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O nono termo da Sucessão de Fibonacci.

Edmar Borges

Jornalista sem tcc, designer sem graduação, ilustrador sem curso. Um latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes & vindo do interior de Minas.

As (des)formas de Jon Jacobsen

O estilo gráfico do designer e fotógrafo chileno Jon Jacobsen é único na sua voracidade e tem ganhado cada vez mais reconhecimento internacional. Com a incrível aplicação das ferramentas digitais e dos seus conceitos de surrealismo, a arte intimista de Jon é um salto dilacerante para bem longe do previsível.


1079133-8.jpg COURAGE AS A FAMILIAR (autorretrato de Jon)

Muitas pessoas provavelmente não estão prontas para o design deste artista chileno. Mas, com certeza, as formas embaralhadas e a síncope gráfica de Jon Jacobsen estão prontas para todas as pessoas. Invertidas, dobradas, partidas, misturadas e reinventadas, as imagens manipuladas por Jon evocam maturidade, dedicação e, claro, talento. De maneira nada sutil, ele desestrutura padrões geométricos e os reestrutura em um novo modelo.

De forma autodidata, Jon começou a fotografar aos 15 anos sob consulta de tutoriais na internet. Segundo ele, seu aprendizado aconteceu a partir de tentativas, de ensaios e erros. Dois anos mais tarde, ele ingressou na universidade e estudou desenho gráfico, quando passou a complementar sua arte com o que aprendera sobre fotografia. Ao sair da universidade, se dedicou por completo à sua obra artística, o que faz até hoje.

tumblr_mgpcmfaDoy1qzw5wjo1_500.jpg REFÓRMULA (autorretrato de Jon)

Para quem está acostumado com fotografias comportadas, seus projetos podem parecer um escândalo. Não por sua técnica ou seus formatos – na verdade, o design de Jon não chama a atenção só pela qualidade das fotos. Suas criações são, além de bem clicadas, reinventadas após o clique. Aí está sua grande jogada. Com cuidado e bom gosto, ele remasteriza as cores e as formas, criando um novo ser em foco. Jon desconstrói o que já não é muito óbvio. Ele recheia os espaços de suas imagens com dimensões absurdas, aberrações visuais e dosadas investidas de choque.

Na verdade, acredito que o conceito subversivo seja seu grande segredo. Jon arranca membros, derrete peles, abre fendas nos corpos, arranja peças esquartejadas em brilhantes e hipnóticas desconstruções. Ele mistura animais, seres humanos ou até mesmo pequenas “partes” de ambos em uma tela simples que dá destaque ao objeto de sua manipulação gráfica. Com o uso de técnicas digitais, ele é capaz de inventar um herói e um vilão. Da mesma maneira que tira os braços, os acrescenta. Assim, sua arte se torna narrativa.

Conceitual, intrigante e moderno. Este é o design de Jon. Apostando no surreal, ele dribla os padrões formais e oferece aos amantes das artes visuais um banquete de surrealidade. Em uma de suas criações, ele se retrata como um homem de caráter inexpressivo que “maneja” um acordeão. Mas não um acordeão real, e sim uma cobra, enroscada entre os dedos de suas mãos magras e pálidas. A postura encurvada do personagem inspira dúvida. Então, podemos encontrar a natureza narrativa de sua obra. Quem é este homem? Com apenas um dos olhos visível, porém esfumaçado, ele encara você. O que ele deseja? Quais são seus pensamentos mais secretos? Seu ombro distorcido, as nuances da carne expostas e a fissura de seus modos instigam. Qual a história dele? O que esse homem é capaz de fazer? O que ele já fez? Jon consegue, por meio dessa reconstrução, provocar nossa mente.

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Jon também explora o dinamismo macabro em sua série The Present. Em GIFs distorcidas ele retrata um personagem aparentemente atormentado. As divagações do homem se convertem em espasmos sinceros de agonia e relaxamento. Sim, de ambos. Não é possível categorizar a essência de sua proposta, pois as imagens que ele constrói podem gerar reações distintas. Graças ao movimento possibilitado pela montagem em GIF, Jon apresenta um estado de delírio presente, vivo. A arte não estática é ainda mais provocante, pois sugere os acontecimentos e as ideias que permeiam o contexto do personagem. Ele está em transe? Como ele se sente? É inevitável a curiosidade.

O artista chileno desmembra as faces do ser e qualquer um pode interpretá-las à sua maneira. Por isso seu convite ao cenário espectral de suas criações é intimista. Vagueie pelas feições e distorções da criatura e conheça suas angústias e felicidades, ambas subjetivas. Em uma imagem, por exemplo, ele apresenta um personagem que se rende aos céus no que parece sua apoteose cotidiana, enquanto um buquê de flores vermelhas e alaranjadas explode em uma mão preguiçosa e desinteressada. Os elementos parecem inofensivos. E talvez sejam.

tumblr_mwhwyl8nXY1qhaxf5o2_r1_500.jpg GIF da série THE PRESENT

Em uma outra imagem da mesma série, porém, ele condena o personagem ao desencargo de sua própria monstruosidade. Para começar, há três braços em cena, todos muito magros e sombrios, com a pele seca, as mãos compridas e os dedos prolongados. Uma das mãos vagueia no escuro, a outra tampa seus olhos e a última segura com apego um crânio animal. Os membros do personagem, como de costume no design de Jon, se desmancham em um turbilhão de formas esfumaçadas e coloridas. A cor azul-celeste predomina, perfeito contraste com as demais cores presentes na tela. Assim, seus tormentos são externizados. Sua boca está dilacerada pelo corte impiedoso de uma ferramenta digital. Diferente da imagem anterior, esta não inspira desinteresse, preguiça ou inocência. Pelo contrário, ela evoca a visão de um ataque psicótico ao mesmo tempo em que ilustra uma porção de sentimentos ordinários do dia a dia. Todos nós, a qualquer momento, podemos ser vítimas dessa mesma culpa ou agonia.

tumblr_mwhwyl8nXY1qhaxf5o5_r1_500.jpg GIF da série THE PRESENT

Depois de observá-la, descobre-se que a arte gráfica de Jon é mais que uma reconstrução surrealista, fantasmagórica ou subversiva. Na verdade, ela é muito objetiva, pois retrata, em maiores e menores graus, toda as sensações humanas. Explorando conceitos visuais e sociais, como a contracultura hipster, a techincolor dos cenários cinematográficos dos anos 60 e a aplicação do ponto de vista do próprio Jon, suas imagens explodem – quase literalmente. É um show de carne dilacerada, ideias secretas e cores lindas.

No Chile, Jon tem se destacado no cenário artístico. Seu trabalho tem ganhado reconhecimento e esse foi um ano de visualização na mídia. Além de já expor e publicar sua obra, um de seus projetos foi selecionado para a V Bienal de Design de Santiago, o La Voz del Puerto. E através da internet, onde ele contou ter aprendido tudo o que sabe, seu conceito único de desing se expande para todo o mundo.

tumblr_mpdfq7q7VR1qhaxf5o1_500.jpg THE VOID (autorretrato de Jon)

Confira toda a criação publicada de Jon em seu site e em sua página no facebook.


Edmar Borges

Jornalista sem tcc, designer sem graduação, ilustrador sem curso. Um latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes & vindo do interior de Minas..
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