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Sobre moda, design e inspirações plásticas.

Gabi Cavalheiro

Historiadora cultural, consultora criativa, exploradora de tudo que envolva maracujá, conversas e materialidades.

Prazer sartorial

Sentir prazer com o tecido que te veste. Você sente?


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Sabe aquela conversa de que a gente tem que encontrar prazer nas pequenas coisas que montam nosso cotidiano? Eu tenho pensado muito nisso, nessa última semana sobretudo. Às vezes a gente deposita esse ‘prazer’ no que a gente vê com facilidade, na coisa ‘grande’, ou em alguém – normalmente, fazer o que? E daí quando se pega no dia-a-dia sem aquele estímulo, tem que repensar tudo de novo.

Hoje, é, hoje mesmo, domingo, pratiquei uma das coisas que redescobri (?) há poucas semanas que me dá um enorme prazer: sair pra pedalar pelas ruas tranquilas do meu bairro com música no ouvido (taí o motivo das ruas sem double-decker) e sem nada nos bolsos. Mesmo sendo quase melancólico, o prazer que isso me dá é impagável. Mas outra coisa que sensualmente me agrada e me tem feito companhia quase que 12 horas diárias é o meu vestir-se.

A gente já está mais que cansado de ler-ouvir sobre os tipo de prazer que o consumo gera, certo? Mas o prazer que eu sinto e que vou descrever aqui não é o da compra, de longe - eu tive uma fase de desapego há alguns meses e até hoje não consigo mais entrar em lojas, mesmo. O prazer nesse texto é o prazer do meu vestir-se, que foi redescoberto pelo uso e reuso do que eu tenho no meu armário e que, hoje, é bem pouco. Eu normalmente visto as mesmas coisas: camiseta, jeans, uma malha quente (mas nem tanto) e um slipper ou tênis. Mesmo sendo poucas as peças, eu gosto demais de cada uma delas.

Os tecidos, o corte, como cai no meu corpo, como se encaixa no meu andar, como me deixa mais alta, menos alta, mais séria, mais descontraída, como muda minha postura, como me ajuda a caminhar mais leve, a carregar mais peso, como me faz sorrir se está sol, me aquece se estiver ventando... Como me faz sentir um monte de coisa boa e um prazer imenso de estar vestida. Sem me custar nada mais, sem excessos, maquiagem não faz lá tanto parte do meu cotidiano, e se eu sinto prazer com o que cobre meu corpo, nem preciso cobrir meu rosto com nada. Eu tenho ido assim pra rua, sem crise do ‘o que vou vestir’, porque o que eu tenho eu escolhi durante muitos e muitos meses, numa curadoria que, hoje, me dá um enorme prazer. Não ter muito já me faz sentir bem naturalmente. Mas conseguir sentir prazer com o pouco que tenho é quase um estímulo por si só. O prazer do qual falo é sensual – porque a roupa cobre o corpo, os poros, protege, expõe, desenha, esconde – mas também não tem materialidade – roupa é signo e, mesmo quem diz que não diz nada, diz algo pelo não dizer.

Isso tudo, meio confuso, cacofônico, pra contar que o vestir-se não precisa ser torturante, não precisa ser pesado, não precisa machucar no espelho. Pode ser uma daquelas pequenas coisas (ou grandes coisas, afinal a gente não anda pelado, geralmente) que enchem a gente de pequenos prazeres, de pequenos gostares aqui e ali. O automático pode ser desligado e o sartorial, numa plasticidade bem prática, pode ser bem, bem gostoso.

(PS: eu tenho usado o termo 'sartorial' emprestado do inglês mesmo, em referência a tudo relacionado ao vestir-se)


Gabi Cavalheiro

Historiadora cultural, consultora criativa, exploradora de tudo que envolva maracujá, conversas e materialidades..
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