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Sobre moda, design e inspirações plásticas.

Gabi Cavalheiro

Historiadora cultural, consultora criativa, exploradora de tudo que envolva maracujá, conversas e materialidades.

O quarto de Mademoiselle Chanel

O olhar intimista e curioso de Sam Taylor-Johnson sobre a intimidade criadora e cotidiana de Coco Chanel, em fotografias inéditas que a artista fez durante um único dia em que teve acesso a maison da estilista francesa em Paris.


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Há algum tempo fui a uma exposição fotográfica na Saatchi, uma galeria de arte que já enche os olhos de cara só pela programação gratuita. O título da exposição não dizia muito ‘Second Floor’ [Segundo Andar] e o tema parecia claro ‘o apartamento parisiense de Coco Chanel’.

Quando cheguei meu queixo caiu... Mesmo. Quem inocentemente (ou tolamente?) esperava ver imagens da residência de Coco no estilo realista, uma poltrona aqui, um quadro ali, um tapete, um quarto (coisa que não existe lá, aliás) se decepcionou, mas pra melhor! Sam-Taylor Johnson (fotógrafa, diretora, artista plástica e mulher inspiradora – responsável pela adaptação do afamado 50 Tons de Cinza pro cinema, hum) assina as imagens. Todas foram feitas durante um único dia, quando a artista pode fotografar o que quisesse dentro daquele prazo.

As imagens não são nada óbvias e nem de longe monótonas ou simplistas. Bom, é a casa da Chanel, não deveria ser, certo? Não sei. Mas eu fiquei absolutamente hipnotizada pela fotos; Sam abusou, no bom sentido, das proporções ao revelar detalhes sutis e intrigantes, numa quase exposição de intimidade, em imagens enormes que mal pareciam fotografias, pareciam pinturas. Os detalhes pertencem a pintura dos móveis, esculturas de metais, candelabros e lustres, ou seja, das coisas do cotidiano que Gabrielle escolheu pra conviver em sua solidão artística. Tudo ali funciona numa sincronia entre exotismo e refinamento, mas o que me chamou atenção mesmo foi o encontro do Oriente e Ocidente marcado em cada um dos detalhes fotografados por Sam. Chanel não gostava de portas, então cobriu todas com biombos importados da China; tinha um encantamento por leões, que podem ser vistos em diversas esculturas pelo apartamento.

A imagem acima, retirada do site oficial de Sam Taylor-Johnson (link abaixo) me fez sentir o que provavelmente Chanel tanto sentia, solidão. Gabrielle desfrutava de muitos e muitos momentos de reclusão, o que faz sentido na dinâmica criativa de muitos artistas, porém, mesmo sozinha entre aquelas paredes, Chanel se cercou de um universo de inspiração, o qual Karl Lagerfeld confessou visitar sempre para suas criações. Os pássaros nessa imagem, tão próximos, se tocam, mas num mundo de ponta cabeça, pra baixo, como se ‘através do espelho’; outro ‘casal’ de pássaros também se beija, numa outra imagem, mas dentro de uma gaiola dourada, numa escultura pequena que fica sobre a mesinha da sala. Tudo nos detalhes fotografados por Taylor-Johnson parece fazer parte de uma outra realidade, de um universo desenhado com minúcia por Chanel, que ali não dormia, não ha quartos no imóvel, já que a estilista escolheu se retirar no Ritz, na Place Vendôme, cuja suíte mademoiselle chamava de ‘sua casa’.

As imagens se revelam entre a penumbra e o reluzir de pontos dourados, sejam eles os leões, as pinturas, os castiçais ou as esculturas. Mas quem reina ali é a solidão, acompanhada de boas doses de inspiração. Quando você entra no universo particular de mademoiselle você entende sua escolha por manter uma suíte num hotel e lá pernoitar. Tudo continua mistério no apartamento que ainda se mantem exatamente como sua dona o deixou. Sam me permitiu espiar pela fechadura, com uma lupa gigantesca, a intimidade criadora e solitária de alguém cuja maestria artística segue misteriosa, porém encantadora.

Imagem: http://samtaylorjohnson.com/photography/art/second-floor-2014


Gabi Cavalheiro

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