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O nono termo da Sucessão de Fibonacci.

Edmar Borges

Jornalista sem tcc, designer sem graduação, ilustrador sem curso. Um latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes & vindo do interior de Minas.

Quem precisa de um Príncipe Encantado no século 21?

A Disney, que sempre incentivou a imagem de uma princesa que aguarda o beijo de seu Charming, agora investe em um novo amor verdadeiro. Terá chegado o tempo em que os príncipes se tornaram inúteis?


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ATENÇÃO: Esse artigo contém sérios spoilers de Valente, Frozen e Malévola. Mas sugiro que o leia mesmo assim.

Era uma vez, em um reino distante, uma princesa que se meteu em problemas. Nada poderá salvá-la, está tudo acabado. A não ser que...

A grande maioria dos contos de fadas (que desde o século passado vêm faturando bilhões por ano com superproduções cinematográficas, brinquedos, roupas e até material escolar) surgiram, na verdade, num tempo em que a doçura e os vestidos cor-de-rosa não eram exatamente o forte dos escritores. Na Europa medieval, cenário de todas as fábulas, as coisas não eram bem como vemos nos filmes infantis hoje em dia. Os vestidos eram desbotados, o sol não brilhava a favor do reino e nem mesmo a realeza escapava de ter os dentes mais ou menos podres. E foi nessa Europa que autores como Charles Perrault, Giambattista Basile e os famosos irmãos Grimm se inspiraram para criar histórias como A Chapeuzinho Vermelho, Cinderela e A Bela Adormecida. Afinal, essa era a realidade em que esses escritores viviam. Ou seja: eles não escreviam histórias muito bonitas. Seus contos tinham mais a função de advertência que de entretenimento. Chapeuzinho, por exemplo, cujo vermelho representava sua menarca, teve a vózinha dilacerada por um lobo realmente muito mau. E a coitada da Talia (atualmente conhecida como Princesa Aurora), não bastava ser assediada por um estranho enquanto dormia, tinha uma sogra canibal.

Mas todo mundo sabe que Walt Disney não construiu seu império com filmes de terror. Sua produtora, que é atualmente o legado mais influente de Hollywood, tornou-se rentável porque substituiu os horrores literais da verdadeira Era Medieval por contos de fazer o coração sambar. A Branca de Neve, que morava numa casa com mais sete homens, não ficou nem um pouco mal falada depois que seu filme, em 1937, foi o maior sucesso de animação de seu tempo. Em um nem tão belo dia assim, a mulher foi envenenada por sua própria madrasta e, ao que tudo indicava, morreu. Até que um homem montado em um cavalo apareceu de repente, a viu em seu suntuoso caixão de vidro e teve a brilhante ideia de se apaixonar por ela... e beijá-la! Sim, ele a beijou sem o consentimento dela. E a salvou.

branca mortinha.jpg Snow White and the Seven Dwarfs (1937)

Branca não tem tantas parceiras em seu drama que possa inaugurar um sindicato, mas ela também não está sozinha. Bela Adormecida que o diga. Ela esteve em sono profundo durante anos antes de ser beijada por um homem que também montava um belo cavalo e tinha lá suas particularidades morais. Ela também foi tocada sem autorização. Mas tudo bem, porque o importante era acordar. E quando isso aconteceu, tanto para ela quanto para a branquela envenenada, som de harpas e aclamação de fadas ecoaram por todo o reino. O encanto se quebrou graças à virilidade e ao poder instituído do príncipe! Porque só ele, com seu beijo de amor verdadeiro, poderia fazê-lo.

Pois bem. Isso foi no século 20. Agora dizem que o mundo vive um cenário diferente. É muito difícil chegar ao ponto sem mencionar todo o contexto em que a sociedade esteve inserida nos últimos cem anos, especialmente a ocidental. Por outro lado, cem anos são um século de história. Isso é coisa demais para um texto. O importante agora é entender que as mulheres, nesse intervalo de tempo, ganharam o direito ao voto, espaço no mercado de trabalho e a atenção da mídia. Não chegamos num patamar igualitário e receio que ainda estejamos um pouco longe disso. Mas a mulher do século 21 é, sem dúvidas, mais independente e menos submissa à espera do príncipe encantado que a do século 20. E a Disney percebeu isso.

merida flecha.jpg Brave (2012)

E, em 2012, nós percebemos que ela percebeu. Valente apresentou ao público Merida, uma princesa viking sem modos. Apesar de alguns vícios estéticos de praxe, como a cinturinha armada e os olhos inacreditavelmente claros, Merida foi um dos primeiros indícios de uma lenta revolução. Ruiva e de cabelos encaracolados, a primeira princesa desleixada da Disney não aceita casar-se com um homem que não conhece, embora esse tipo de matrimônio pareça justamente o mais natural para sua mãe. E quando a Rainha Elinor é enfeitiçada a pedido de Merida e transformada em um urso, a princesa é forçada a encarar as consequências dos seus impulsos. É notável uma cena no castelo do seu pai em que ela é porta-voz do novo Conceito Disney de Ser Princesa e anuncia:

— Decidi fazer o correto e quebrar a tradição. A minha mãe, a Rainha, sente no seu coração que eu... que nós... temos que ser livres para traçar a nossa história, seguir os nossos corações e encontrar o amor quando chegar a hora certa.

Merida hesita enquanto fala. Não é pra menos – ela está sendo mesmo muito valente renunciando ao charming na frente de milhões de crianças de todo o mundo. E ela descobre que, como imaginava, o amor não é algo que ela guarda para um homem totalmente aleatório que monta a cavalo. O amor, aquele verdadeiro, se mostra muito mais útil salvando sua mãe do feitiço.

merida and momw.jpg Brave (2012)

Em Frozen ficou tudo em família também. Lançado no ano seguinte, a animação apresentou ao público a princesa do “let it go”. Elsa, que se enclausurou em um castelo de gelo, é o retrato da independência. Ela não tem um príncipe e não acha muito sensato Anna, sua irmã mais nova, se casar com alguém que acabou de conhecer. E, assim como em “Valente”, quem sofre da costumeira praga é uma personagem secundária. Durante o filme, somos conduzidos a gostar de Anna, a irmã mais nova de Elsa que, enganada pelo suposto Príncipe Encantado, se envolve com o plebeu Kristoff. Naturalmente, Anna é vítima de um encanto que só poderá ser quebrado com um ato de amor verdadeiro. Então você espera que Kristoff seja adepto da higiene bucal e faça bonito no clímax do filme, quando sua amada está toda congelada aos pés do castelo. Mas vamos rememorar duas coisas. Primeiro: o mundo mudou. E segundo: a Disney sabe.

Pois eis que o ato que salva Anna parte de Elsa.

annas afte medio.jpg Frozen (2013)

Ufa! Parece que alguém finalmente entendeu que o amor não está apenas nos destemidos corações de homens atléticos com calças apertadas. Nem tudo é sexual, mundo! O amor fraternal, entre irmãos ou amigos, também é verdadeiro! Pode acreditar, porque não foi só Anna e a Rainha Elinor que experimentaram esse novo conceito de amor de verdade.

shock2.jpg Oh, my gosh!

Em 2014, Aurora resolveu abrir o jogo e desmentir de vez essa história de que foi o Phillip quem a salvou. Como muitos sabem, Aurora cai em sono profundo após espetar o dedo em uma roca no seu 16º aniversário. Segundo o encanto de Malévola, a fada traída que a amaldiçoou em seu batismo, ela só despertaria sob o efeito desse famoso beijo de amor verdadeiro, que aconteceu e de fato a salvou, mas agora não graças ao abobado Príncipe Phillip e sim à própria Malévola. Nessa nova versão do conto de A Bela Adormecida, Malévola acaba por desenvolver sentimentos de amizade pela princesa enquanto a vê crescer. Ela tenta em vão desfazer seu feitiço e sofre no leito de Aurora por sua crueldade do passado. Nesse instante a beija, chora, pede desculpas, etc. E, depois que ela se levanta e vira as costas, o espectador pode ver no canto da tela a boca e os olhos da princesa se abrindo de volta à vida.

maleficent-kiss.jpg Maleficent (2014)

Juntas, essas três produções arrecadaram quase 2 bilhões de dólares em todo o mundo. “Frozen”, responsável por metade desse lucro, tornou-se a maior bilheteria de animação de todos os tempos. Então, seja lá qual for a nova proposta, está funcionando. Será ela uma jogada da Disney para acompanhar a opinião pública ou a opinião pública é que vai acompanhar quaisquer que sejam os novos conceitos que a Disney vier a lançar?

Impossível saber agora. Talvez, se o padrão de beleza regressar alguns séculos, uma ainda mais nova versão de A Bela Adormecida trará uma Aurora gordinha e menos loira. É possível até que não demore muito para dois Príncipes Encantados se apaixonarem, bem como para que seja imposto um formato mágico do amor gay. A verdade é que esse debate é circular. As razões para que gigantes como a Disney resolvam reformular seus ultrapassados padrões não são mais importantes que a reformulação em si, lenta mas progressiva. E, no núcleo desse ciclo, a concepção de “felizes para sempre” estará constantemente sujeita a mudanças e apta para influenciar todos os setores da vida humana, da economia ao cinema (não necessariamente nessa ordem).

Afinal, nós jamais saberíamos da existência de muitos príncipes se não houvesse antes uma vilã suficientemente poderosa.

Maleficent_laughing_ironicaly_-_kmp.jpg Sleeping Beauty (1959)


Edmar Borges

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