as teorias, práticas, técnicas, materiais, noções, e estéticas anteriores ao momento atual para construir algo novo, inusitado e übber paradigmático. Pode combinar a bel-prazer noções que em escolas anteriores, ou em momentos históricos diferentes, não coadunavam e que inclusive se chocavam. Há um caráter instrumental do conhecimento no texto de Feyeraband. Quando defende um método para ser usado para determinada finalidade em seu pensamento, não faz isso sob um viés doutrinário, sob a argumentação de tratar-se do método Ideal, dotado de caráter universal. Defende-se seu uso apenas por ser o mais apropriado, para aquela determinada circunstância. Digamos, que Feyeraband, quando diante de certo problema, se serve da teoria que com mais eficiência resolve aquela situação especificamente. Sem compromisso com uma coerência daquela teoria com outra usada para solução de problema prático ou teórico relacionado com o atual. Nele a contradição é aceitável e até bem vinda. O espanto (no sentido grego de Thaumazein) promovido pelas demandas do saber humano deve servir de fermento para novas ideias e abordagens e não de entrave para o avanço do saber e da tecnologia.

PKF_2.jpg Parece a nós incrivelmente coerente esta visão, com o que vemos nos trabalhos dos expoentes da expressão arquitetônica que estamos tratando. Nomes como Daniel Libeskind, Peter Eisenman e a própria Coop, ao desconstruir reconstroem, mas com muito mais liberdade, denotando-se compromisso maior com o sentido, com a expressão de algo, não com regras de construção, ou com os limites impostos pela física. Há algo de revolucionário nisso!

Superar limites, surpreender os sentidos, dotar o homem da liberdade de tornar real tudo àquilo que desejar e considerar possível, eis a principal missão de quebra de paradigmas, do nosso caro filósofo e também, por que não, desses homens que dedicaram suas vidas a construírem mais que edifícios, dedicaram-se a construir sonhos de concreto e vidro.

(LIMA, L. S.)


Lucas Lima

Cronista, pensador e urbanóide. Mas não necessariamente nessa ordem..
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