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Sobre moda, design e inspirações plásticas.

Gabi Cavalheiro

Historiadora cultural, consultora criativa, exploradora de tudo que envolva maracujá, conversas e materialidades.

Quando descobri Céline

Plástico, do grego plastikós, significa (entre outras coisas) ‘o que dá forma, ou é capaz de dar forma; que se pode malear – maleável; que provoca reação estética causada pelas formas’. Moda, como plasticidade, gera desejo, anseio, curiosidade, desdém, deixa a gente intrigado. O que antes era apenas desculpa pra consumistas alheios, se tornou, pra mim, uma enorme fonte de inspiração, tipo um parangolé, meio disforme, mas cheio de forma.


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Pensar na plasticidade de algo, aqui nesse blog, significa pensar na sua forma e em todos os tipos de reações que essa forma incita na gente.

Durante muitos anos moda, pra mim, foi sinônimo de consumo e, por isso, não tirava muito de mim além de uma ‘torcida de nariz’. Há pouco mais de 3 anos eu resolvi me abrir pra esse universo alucinado e descobri que, bom, gostava bastante. Mas como todo ser acadêmico eu não parava de me perguntar ‘porque?’. E os porquês me levaram a vários caminhos, julgamentos, gostos, deslumbramento (passageiro, admito), prazeres, ideias, textos.

Como toda área criativa, a moda ao mesmo tempo brinca e reforça vários discursinhos e práticas que mexem com a gente, que instigam vontades, desejos, vergonhas, receios. Phoebe Philo, designer da marca francesa Céline, brinca o tempo todo com o gênero, distanciando a mulher que se cobre com suas peças do discurso que a super-sensualiza (como commodity) em todas as suas formas. E isso é bastante obvio quando a gente olha as campanhas da marca, que, por outro lado, está bem longe do alcance da maioria das pessoas – trata-se de um nome do mercado de luxo. Mas, então, como lidar com o desejo pelo design ultra refinado e artístico e a não-possibilidade de tê-lo em mãos? Isso pra mim foi (e ainda é) uma ideia em movimento.

Aí entra a criatividade aliada a boas doses de bom senso e autoconhecimento. A Céline, como o conceito que carrega, é effortless, é pulsante, é feminina, mas não tem forma de mulher (vamos jogar com os estereótipos), é audaciosa, tem formas estranhas, porém super sedutoras, tipo um parangolé – o disforme que gera forma e prazer estético. Comprar uma bolsa da Céline não precisa ser o objetivo de vida de quem é apaixonado pela marca, já jogar com as ideias que ela imprime nas suas peças não custa nada. Esse é o bacana de se observar e experimentar (nas lojas, mesmo) as marcas de luxo, elas te proporcionam uma exclusividade estética que pode (e deve!) ser tocada, sentida na pela, nos olhos, ouvidos, sem muito pudor, como diria Costanza Pascolato.

Eu me apaixonei por moda assim, pela plasticidade que ela envolve e inventa, tipo uma pintura numa galeria, que você pode, pela projeção das sensações que ela gera, carregar consigo num texto, num vestir-se, num pensar. O consumo, ah, ele está aí, mas pra Phoebe Philo ele não é o objetivo final dos seus rascunhos. E nem dos meus.


Gabi Cavalheiro

Historiadora cultural, consultora criativa, exploradora de tudo que envolva maracujá, conversas e materialidades..
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